Comboni, Ramin e Francisco: não há evangelização sem promoção humana

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Por: Jonas Jorge da Silva | 27 Novembro 2018

Se fosse possível um encontro entre Daniel Comboni (1831-1881), Ezequiel Ramin (1953-1985) e o Papa Francisco, seria extraordinário. Promotores de uma evangelização encarnada na realidade dos povos, certamente, teriam muito a conversar. O que os dois primeiros sonharam irradia, hoje, nos gestos, palavras e ações do Papa Francisco.

Foi com esse espírito de indissociável vínculo entre evangelização e promoção humana que, no último sábado, 24 de novembro, estivemos juntos, rezando. Padre Dário Bossi, provincial dos Missionários Combonianos do Coração de Jesus no Brasil, foi quem dinamizou o encontro de estudo, reflexão e oração, a partir da iniciativa Rezar com os Místicos, promovida pelo CEPAT, em parceria com Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Momento de motivação inicial do encontro (Foto: Jonas Jorge da Silva)

Daniel Comboni, que nasceu em Limone sul Garda, Itália (1831), consagrou sua vida ao trabalho de evangelização na África, morrendo aos 50 anos (1881), em Cartum (Sudão), após um intenso trabalho de dedicação ao povo africano. “Só tenho uma vida para oferecer pela salvação dos africanos: gostaria de ter mil; e as ofereceria todas para esse fim”, testemunhou Comboni, um homem apaixonado pela África e pelo protagonismo de seus povos. “Salvar a África com a África” foi sua grande intuição, pois sempre acreditou que os próprios africanos deveriam ser os sujeitos de sua evangelização.  

Padre Dário Bossi destacou três elementos que são cruciais na espiritualidade missionária comboniana: o coração, a cruz e a intuição do lema de São Daniel Comboni: “Salvar a África com a África”.

De fato, foi o amor-paixão pelos últimos, pelos mais pobres da terra, a partir da imagem do Bom Pastor, que animou toda a missão de Comboni e a doação de sua vida aos africanos. Estar em sintonia com o Coração de Jesus, deixar-se pulsar por ele, ser apaixonado pela causa de seu Reino e viver até as últimas consequências as implicações da semeadura do Evangelho, em defesa da vida em abundância para todos, são apelos cotidianos aos que se colocam em missão nas fronteiras.

A partir da intimidade com Jesus e o compromisso com a justiça de seu Reino, o missionário se depara com a cruz, sendo impelido a abraçá-la com abnegação. Para Daniel Comboni, “as obras de Deus nascem e crescem aos pés da cruz”. Sendo assim, no trabalho em favor da África central, encontrou na mística da cruz um caminho de redenção para enfrentar todas as intempéries provenientes de uma missão repleta de dificuldades e desafios. Comboni aprendeu na própria experiência missionária que “o verdadeiro apóstolo não deve ter medo de nenhuma dificuldade, nem sequer da morte. A cruz e o martírio são o seu triunfo” (Daniel Comboni, Escritos, 5647).

Os frutos de sua missão não foram em vão. De sua intuição, “salvar a África com a África”, ressoou um processo contínuo de descoberta do protagonismo dos pobres, de redescoberta de uma fé transformadora, que privilegia os lugares “menos importantes” na lógica mundana, já que deles surgem alternativas vitais para a vida de homens e mulheres e, hoje, para toda espécie de vida no planeta.

De 1881, quando morre Daniel Comboni, para 1985, quando o missionário comboniano Ezequiel Ramin foi assassinado em Rondônia, no norte do Brasil, temos pouco mais de um século de história, com uma verdade que permanece irretocável: Evangelho e promoção humana caminham juntos. O missionário sabe dos obstáculos que deve enfrentar, com paixão e confiança em Deus, sendo convidado a doar a própria vida aos irmãos e irmãs, principalmente aos pobres e marginalizados.

O sonho de Daniel Comboni com uma África protagonista de sua história, também se traduziu nos sonhos do jovem sacerdote italiano Ezequiel Ramin, que se comprometeu até as últimas consequências com as dores, os dramas e dificuldades de um povo a quem historicamente foi negado o direito à terra, à dignidade. Promotor da paz e da esperança, em um contexto de luta pela terra, recebeu o mais duro golpe: o silêncio da truculência das armas. Contudo, sua voz jamais poderá ser silenciada, pois o fio vermelho do Evangelho é força viva, verdade perene que brota em todos os cantos da Terra.

Em um legado de magistral importância, Ezequiel Ramin exortou os jovens a sonhar. Disse: “Gostaria de dizer algo especial para vocês que são sensíveis às coisas belas: tenham um sonho! Cultivem um sonho bonito e o sigam por toda a vida! A vida que tem um sonho é uma vida feliz. A vida que segue um sonho é uma vida que se renova a cada dia. A nossa vida que parece longa, na verdade é curta. Que o sonho de vocês faça felizes não somente todas as pessoas, mas inclusive as próximas gerações. É belo sonhar de fazer feliz toda a humanidade. Não é impossível!”.   

E hoje, quando nos deparamos com o Papa Francisco pedindo aos jovens do mundo para que façam barulho, que não se contentem em levar uma vida artificial e descolada da realidade em que vivem, a entrega radical do jovem sacerdote Ezequiel Ramin, com seu compromisso de amor aos pobres e desassistidos da realidade rondoniense dos anos 1980, continua desafiando todos nós a repensar projetos de vida, a sair do egoísmo e da autorreferencialidade e a olhar para o mundo, para os seus problemas emergenciais, para os dramas de tanta gente, cientes da urgente e necessária disseminação da boa nova do Evangelho.

Assim como Comboni, no contexto africano, e Ezequiel Ramin, em solo latino-americano, o Papa Francisco, saindo do “fim do mundo”, anuncia que como Igreja podemos mais, sempre e quando estivermos dispostos a abrir o nosso coração para a cultura do encontro, a enfrentar as cruzes da caminhada e a reconhecer o protagonismo dos pobres da Terra. Não por acaso, em Santa Cruz de la Sierra (Bolívia), em julho de 2015, foi categórico ao discursar para os movimentos populares: “Vocês, os mais humildes, os explorados, os pobres e excluídos, podem e fazem muito. Atrevo-me a dizer que o futuro da humanidade está, em grande medida, nas suas mãos, na sua capacidade de se organizar e promover alternativas criativas”.

Padre Dário Bossi e os integrantes da família comboniana que compartilharam suas vidas conosco, em um sábado especial, são também testemunhas deste modelo de Igreja que vive a espiritualidade missionária, inspiradas no legado de São Daniel Comboni, encorajados pela força de mártires como o Padre Ezequiel Ramin e animados pelo Papa Francisco, que com a sua virada profética desperta a crítica de muitos membros da própria hierarquia católica, mas ao mesmo tempo recupera a alegria do Evangelho, centrando-se naquilo que é essencial para a caminhada cristã. A Igreja toda é desafiada a fugir das garras do clericalismo estagnante e os leigos e leigas, em especial, são chamados a assumir o seu batismo.

A mística na caminhada do missionário e missionária (Foto: Jonas Jorge da Silva)

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