Dois eventos em universidades jesuítas perguntam como a Igreja pode sair da crise dos abusos

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08 Novembro 2018

E agora? Perto do fim de um ano marcado por revelações sobre abusos sexuais em todo o mundo, no Chile, Austrália, Alemanha, Guam, assim como na Pensilvânia e em Nova Jersey, a questão de como a Igreja deve sair da crise foi o tema de dois seminários realizados em universidades jesuítas da Costa Leste dos Estados Unidos, ambos na mesma semana.

A reportagem é de Peter Feuerherd, publicada por National Catholic Reporter, 07-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Na Fordham University, em Nova York, assim como na Georgetown University, em Washington, especialistas na vida da Igreja e em psicologia ofereceram saídas possíveis, depois de descrever a profundidade das questões que estão diante da Igreja.

“Nós perdemos a confiança”, disse a juíza Anne Burke, da Suprema Corte de Illinois e ex-presidente do Conselho de Revisão dos Bispos dos Estados Unidos. “Não há prestação de contas”, disse ela sobre os bispos, observando que a Carta de Dallas de 2002, que criou uma política de tolerância zero em relação aos padres abusadores sexuais, nunca foi aplicada a eles.

Ela disse que a credibilidade dos bispos está em jogo, enquanto as revelações continuam, mesmo depois de 16 anos da promulgação da carta, envolvendo bispos que transferem padres abusivos e olham para o outro lado diante de rumores de acusações de assédio sexual contra o ex-cardeal Theodore McCarrick, de Washington.

“Eu não posso olhar para um bispo ou um cardeal e não pensar nisso”, disse Burke. “Eu não posso dizer sobre qualquer bispo ou cardeal que ele não sabia.”

O Pe. Bryan Massingale, professor de teologia na Fordham, disse no seminário do dia 29 de outubro que a crise atual é uma versão “3.0”. No início, houve as primeiras revelações dos anos 1980 sobre a Diocese de Lafayette, Louisiana, relatadas pela primeira vez pelo National Catholic Reporter, vistas na época como um comportamento isolado e aberrante.

A versão 2.0 nasceu das revelações da Arquidiocese de Boston, trazidas à tona pelo Boston Globe em 2002. Isso foi visto, por boa parte da Igreja universal, como um problema estadunidense. Fora disso, desenvolveu-se uma política de tolerância zero em relação ao fato de permitir que os padres abusadores sexuais permanecessem no ministério, assim como extensos esforços de triagem nas dioceses, voltados para os voluntários da Igreja.

Este ano, disse Massingale, surgiu a versão 3.0, uma verdadeira crise internacional, com “uma crença crescente entre muitos católicos de que a Igreja ou a hierarquia não podem se policiar”. Em todo o espectro ideológico católico, existe o consenso de que apenas a autoridade civil e a mídia podem efetivamente pressionar por mudanças.

“Chegamos ao fim da reforma gradativa”, disse ele.

Tendo destacado as questões envolvidas, os especialistas, em ambos os seminários, concordaram em suas conclusões sobre como a Igreja deve seguir em frente. Elas incluem uma reforma teológica, política, legal e psicológica.

Esse consenso incluiu apelos a:

Um maior envolvimento leigo em todos os níveis da vida da Igreja

Este não é o momento de abandonar a vida católica, disseram os palestrantes.

“Eu não vou deixar a hierarquia arruinar a nossa Igreja e a minha fé”, disse Burke, pedindo que os católicos permaneçam envolvidos em todos os níveis, das paróquias às dioceses.

Haverá obstáculos.

As lideranças da Igreja continuam sendo – disse o padre jesuíta Jerry McGlone, psicólogo e vítima de abuso sexual por um padre – “um bom e velho ‘clube de meninos’, e esse é o problema”.

Falando no seminário da Georgetown, McGlone disse que há uma necessidade de que os pais estejam à mesa quando as decisões são tomadas sobre o pessoal da Igreja. Mudanças no direito canônico precisam ser tomadas, disse, para criar oportunidades para que os leigos tenham um impacto na vida paroquial. Ironicamente, afirmou, o direito canônico que emergiu após o Vaticano II e que foi visto como um impulso para o envolvimento dos leigos na Igreja tirou grande parte do poder canônico dos leigos que administram as paróquias. A maior parte do poder real permanece nas mãos de pastores e bispos.

“Não tenham medo de ser desordeiros”, disse Erica Lizza, presidente da Catholic Women, na Georgetown. Ela disse que as mulheres, que são mais propensas a sofrer abusos sexuais, precisam estar mais envolvidas na tomada de decisões. A geração dela, disse a estudante de 21 anos da Georgetown, quer mudança, e rápido. Muitos jovens católicos, antigamente às margens da vida da Igreja, abandonaram completamente a prática católica, disse ela. É improvável que eles retornem.

O grupo de tomadores de decisão na Igreja precisa se expandir, disse Massingale. Ele observou que, no caso da Diocese de Buffalo, Nova York, foi uma mulher – Siobhan O’Connor, ex-secretária do bispo Richard Malone – que soprou o apito e veio a público sobre o fato de a diocese permitir que os padres abusadores sexuais continuassem no ministério. Sua história foi ao ar no programa 60 Minutes, da CBS, no dia 28 de outubro.

“Precisamos de um olhar severo para o poder que não prestas contas na Igreja Católica”, disse Massingale.

Kerry Robinson, da Leadership Roundtable, uma organização dedicada a melhorar a administração da Igreja, disse no fórum da Georgetown que ela encorajou os bispos e outras lideranças da Igreja a procurar o conselho de leigos especialistas em finanças. Costumava haver resistência, disse ela, mas não mais, pois os bispos tentam encontrar uma saída para a crise atual.

O fim do sigilo e a acolhida ao envolvimento das autoridades civis

Na última versão da crise, “policiais e políticos deram meia volta”, disse David Gibson, jornalista sobre questões católicas e diretor do Center on Religion and Culture, da Fordham.

Nenhum político teme as repercussões de ir atrás dos abusos sexuais na Igreja Católica, disse ele, observando o pedido por uma intimação federal maciça de todos os arquivos internos da Igreja, assim como os esforços em investigações como a do Grande Júri da Pensilvânia em vários Estados. Isso também é verdade internacionalmente, já que os órgãos judiciais foram envolvidos em países como o Chile e a Austrália.

“Toda reforma que aconteceu é o resultado de forças externas”, disse Massingale.

Lizza cresceu com o impacto dos abusos sexuais em sua vida paroquial. Um pároco carismático da paróquia onde ela foi criada foi dispensado de seus deveres depois de ser acusado de abuso. A resposta a essa crise paroquial foi um silêncio ensurdecedor.

“Havia muito segredo”, disse ela. “Não se falava a respeito disso em voz alta.” Essa reação age contra um valor da sua geração em relação à necessidade de que as instituições sejam transparentes. Caso contrário, elas correm o risco de se tornar irrelevantes. Entre a sua geração, disse ela, há “um desejo de aprender a verdade autêntica”.

Burke pediu que os bispos se apresentem com todos os seus arquivos – incluindo aqueles guardados em arquivos secretos – antes que eles sejam forçados a isso pelo governo.

“Enquanto não se chegar ao fundo do poço, não poderemos nos curar. Não poderemos nos curar a menos que saibamos qual é toda a história”, disse ela. Transparência e confissão de encobrimentos passados são necessárias antes que as mudanças efetivas possam acontecer.

>Envolver os sobreviventes

McGlone disse no fórum da Georgetown que os sobreviventes conhecem as dimensões dos abusos sexuais de formas que os outros não conhecem.

Como o sexto de oito filhos, com um pai que tinha três empregos para sustentar a família, McGlone lembrou que foi um adolescente vulnerável.

“Eu precisava de uma figura adulta”, disse ele, uma necessidade aproveitada pelo seu abusador, que cuidadosamente cuidou da sua vítima durante anos.

Cathleen Kaveny, autora e professora de Direito do Boston College, no seminário da Fordham, pediu que todas as dioceses ouçam as histórias dos sobreviventes e que façam deles parte do processo de tomada de decisões.

“Isso nos lembra que devemos ser particularmente cuidadosos com os vulneráveis”, disse ela.

O fim dos bodes expiatórios gays

Gibson observou que os tradicionalistas católicos, antigamente relutantes em enfrentar a crise dos abusos sexuais durante os papados de João Paulo II e Bento XVI, agora concordam que há um problema. Antes, eles argumentavam que os relatos de abuso sexual eram produtos do anticatolicismo. Agora, eles estão usando a crise para ir atrás do Papa Francisco e argumentar que a causa principal do problema são os padres gays.

Alguns desses grupos, como o Instituto NAPA, têm dinheiro e são ouvidos pelos bispos, disse.

“Não era homossexualidade”, disse Burke, citando o estudo do John Jay College, encomendado pelos bispos, que observou que, embora cerca de 80% das vítimas de abuso sexual clerical na Igreja Católica eram jovens do sexo masculino, muitos dos abusadores agiam devido ao atraso no desenvolvimento sexual. “Era um comportamento homossexual”, disse ela.

“Os dados não sustentam a criação de bodes expiatórios”, disse McGlone. Ele instou os bispos tentados a culpar os gays a “pararem com isso. Ponto final”.

Trata-se de uma tática diversionista, disse, semelhante a culpar pelos abusos sexuais fora da Igreja a maioria dos malfeitores, que são em grande parte brancos, de classe média e homens heterossexuais. Livrar-se deles, como os esforços para banir os padres gays, não faria nada para resolver o problema, afirmou.

Apreciar os benefícios da raiva

Citando relatos do Evangelho que narram Jesus derrubando as mesas dos comerciantes no templo de Jerusalém, Lizza observou que “a raiva não é realmente uma coisa ruim”.

Ela acrescentou: “Não é errado seguir o exemplo de Jesus e exigir mudanças”.

Mudar a formação dos seminaristas

Massingale disse que uma investigação da vida nos seminários nos anos 1990 por parte do Vaticano reforçou tendências que fomentaram a crise dos abusos. Entre elas, está uma maior separação entre os seminaristas e os leigos e o fomento de uma visão do sacerdócio como uma casta separada dos outros na Igreja.

Ele disse que os esforços para eliminar a expressão homossexual nos seminários fizeram com que uma discussão honesta sobre o desenvolvimento sexual fosse levada ao subsolo. Muito frequentemente, disse ele, os seminaristas vivem “sob um cone de silêncio” quando se trata de discutir questões sexuais e o seu desenvolvimento.

Kaveny observou que o relatório do Grande Júri da Pensilvânia, com histórias de padres abusadores que remontam aos anos 1950, indica que as raízes da crise datam de muito antes de Woodstock e do afrouxamento social dos costumes sexuais, frequentemente culpados pelos tradicionalistas como uma causa fundamental da crise.

O fim do clericalismo

Massingale observou que Francisco, conhecido pelo seu estilo otimista, pode ser cáustico quando se trata de criticar o clericalismo. Suas palavras mais duras são frequentemente dirigidas a bispos e padres que vivem muito acima de seus paroquianos e, como diz o papa, não têm “o cheiro das ovelhas”.

Francisco agiu removendo bispos, incluindo McCarrick e o cardeal Keith O’Brien, da Escócia, em relação às questões de abuso sexual, assim como o bispo Martin Holley, de Memphis, em relação às questões de governança e competência.

O clericalismo afeta não apenas os padres, mas também os paroquianos, que são treinados para se submeter à autoridade clerical, afirmou.

Outros não estavam tão confiantes de que o clericalismo entrincheirado na Igreja mudará em breve.

“Ainda vivemos como solteiros em um hotel cinco estrelas”, disse McGlone sobre muitos de seus colegas clérigos.

Ver a coragem como a principal virtude, e não a obediência

“Precisamos ter uma nova infusão de coragem na nossa Igreja. Precisamos de um novo Pentecostes”, disse Massingale.

A crise dos abusos sexuais foi alimentada, disse ele, pelo foco da obediência como uma virtude fundamental, tanto para os padres quanto para os leigos. O resultado foi uma falha em questionar as políticas e as ações das autoridades na Igreja. Massingale, citando São Tomás de Aquino, disse que a coragem deveria ser vista como a principal virtude, e não a deferência à autoridade.

Kaveny, por exemplo, ofereceu uma palavra de cautela. A reforma da Igreja pode ser muito necessária, disse ela, mas a crise é muito grande para esperar pela mudança. Todos os católicos foram impactados, tanto os sobreviventes quanto os leigos comuns que pagaram mais de 4 bilhões de dólares em indenizações por abuso sexual, dinheiro que poderia ter servido para desenvolver a Igreja, melhorar a educação católica ou ajudar os pobres.

O imperativo, disse ela, é agir agora.

“Não podemos esperar que se reestruture a hierarquia da Igreja para resolver esse problema”, afirmou.

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