A Índia e os desafios da esquerda. Entrevista com Vijay Prashad

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12 Outubro 2018

Como é possível construir uma sociedade igualitária? Por que o consumismo pode ser comparado a uma religião? Quais são as principais lutas que estão sendo realizadas na Índia? É possível pensar que a revolução mundial passa, hoje, pelo feminismo? Sobre todas estas questões conversou com Ñ o historiador indiano Vijay Prashad, diretor do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, convidado pelos pesquisadores e docentes da Universidade de Buenos Aires - UBA, Mabel Thwaites Rey e José Seone.

A entrevista é de Ines Hayes, publicada por Clarín-Revista Ñ, 10-10-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Quais são as principais lutas que estão acontecendo na Índia?

Em 2013, houve um levante muito importante das mulheres: milhões de mulheres jovens e homens foram para as ruas contra a violência de gênero e pela dignidade das meninas, mas também por igual salário, por igual trabalho e pelos direitos dos trabalhadores e as trabalhadoras agricultoras. Na Índia, em sua grande maioria, as mulheres trabalham na agricultura e nos trabalhos de cuidado e construíram um grande sindicato.

Pode-se pensar que a revolução passa, hoje, pelo movimento feminista?

A luta das mulheres está dentro da luta de classes. As pessoas têm que ter confiança em que podem mudar o mundo e se temos uma estrutura social que faz com que as mulheres se sintam menos confiantes, então o caminho revolucionário está bloqueado, não se pode ser revolucionário e não promover a emancipação das mulheres: você está condenado ao fracasso. Porque como pode a classe operária se levantar, se a metade dela não tem confiança em si mesma [?]. É mais um problema prático que uma contradição.

Como se pode pensar, então, em uma saída não capitalista?

Ninguém disse que é fácil. Eu não seria anticapitalista se não soubesse que o capitalismo não pode resolver os problemas sociais, não sou anticapitalista por nostalgia. Se alguém me dissesse, me convencesse, que o capitalismo pode resolver seus próprios problemas, não seria anticapitalista. Mas na medida em que eu sei e entendo que o capitalismo não pode resolver seus problemas e que o fracasso de não poder resolvê-los está em sua própria estrutura, então temos que criar uma nova estrutura. Vivemos em um mundo no qual uma minoria da população vive à custa da grande maioria, essa é a desigualdade. Isto significa que centenas de milhares de pessoas têm que rogar aos que têm propriedade para que lhes deem trabalho. E o que acontece se as pessoas proprietárias não querem contratá-las [?]: não podem voltar à agricultura porque a terra está controlada pela pequena porção de proprietários, então acabam dormindo na rua.

O socialismo ainda é viável?

A política se trata de esperança, é uma forma de entender o mundo. O socialismo tem que propor soluções para problemas práticos: como deveria funcionar a rua, cada rua deveria ter uma pequena clínica com uma enfermeira, deveria ter um lugar para que as crianças brinquem. Essas são as ideias que o socialismo deveria propor porque em geral propomos a reforma agrária, mas não propomos reformas urbanas e a maioria das pessoas vive nas cidades. Temos que ter uma visão para as cidades, temos que usar a imaginação. Eu pertenço ao Partido Comunista e também trabalho em uma editora e ali promovemos o pensamento criativo, a criação de novas ideias. Sabemos que a questão da aspiração é muito importante. As pessoas querem coisas e não é suficiente dizer “você não pode ter”.

Como se explica sua concepção acerca de que o consumismo é como a religião?

Sabemos que o mundo é difícil e que os seres humanos esperam algo, quando você vive em uma sociedade atomizada, a igreja funciona como uma comunidade. O consumismo é parecido: você pode ter uma linda casa, um lindo carro, faz você ser parte de uma comunidade também. Nesta sociedade atomizada, você vai ao shopping e se sente considerado: falam com você, mostram coisas, oferecem coisas. As comunidades são criadas em torno do desejo. As pessoas se queixam que no socialismo há muitas reuniões, mas também se queixam de que no capitalismo não há conexão humana. É preciso criar comunidade, mas para isso é necessário tempo e o capitalismo come o tempo, só há tempo para trabalhar, não para fazer outras coisas. Nesta etapa do capitalismo, até as compras fazemos on-line e os seres humanos não desfrutam por fazer tudo no computador.

Quais são as formas que os trabalhadores têm, hoje em dia, para lutar por seus direitos?

Os trabalhadores sempre irão lutar. Os sindicatos não consistem em lutar, mas, sim, em construir poder estratégico. Hoje em dia, na cadeia de commodities, há alguns lugares mais frágeis como a logística e o porto. Se os trabalhadores da logística fazem greve, rompe-se a cadeia de commodities. Caso seja feita greve no centro de distribuição da Amazon, por exemplo, Amazon entra em colapso, assim como quando há um bloqueio em uma artéria e todo o coração para.

Por que você diz que os capitais estão em greve fiscal?

A burguesia estadunidense não paga impostos suficientes, por isso digo que estão em greve fiscal. As empresas monopólicas destes últimos 30 anos não investem seu capital na produção. A Nike, por exemplo, não investe capital na produção, investe em desenho e em publicidade, mas é um pequeno investimento. A Nike não emprega dezenas de milhares de pessoas, de fato terceiriza tudo, não tem empregados full time; não investe, mas recolhe o lucro por cada tênis que vende. As farmacêuticas também são coletoras de lucros, ganham cada vez que você compra um comprimido.

Desde a crise de crédito de 2007, os países tomaram crédito em dólares estadunidenses. A Índia, por exemplo, que esperava usar esse dinheiro para crescer, agora precisa assumir mais dívida para pagar a dívida e aumenta o desemprego. De uma população de 1,4 bilhão de pessoas, 700 milhões não comem completamente todos os dias, mais da metade da população passa fome. 90% da força de trabalho indiana está no setor informal. De 1950 até agora, os grandes empréstimos que o FMI deu não foram sem pedir ajustes estruturais em setores chaves como a educação e a saúde em troca, então, como se faz para criar um país democrático, se as regras são criadas em Washington DC [?]. Na atualidade, uma mesma empresa está em 6 países e os capitalistas voam para todos os lados, mas as fronteiras estão fechadas para os trabalhadores: este é o novo imperialismo.

Grande desafio para a esquerda.

A esquerda é muito poderosa na Índia. Os movimentos massivos dos comunistas são formados por milhões de pessoas. No entanto, o consumismo nos fragilizou porque a formação do sujeito de hoje está baseada no individualismo e em ter mercadorias, quase não se acredita na ascensão do socialismo. Nosso povo é contra o capitalismo, mas não é a favor de nada, é um grande desafio para a esquerda.

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