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06 Dezembro 2018

 

'Crítica da Razão Negra', de Achille Mbembe, vê maior parte da humanidade na posição de minorias sociais.

O artigo é de André Martins, historiador e tradutor, publicado por O Estado de S.Paulo, 25-11-2018.

O título Crítica da Razão Negra sugere que o livro do filósofo e historiador camaronês Achille Mbembe, recém-lançado no Brasil pela N-1 Edições, seja um tratado escrito em estilo acessível somente a um punhado de especialistas, ou que se trate de uma discussão sistemática da história do pensamento de matriz africana. Não é nem uma coisa nem outra. O ensaio trata do estatuto do negro e da África como reverso incômodos de uma razão (branca) que se crê redentora da humanidade.

Fica ao gosto do leitor culpar Prometeu, Eva ou Satanás: o fato é que, no Ocidente, associamos a ideia de conhecimento a uma paisagem cultural europeia. É no clima temperado da península Europa que se gesta tradição que pauta nosso pensar. Ou, pelo menos, assim pensamos. A escola nos habitua a figurar a história do pensamento ocidental como a progressiva expansão dos horizontes da razão, instrumento pelo qual “o homem” se emancipa de sua condição original de menoridade. Se o portador privilegiado dessa razão, o homem branco, foi um tanto ou quanto bruto em sua conquista do mundo, paciência: sua missão, descontados acidentes de percurso eventuais, era civilizar uma humanidade que estaria, de outro modo, destinada à barbárie. Se já custa acreditar na benevolência desse processo há algum tempo, ficará mais difícil depois de ler a Crítica de Mbembe.

A ideia de que as atrocidades cometidas pelo homem branco em sua trajetória expansionista expressam tendências internas à sua cultura está, é claro, longe de ser novidade. Entre os casos mais conhecidos, podemos citar Theodor Adorno, que já propunha uma crítica da modernidade ocidental, e Frantz Fanon, cuja contestação da razão branca se articula com a narrativa do devastador panorama da violência colonial. Para Fanon, referência capital para Mbembe, o Ocidente chegou a desenvolver os elementos necessários à emancipação da humanidade, mas perdeu essa chance ao se entregar ao curto-circuito do subjetivismo autocentrado. Seria preciso, portanto, recomeçar do zero, com os povos colonizados como protagonistas.

Para a Crítica da Razão Negra, não é (somente) que, ao criar o negro como figuração preferida da ideia de Outro e a África como espaço de alteridade, a Europa o esteja relegando a uma posição inferior ou secundária, mas (sobretudo) que, na implementação do projeto moderno, a Europa precisa criar essa criatura e esse espaço para funcionar. A razão negra se constitui como um canteiro de obras (ou aterro sanitário) onde o pensamento europeu manipula uma ideia de outro para criar a ideia de si: não há razão “pura” (entenda-se: branca) sem razão negra. Não é preciso exumar os restos de pensadores malditos, como Gobineau ou Spencer, para observar essa dinâmica: podemos encontrá-la em Kant, Hegel e Tocqueville. A invocação desses pensadores, no entanto, não vai puramente no sentido da denúncia de seu evidente racismo, mas também naquele da compreensão da complexidade histórica da dialética entre o Ocidente e seus outros. É nesse espírito que o título, não sem uma ponta de ironia, indica a inscrição do livro no movimento filosófico ao qual, ao mesmo tempo, se contrapõe, virando-o pelo avesso. Se parasse aí, a Crítica já seria uma contribuição da maior relevância ao pensamento contemporâneo, tanto pelo escopo da análise quanto pelas avenidas que abre para diversas áreas do conhecimento.

Um dos pontos altos do livro está na sua instigante interpretação da situação histórica atual a partir da noção de um “devir negro do mundo”: a crescente desigualdade, a progressiva degradação do meio ambiente e precarização das condições de trabalho, com efeitos nefastos sobre os padrões de vida de todas as classes sociais, poupando somente o pequeníssimo grupo dos super-ricos, conduzem uma porção cada vez maior da humanidade a uma forma de vida originalmente reservada àqueles que a Europa chamou de “negros”.

Como não existe critério fixo objetivo para definir quem é negro, a ousada hipótese de Mbembe é a de que o que se vê hoje é a universalização da condição negra – e portanto dos espaços e corpos sujeitos à “razão negra”, reguladora dessa forma de vida.

Mbembe exibe uma combinação rara de reflexões densas com uma enorme generosidade com leitores que, como o autor deste texto, podem desconhecer ou conhecer mal os temas e questões abordados no ensaio. Chama atenção, aliás, que Mbembe seja, caso raro entre os pensadores contemporâneos de renome internacional, um historiador – talvez isso explique sua singularidade. Enquanto muitos pensadores “metropolitanos” importantes se ocupam da falência do paradigma de tempo histórico, num debate que começa a dar sinais de cansaço, Mbembe se vale da narrativa histórica para fazer brotar um vigoroso aparato conceitual, numa demonstração das potencialidades da forma ensaística para o pensamento contemporâneo. Pode-se atribuir tal êxito à proximidade com Fanon, cujos textos dos anos 1950 e 1960 já oscilavam com rara destreza entre a teoria política, a história e a filosofia, sem nunca resvalar no denuncismo piegas de outros autores porventura mais conhecidos. Ao final, abrem-se os horizontes do pensamento para aquilo que Fanon propunha em Os Condenados da Terra: uma convocação a recuperar os cacos de um pensamento que se perdeu, no Ocidente, em solipsismos narcísicos, e pensar as possibilidades de superação de um modelo excludente de modernidade – um pensamento capaz de pensar o mundo, não como universo aberto à conquista e ao usufruto, mas como finitude que nos falta aprender a compartilhar.

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