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11 Outubro 2018

"Jesus tinha apontado antes seis mandamentos. Nesta passagem, ele apresenta o seguimento como o sétimo mandamento. Ou seja, a distribuição dos bens entre os pobres não é o ponto principal, mas condição para estar desimpedido em vista do seguimento. Ora, esse convite tem um grau de exigência maior. Jesus aponta três requisitos fundamentais para quem deseja integrar a comunidade do Reino: 1. Desapegar-se dos bens deste mundo; 2. Ser solidário com os mais pobres; 3. Seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega."

"Muitas vezes a nossa tristeza é igual a deste homem rico, que sendo chamado por Jesus não o segue. Tristeza que brota desta incapacidade de quem se julga saciado ou pouco interessado em aceitar um esvaziamento de si, e acaba apagando dentro de si o desejo de infinito."

A reflexão é de Cristiane Rodrigues de Melo, fsp., membro da Congregação Pia Sociedade Filhas de São Paulo – Irmãs Paulinas. Ela é licenciada em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC-PR (2005), bacharel em Teologia pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP/PE (2015) e possui pós-graduação em Psicopedagogia pela UNOESC-SC (2016). 

Referências bíblicas
1ª Leitura – Sab 7,7-11
Salmo 89 (90)
2ª Leitura – Heb 4,12-13
Evangelho – Mc 10,17-30

“Senhor, se levardes em conta as nossas faltas, quem poderá subsistir? Mas em vós encontra-se o perdão, Deus de Israel”.

Estamos no 28º Domingo do Tempo Comum e a Antífona de entrada nos dá o tom de toda a liturgia deste domingo.

A primeira leitura (Sab 7,7-11), tirada do livro da Sabedoria, nos diz que mais precioso do que qualquer tesouro é a sabedoria, porque, ao contrário dos bens terrenos, ela não se extingue nem perde o brilho (Sb 7,10b).

O autor, um judeu de língua grega, provavelmente da Diáspora, se exprime em termos e concepções do mundo helênico, por isso ele cita valores da cultura grega como a saúde e a beleza para mostrar que a sabedoria supera todos eles. A sabedoria é como a luz que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar.

Assim como a salvação, a sabedoria não pode ser comprada, mas deve ser pedida através da oração: “Orei, e foi-me dada a prudência; supliquei, e veio a mim o espírito da sabedoria” (Sb 7,7). Quem acolhe esse dom com humildade e disponibilidade aprende a gozar os bens terrenos com equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os no seu devido lugar para que não sejam eles o critério das opções de vida.

Confirmando o tesouro que é a sabedoria, o Salmo 89 suplica: “Ensinai-nos a contar os nossos dias e dai ao nosso coração sabedoria!” (v. 12). O salmista mostra que é reconhecendo nossas fragilidades humanas que surge o temor de Deus, Dom do Espírito e expressão da sabedoria que nos torna humildes e nos coloca no caminho da salvação.

Da Carta aos Hebreus (Heb 4,12-13) temos um texto exortativo que convoca a comunidade à escuta da Palavra de Deus que é viva, eficaz e operante. O objetivo é estimular a vivência do compromisso cristão e levá-los a viver uma fé mais coerente e empenhada. O autor apresenta a Palavra personificada: ela é viva, tem olhos e é ela que julga os movimentos e intenções secretas do coração humano que, de acordo com a antropologia judaica, é o centro das decisões. Uma vez escutada, a Palavra penetra no mais profundo do ser, pondo à mostra nossos falsos valores e despertando nossa consciência. A semelhança entre a Palavra que é viva e eficaz e a Sabedoria é que, ambas, Palavra e Sabedoria sondam o coração humano e o purificam para Deus.

O Evangelho de hoje (Mc 10,17-30) está presente nos evangelhos sinóticos (Mt 19,16-30; Mc 10,17-30; Lc 18,18-23). Trata-se de uma passagem que ficou muito conhecida como a do jovem rico. No entanto, apenas o Evangelho de Mateus usa essa variante que aparece nos versículos 20 e 22 (neaniskos). O Evangelho de Lucas usa o termo “certo homem”, “uma pessoa importante” ou “um dos chefes”, dependendo da tradução bíblica usada. Já o Evangelho de Marcos, que é o que nos interessa, diz que “alguém correu e ajoelhou-se diante de Jesus, perguntando: ‘Bom Mestre, que farei para herdar a vida eterna?’” (Mc 10,17). Jesus responde citando seis mandamentos que se referem ao próximo como meio para herdar a Vida Eterna. São eles:

1. Não matarás;

2. Não cometerás adultério;

3. Não roubarás;

4. Não darás falso testemunho;

5. Não defraudarás ninguém (curiosamente, esse mandamento não se encontra no decálogo); e o sexto mandamento citado por Jesus nesta passagem,

6. Honra teu pai e tua mãe.

Porém, o homem demonstra um desejo ainda maior e muito sincero ao indagar: “Mestre, tudo isso eu tenho guardado desde minha juventude” (Mc 10,20). Aqui o Evangelho atinge seu ponto alto, pois Jesus resolve convidá-lo a integrar a comunidade do Reino. Diz-nos o evangelista: “Fitando-o, Jesus o amou e disse: ‘Uma só coisa te falta: vai, vende o que tens, dá aos pobres e terás um tesouro no céu. Depois, vem e segue-me”.

Jesus tinha apontado antes seis mandamentos. Nesta passagem, ele apresenta o seguimento como o sétimo mandamento. Ou seja, a distribuição dos bens entre os pobres não é o ponto principal, mas condição para estar desimpedido em vista do seguimento. Ora, esse convite tem um grau de exigência maior. Jesus aponta três requisitos fundamentais para quem deseja integrar a comunidade do Reino: 1. Desapegar-se dos bens deste mundo; 2. Ser solidário com os mais pobres; 3. Seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega.

De acordo com a narrativa, o desfecho não foi muito positivo. O Evangelho nos conta que “o homem contristado saiu pesaroso porque possuía muitos bens” (v. 22). Aquele que primeiramente correu e se ajoelhou aos pés de Jesus chamando-lhe “Bom Mestre”, que parecia ter tanta sede sincera de relação com Jesus, que vinha cumprindo os mandamentos desde a sua juventude, na hora decisiva não conseguiu desapegar-se do que julgava ser seus bens.

Muitas vezes a nossa tristeza é igual a deste homem rico, que sendo chamado por Jesus não o segue. Tristeza que brota desta incapacidade de quem se julga saciado ou pouco interessado em aceitar um esvaziamento de si, e acaba apagando dentro de si o desejo de infinito.

Diante da recusa e para espanto dos discípulos, Jesus exclama: “Como é difícil a quem tem riquezas entrar no Reino de Deus!” (v. 23). O espanto se justifica porque, naquela época, a riqueza era sinal da bênção e a pobreza, sinal de maldição (cf. Dt 28,3-8). E o espanto é ainda maior porque não se trata de uma simples dificuldade, mas de uma impossibilidade: “é mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus” (v. 25). Ora, se para os ricos, que possuíam os meios para cumprir todos os ritos de purificação era difícil salvar-se, “então, quem poderia ser salvo?” (v. 26). Jesus vai nos recordar que “Com os homens é impossível, mas não com Deus. De fato, com Deus tudo é possível” (v. 27).

A lógica do Reino entra em choque com a lógica do ter. Jesus diz, com todas as letras, que a Salvação não se negocia, não é um tome lá, dá cá, ou seja, você cumpre todos os mandamentos e preceitos e adquire a salvação. Mostra também, que ninguém se salva, muito menos, de forma isolada. A salvação pertence a Deus, é dom, é pura gratuidade, e nos tornamos merecedores dela cada vez que colocamos tudo o que temos e somos a serviço do próximo.

A resposta de Jesus é uma verdadeira catequese sobre as exigências do Reino e do seguimento. Para fazer parte dessa comunidade, é preciso um coração livre e consciente, capaz de deixar as riquezas e o poder deste mundo por causa de Jesus e do Evangelho (v. 29), visto que Reino e egoísmo são incompatíveis.

Essa é a pessoa sábia que reconhece sua finitude e descobriu que não se trata de fazer esforços para obedecer a mandamentos, trata-se primeiro de entrar numa relação de amor com Jesus, relação que se estende ao próximo e se manifesta com atitudes de respeito, partilha e solidariedade.

Qual será a nossa resposta a essa Palavra?

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