Especialista antiabuso diz que Papa pode deixar claro que o problema é de todos

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26 Novembro 2018

Teresa Kettelkamp, especialista da área de proteção infantil e membro da equipe papal encarregada de liderar esforços antiabuso, afirmou que o encontro mundial de bispos, que ocorrerá de 21 a 24 de fevereiro, para abordar a questão forçará prelados a aceitar o problema como um fenômeno global que acontece em seu próprio território. Kettelkamp expressou esperança de que haja um acompanhamento concreto após a reunião.

"Acho que uma das coisas que o Papa quer enfatizar é que todas as conferências episcopais do mundo são responsáveis por proteger suas crianças", disse ela, numa entrevista ao Crux, acrescentando que todas as conferências episcopais terão de reconhecer que "esse crime horrível também acontece no seu território".

A reportagem é de Elise Harris, publicada por Crux, 25-11-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Independentemente se “acreditam ou não, negam ou não, querem evitar ou não, isso existe", disse, destacando que "é um problema global, e quero que estejamos em harmonia. Não é um problema da Igreja dos EUA, da Igreja chilena, da italiana, mas de toda a Igreja, e quero que estejamos em harmonia, usando os mesmos processos."

Embora a implementação individual possa ser diferente a cada país, segundo ela os princípios são os mesmos: priorizar as vítimas; educação, investigação e responsabilização.

Kettelkamp, ex-líder do Escritório de Proteção da Criança dos bispos dos EUA e membro da Pontifícia Comissão do Vaticano para a Tutela dos Menores, falou um dia depois do anúncio do Vaticano sobre a comissão organizadora da cúpula em fevereiro com os líderes de todas as conferências dos bispos do mundo para enfrentar a crise de abuso sexual clerical.

Kettelkamp disse que ficou surpresa ao saber que o cardeal de Boston Sean O'Malley, presidente da Comissão para a Tutela de Menores, não fazia parte da comissão organizadora, que tem quatro membros. Porém, por ter vasta experiência e ser amplamente respeitado por sua competência na área, ela disse que os conhecimentos de O'Malley "nunca poderiam ser negligenciados".

Eis a entrevista.

Na sua opinião, quais têm de ser os principais pontos [na reunião]?

O problema é de todos, e acho que uma das coisas que o Papa quer enfatizar é que todas as conferências episcopais do mundo têm a responsabilidade de proteger as crianças, as crianças da Igreja, de muitas formas diferentes: educação, boa formação, responsabilização adequada, verificação de antecedentes. Mas a prioridade é ouvir as vítimas e reconhecer que todos os países têm vítimas e que nossa primeira responsabilidade é com as pessoas.

Claro que a Igreja é importante, mas acreditamos na santidade da vida, então se nos mantivermos firmes a essa crença, a pessoa, a vítima, é nossa prioridade, não uma instituição... Mas a instituição da Igreja é uma poderosa aliada para proteger a santidade da vida por ter a capacidade de educar, criar um ambiente seguro em torno da criança, trabalhar com os pais, trabalhar com as comunidades, avaliar se os padres têm uma formação que não coloque as crianças em risco, pois seus antecedentes são verificados. Então esse é um: promover a responsabilidade local.

Em termos gerais, cada conferência episcopal precisa perceber que este crime horrível também acontece em seu território. Eu às vezes penso que as conferências se preocupam é com não saber como lidar, e por isso acho que a educação é importante. Não apenas educação nas paróquias e nas escolas, mas como se compartilha com as conferências episcopais do mundo todo como e o que se deve fazer? Isso nunca foi feito antes.

Eles nunca assumiram essa responsabilidade de proteger as crianças, porque negaram até que o problema existia dentro da Igreja. Acho que eles precisam das ferramentas para fazer o que o Papa espera que façam, e essa ferramenta é a educação, dar os recursos e os meios para criar ambientes seguros para as crianças.

A reunião de fevereiro será muito importante, pois haverá bispos de todo o mundo presentes. Mas os bispos pareciam divididos durante o sínodo, e alguns diziam que era um problema apenas ocidental. É possível que todos estejam com o pensamento alinhado nesse ponto?

Com certeza. Uma reunião de quatro dias não vai mudar a cultura da Igreja. Acho que é um grande começo, e ainda bem que o Papa disse que “basta”. É como ter uma grande reunião de colaboradores, basta. Juntos, vou compartilhar as minhas expectativas e suas responsabilidades com vocês, e ele vai dizer o que espera. Acho que ele vai falar sobre suas expectativas de proteger as crianças e reconhecer que dentro de sua conferência também existe esse problema.

Independentemente se acreditam ou não, negam ou não, querem evitar ou não, isso existe, e eu acho que ele vai dizer que espera que sejam responsáveis por proteger as crianças. Não sei se ele vai falar das consequências, pois é mesmo um Papa de amor, não é do seu feitio, na minha opinião, ser agressivo, mas acho que vai levá-los a uma maior responsabilização e dizer que é isso que precisa ser feito, faz parte da responsabilidade de pastor líder e de pastor das conferências: é preciso proteger as crianças, e esse problema existe perto de si, ponto final.

A senhora acha que ele pediu para os bispos dos Estados Unidos frearem a votação de propostas em Baltimore há algumas semanas também por isso?

Certamente. É uma igreja global. Estou feliz que os bispos dos Estados Unidos estão tentando resolver os problemas, mas temos a carta desde 2002, e para mim é muito frustrante continuarmos com esses problemas mesmo tendo a carta há tanto tempo.

Em primeiro lugar, isso nos mostra a profundidade da questão. É um problema terrível, mas acho que o Papa está dizendo para aguardarem um pouco porque é um problema global e é preciso que todos estejam alinhados. Não é um problema da Igreja dos EUA, da Igreja chilena, da italiana, mas de toda a Igreja, e quero que estejamos em harmonia, usando os mesmos processos. Pode ser um pouco individualizado dependendo da cultura, mas em relação ao ponto-chave da questão, sendo que fevereiro está tão perto, ele quer que os bispos tenham clareza antes de tomar qualquer ação individual definitiva.

Seria útil para a igreja publicar diretrizes universais?

Ajudaria. Ajudaria as conferências que não têm diretrizes. A Pontifícia Comissão sugeriu no nosso site, portanto, seria recomendável adaptá-las para que sejam mais adequadas à conferência. Nem tudo no mundo ocidental é transferível, mas os princípios são os mesmos: priorizar as vítimas, educação, ter alguém capacitado para investigar as acusações, formação sólida e verificação de antecedentes.

Esses princípios não mudam só porque se trata de uma conferência diferente. Os processos dentro desses princípios podem mudar um pouco, mas os princípios não. Muitas conferências episcopais não têm diretrizes. Há de 100 a 112 conferências ao redor do mundo. Eu pediria que cada uma adotasse diretrizes individualmente.

Em 2011, na liderança do cardeal [William] Levada, a CDF pediu diretrizes e as pessoas apresentaram. Como realizaram e implementaram as diretrizes eu não sei, porque não tivemos nenhuma responsabilização, o que também é um grande problema. Como responsabilizar as conferências e os bispos por colocar em prática o que apresentaram em 2011?

Na Igreja, costumávamos confiar que todos faziam o certo, mas isso já não existe mais. Não é mais uma questão de confiança, é um problema de verificação. Confiamos que as pessoas farão o certo, mas também verificamos para nos certificar. É aí que chegamos... A Igreja faz muitas boas - excelentes - obras no mundo todo, mas isso é enfraquecido com a perda de credibilidade.

Foi uma surpresa o fato de o cardeal O'Malley não estar na comissão formal de organização?

Eu diria que sim, um pouco. Mas também sei o quanto ele está envolvido com a questão, então seja membro oficial ou não, ele estará muito envolvido. Ele também tem a comissão para fiscalizar e uma arquidiocese para gerir, e seu conhecimento, eles nunca deixariam de escolhê-lo por isso. Não vejo isso acontecendo. Já estive em várias reuniões com ele, e ele é muito, muito bom. Ele tem uma longa história lidando com este assunto, sua experiência jamais seria deixada de lado.

A senhora disse que já era hora de acontecer esse encontro? Deveria ter acontecido há muito tempo? E quais espera que sejam as próximas etapas?

Com sorte, embora isso não seja muito o modo italiano, e sim o estadunidense, haverá cronograma e prazos. No final do ano, esperamos que tal e tal coisa estejam concluídas, e haverá algum tipo de verificação. Isso poderia ser construído em visitas ad limina, em que os bispos se encontram com o Papa. Seria um bom momento para entender a situação dos esforços de dada conferência episcopal para proteger as crianças. Se não for muito pouco tempo para o Santo Padre, sempre é possível dar apoio e criar algum processo de responsabilização anual até que isso entre na cultura e ela se modifique.

Precisamos de uma mudança na cultura da Igreja, em que possamos reconhecer e ajudar as vítimas a se curar. Acho que isso também será um dos principais objetivos do Papa.

Posso perguntar algumas sugestões que a senhora já deu para fevereiro?

Lido muito com responsabilização e verificação e priorizo muito as vítimas. Sugeri que comecem a conferência em fevereiro com depoimentos das vítimas. Acho que é assim que se chega aos corações dos bispos. Se eles não falarem com as vítimas, fica difícil mudar o que sentem. E muitos dos bispos podem ser as próprias vítimas. Nunca se sabe...

Os números de vítimas são muito elevados em relação a proporções. Nos Estados Unidos, é uma a quatro ou cinco meninas e um a cada seis meninos foram abusados sexualmente antes dos 18 anos. É um número muito alto de pessoas machucadas na população. Eu sempre disse que, se fossem as mesmas estatísticas aplicadas ao câncer, seria uma epidemia nacional. Teríamos os maiores especialistas trabalhando para encontrar a melhor solução.

Quando falo com os padres, lembro que essas são as estatísticas. Então qualquer que seja sua homilia, há pessoas feridas ouvindo. Somos um país ferido em relação a abuso sexual. É um mal muito, muito forte. E é um dos grandes poderes da Igreja para combater o mal, e devemos usar o poder que temos para isso.

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