32º domingo do tempo comum - Ano B - Doar-se sem medida

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Por: MpvM | 09 Novembro 2018

"Nas leituras deste domingo temos, de forma especial,  o protagonismo de duas mulheres, duas viúvas pobres e marginalizadas, que têm a capacidade de se deixarem levar pelo amor, numa entrega incondicional a Deus.

"As duas viúvas presentes na liturgia nos interpelam a doar-nos sem medida e ensinam a cada um/a de nós que o critério para discernir a autenticidade de nosso seguimento a Jesus é o despojamento." 

A reflexão é de Zuleica Aparecida Silvano, fsp, religiosa da Congregação das Irmãs Paulinas. Ela possui licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS (1999), graduação em Teologia pelo Instituto Santo Inácio - ISI (2001), em Belo Horizonte, mestrado em Ciências Bíblicas pelo Pontifício Instituto Bíblico - PIB (2009) de Roma e doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE (2018), em Belo Horizonte. Pertence aos Grupos de Pesquisa: A Bíblia em Leitura Cristã (FAJE) e Bíblia e Interpretação: linguagens da Escritura (PUC-MG). É professora na FAJE, assessora no Serviço de Animação Bíblica (SAB/ Paulinas) e Centro Loyola (Belo Horizonte).

Referências bíblicas
1ª Leitura – 1 Re 17,10-16
Salmo 145 (146)
2ª Leitura – Heb 9,24-28
Evangelho – Mc 12,38-44

Simone Weil afirma “Não porque Deus nos ama que devemos amá-lo. É porque Deus nos ama que devemos amar-nos”.

Acredito que essa frase sintetiza as leituras deste 32º. Domingo do tempo comum. As leituras bíblicas deste domingo têm como temas centrais a confiança no Deus verdadeiro e a entrega total da própria vida, conforme fez Jesus Cristo. Deste modo, as leituras nos convidam a estarmos disponíveis para nos dedicarmos totalmente ao serviço do Reino. Nas leituras deste domingo, de forma especial, temos o protagonismo de duas mulheres, duas viúvas pobres e marginalizadas, que têm a capacidade de se deixarem levar pelo amor, numa entrega incondicional a Deus.

Na primeira leitura extraída de (1Rs 17,10-16), Acab, rei de Israel, ao casar-se com Jezabel, permitiu que fosse introduzido no Reino do Norte o culto a Baal, abandonando o verdadeiro Deus de Israel. Diante desta realidade idolátrica, Elias profetiza a seca em toda a região e somos informadas e informados de que ele mesmo também passa fome.

Neste contexto, Deus dá uma nova ordem: “vá a Sarepta da Fenícia para viver aí; eu ordenarei a uma viúva que te dê comida”. Uma ordem que exige fé e obediência, dado que Sarepta era uma cidade localizada ao Sul de Sidônia, na Fenícia, terra de onde provinha o culto a Baal. E lá Elias tem que contar com a generosidade de uma viúva estrangeira, pobre, que somente tem um punhado de farinha para alimentar o seu filho e a si mesma.

Mas Deus também desafia e exige uma atitude de profunda fé desta viúva que é convidada a confiar num estrangeiro (Elias), num Deus que não conhecia, num momento crucial, no qual não há nenhuma possibilidade de esperança. Elias, portanto, depende do abandono confiante da viúva e lhe exige uma fé que vai além do amor para com seu filho e para consigo mesma. A viúva, mesmo diante do extremo sofrimento, da dor, da morte, confia, ajuda o profeta, entregando a ele tudo que tem. Nessa confiança de ambos e na generosidade dessa pobre viúva, Deus age e se revela como o Deus da Vida. (3:10)

Nota-se que a vasilha de farinha e a jarra de óleo não se encheram, mas não se esvaziaram, ou seja, somos convidados a confiar a cada dia e ensinados que pouca coisa é necessária para viver, portanto somos convidados a não acumular, mas termos o suficiente para viver. (3:35)

No Evangelho (Mc 12,38-44) há a descrição do último ensinamento público de Jesus no Templo. Neste ensinamento, Jesus questiona o comportamento dos escribas da época, por causa da ostentação, por explorarem as viúvas e pelas orações feitas para impressionar as pessoas. Deste modo, não obedecem ao primeiro mandamento que diz respeito a Deus, nem ao segundo mandamento ao explorarem as viúvas que são pessoas que deveriam ser protegidas por eles. Por isso, Jesus afirma que terão um juízo muito severo da parte de Deus.

É dentro deste contexto que Jesus chama a atenção para a atitude da viúva pobre, que contrasta com a atitude dos escribas por privarem as viúvas de seus patrimônios, as empobrecendo. (4:36) Num primeiro momento, o evangelista especifica onde Jesus se posiciona, o que observa e sua avaliação a partir daquilo que vê. Jesus está sentado diante do cofre do Templo e observa que os ricos oferecem muito e a pobre viúva oferece duas moedinhas, que corresponde a muito pouco. (5:03) A avaliação de Jesus não se baseia no valor econômico, mas existencial. Ele aprova a liberdade da viúva pobre diante do bem material que ela tem e sua atitude de total confiança em Deus. Ela também expressa sua capacidade de amar a Deus com toda sua alma, com todo seu coração, com toda sua mente e com toda sua força, que são os bens materiais (12,30), não reservando nada para si e generosamente colocando “todo o seu viver” nas mãos de Deus. Por outro lado, reprova os escribas, que se deixaram corromper pela ambição, pela vanglória e exploram os pobres do pouco que eles têm, e também reprova os ricos, que doam a Deus de seu supérfluo.

Este relato nos indica que o lugar do encontro com Deus não passa por meio do poder cultual ou institucional, mas pela total abertura e disponibilidade a Deus. A atitude despojada dessa viúva pobre ao dar “todo o seu viver” transparece a atitude de Jesus ao doar a sua vida, entregar-se totalmente por amor e por fidelidade ao projeto de Deus-Pai. Portanto, os discípulos são chamados a não seguirem o exemplo dos escribas, mas sim desta pobre viúva, que centra a sua vida no amor gratuito a Deus.

Ao ter presente o tema central do Evangelho desta liturgia, que é o doar-se totalmente a Deus, o texto de Hb 9,24-28 enfatiza a entrega plena de Jesus, a fim de destruir o pecado, e seu acesso ao santuário celestial, por meio de sua morte, para interceder por nós. Deste modo, confirma que Jesus é o único mediador entre Deus e nós, que ele é o verdadeiro Cordeiro de Deus, que elimina todos os pecados e sua identificação com o Cântico do Servo do Senhor, em Is 52,13–53,12.

Concluindo, as duas viúvas presentes na liturgia, nos interpelam a doar-nos sem medida e ensinam a cada um/a de nós que o critério para discernir a autenticidade de nosso seguimento a Jesus é o despojamento. (8:06)

De fato, é impossível seguir a Cristo sem uma total confiança em Deus, atitude vivenciada radicalmente por Jesus ao entregar-se por fidelidade ao projeto do Pai.

Ao fazermos memória do único sacrifício de Cristo, que possamos ter consciência deste amor transbordante do Deus crucificado, que deseja ardentemente ocupar os espaços de nossa existência, que ainda permanecem fechados, sem vitalidade, para plenificá-los com sua presença e nos impulsionar à entrega de nossa vida em solidariedade com as inúmeras vítimas sacrificadas pela exclusão, pela marginalização em nossa sociedade. Deste modo, estaremos adorando o Deus verdadeiro revelado em Jesus Cristo, aquele que intercede por nós junto ao Pai e confirmando o que Simone Weil afirmava: “Não é porque Deus nos ama que devemos amá-lo. É porque Deus nos ama que devemos amar-nos”.

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