Não é uma caravana de migrantes, mas, ao contrário, um novo movimento social

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07 Novembro 2018

“Não é uma caravana de migrantes, mas, ao contrário, um novo movimento social”, escreve Amarela Varela, ativista e professora da Universidade Autónoma de Cidade do México, em artigo publicado por El Diario, 04-11-2018. A tradução é do Cepat.

Segundo ela, "os transmigrantes centro-americanos formam uma população que combina menores migrantes não acompanhados e em companhia de familiares diretos, mulheres que o tráfico de pessoas chupa como a espuma, homens e até anciãos que buscam escapar da violência neoliberal de salários que não chegam aos 100 dólares mensais, da impunidade política e do pacto de silêncio em torno da violência generalizada nas ruas dos bairros pobres das capitais centro-americanas".

Eis o artigo.

Entre janeiro e setembro de 2018, segundo números publicados pela Unidade de Política Migratória do governo mexicano, em outubro deste mesmo ano, foram “apresentados” diante das autoridades migratórias, quer dizer detidos, 41.760 hondurenhos e hondurenhas de todas as idades. Nesse mesmo período, o governo mexicano reporta 37.000 deportações entre esses milhares de pessoas deslocadas pela violência de estado, a violência de mercado e a violência patriarcal.

É bem visível o paradoxo: as deportações destes deslocados foram custeadas com o dinheiro do erário público mexicano, o mesmo que, segundo fontes governamentais, se sustenta – só depois do petróleo – com as remessas dos milhões de mexicanos migrantes, a metade ilegalizada pelo governo estadunidense. Ou seja, neste ano passaram por este “país fronteira”, como é chamado pelos migrantes, um volume similar a 6 contingentes como a chamada Caravana Migrante, melhor descrita como Êxodo de Deslocados.

Não obstante, e diferente desta última que hoje está chegando a Cidade do México, os 41.760 hondurenhos e hondurenhas que tentavam atravessar México vinham dispersos, por rotas tornadas clandestinas pelas políticas migratórias mexicanas que ‘neoliberalizaram’ a violência contra as pessoas migrantes, deslocadas, refugiadas e asiladas neste país, privatizando-a a virtuais exércitos privados, metade sendo de jagunços, metade de cumplicidades com diferentes forças estatais, tudo isso documentado por relatórios de organismos nacionais e internacionais de direitos humanos.

Diferente do que ocorreu nesse período, hoje, 10.000 migrantes da América Central, a maioria de Honduras, caminham, medianamente coordenados, por este “país fronteira”, em 3 caravanas ou êxodos que, desde o dia 19 de outubro de 2018, e depois em duas ocasiões posteriores, conseguiram desafiar com seus corpos, e nada mais, as operações policias/militares empregadas contra famílias com filhos na fronteira sul do México, a do norte de Guatemala.

Ou seja, o êxodo de deslocados que hoje concentra a atenção midiática internacional e busca seu pedacinho de interesse em um país destroçado por crimes de Estado, fossas comuns circulantes em trailers, uma transição política batendo nas portas e as festividades do dia dos mortos, não é algo novo. Ao contrário, em torno deste êxodo, ao qual os jornalistas mexicanos chamaram de o “Holocausto invisível do século XXI”, foram escritas centenas de milhares de páginas nos últimos 15 anos, seja em formato de nota vermelha, relatórios de direitos humanos governamentais e não governamentais, consultorias sobre segurança nacional, romances, ensaios, documentários, publicações acadêmicas e até extraordinários filmes de ficção.

Porque sobre a transmigração centro-americana opera na região uma virtual indústria da migração composta sobretudo por redes criminosas de tráfico de pessoas, em conluio comprovado com as autoridades de todos os países envolvidos, mas também organismos internacionais, organizações da sociedade civil que atendem na mais extrema precariedade necessidades que os estados são obrigados a garantir aos migrantes e, como não, também uma muito ampla gama de especialistas, tecnocratas e acadêmicos – como quem escreve isto – que buscam “compreender” a transmigração, uns porque acreditam na fantasia de que a migração humana pode ser governada de maneira ordenada e outra porque vemos nesta dimensão do social exemplos muito didáticos, tanto de resistência frontal, como das consequências humanas do neoliberalismo.

Nesta indústria, há aqueles que olham os migrantes e deslocados como vítimas, outros como clientes, uns mais como criminosos ou infratores da lei, e uma minoria como atores políticos que sempre e de maneira reiterada desgastam a agenda migratória dos governos e da indústria da migração.

Por isso, a novidade não é a presença de milhares de deslocados do neoliberalismo made in Centroamérica, esta população que hoje, enfim, o mundo observa, após incontáveis massacres (os mais visibilizados foram os de San Fernando, Tamaulipas e Cadereyta, Nuevo León) e um incontável número de corpos de migrantes em fossas clandestinas, que se confundem com os de um povo que busca desesperado uma média de 35.000 pessoas desaparecidas.

Os transmigrantes centro-americanos formam uma população que combina menores migrantes não acompanhados e em companhia de familiares diretos, mulheres que o tráfico de pessoas chupa como a espuma, homens e até anciãos que buscam escapar da violência neoliberal de salários que não chegam aos 100 dólares mensais, da impunidade política e do pacto de silêncio em torno da violência generalizada nas ruas dos bairros pobres das capitais centro-americanas.

A novidade é a forma como, hoje, os centro-americanos se movimentam pelo México. Em massa, agrupados por nós que caminham juntos em um país no qual os coiotes lhes cobram, adiantado, de nove a quinze mil dólares para os levar até os Estados Unidos. País este último, não se deve esquecer, onde há juízes que estão julgando bebês de 2 anos reclusos e separados de suas famílias, reivindicando no tribunal que declarem porque a justiça norte-americana é obrigada a acreditar nos motivos de seu pedido de asilo.

Não obstante, aqueles que caminham juntos, acompanhados por organizações nacionais e internacionais todas elas humanitárias, além da imprensa doméstica e global, foram acusados de obedecer a algum tipo de complô político pago ou incentivado pelo presidente estadunidense Donald Trump, de responder a interesses de grupos que buscam desestabilizar a transição pacífica no México com o presidente eleito Andrés Manuel López Obrador ou, no mínimo, de ser enganados por grupos antagônicos ao governo hondurenho de fato de Juan Orlando Hernández Alvarado.

Essas vozes que desestimulam esta nova forma de organização política, em nossa perspectiva, embora sejam atinadas geopoliticamente, são racistas, discriminatórias e provocaram uma resposta repressiva em setores chave da população que nunca prestam atenção na migração e que quando observaram mulheres e crianças rompendo uma cerca fronteiriça buscaram explicações nas fontes antes mencionadas. Quando os líderes de opinião e os especialistas em mobilidade urbana e relações internacionais descartaram a agência e autonomia política de quem se movimenta coletivamente, desafiando os trajetos do terror, perdemos a preciosa oportunidade de construir, fazendo eco à imaginação política dos migrantes e deslocados, um movimento político massivo antirracista no México.

E por isso é urgente ressaltar que estas “caravanas” de milhares de pessoas que hoje percorrem o México, compostas em 45% por mulheres e crianças, são uma nova forma de luta migrante ou um novo tipo de movimento social sem bandeiras manifestamente ideológicas, sem formas de organização manifestamente antagônicas ao capitalismo. São apenas 10.000 pessoas que se organizam para caminhar juntas buscando uma vida habitável, fazendo da migração uma estratégia política para preservar suas vidas e as de seus filhos que trazem nos braços ou em carrinhos pelas mortíferas estradas do México. E ao caminhar vão desafiando as fronteiras desenhadas em Washington para a região, baseadas todas em acordos internacionais sobre segurança nacional.

Entre os traços mais esperançosos desta nova capacidade política está a interpelação a povos e comunidades que, ao vê-los caminhar em massa, animaram-se, agora sim, a desafiar os caciques e jagunços locais e lhes mostraram sua solidariedade abertamente, com bandas municipais de música, os feijões da última colheita ou simplesmente abrindo suas casas para deixar os caminhantes se refrescar e usar o banheiro, inaugurando com isso formas de hospitalidade radical que possam ressarcir as cumplicidades ou até mesmo os silêncios do povo mexicano com seus pares, os atuais “condenados da terra” centro-americanos.

Resta ver como respondemos os povos onde estes êxodos, virtuais campos de refugiados em movimento, conforme apontam os colegas do jornal El Faro, conseguem permanecer. De momento, a caminhada de milhares de famílias expulsas pela violência e a miséria está conseguindo mudar a gramática migratória no México, então, há esperança e vida, justamente o que falta aqui e agora. Não é caravana de migrantes, mas, ao contrário, êxodo de deslocados, mas sobretudo é um novo movimento social que caminha por uma vida vivível.  

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