Sobre McCarrick, Chile, e "advogados, armas e dinheiro"

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10 Outubro 2018

Enquanto a liderança da conferência dos bispos dos EUA se reúne com o Papa Francisco, os católicos americanos, naturalmente, se perguntarão o que pode acontecer quando chegarem ao fim do caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, cuja ascensão ao poder, apesar dos rumores de má conduta sexual, permanece sendo uma incógnita.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 09-10-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Quando os líderes da conferência se reuniram com o pontífice no mês passado, ele recusou a ideia de uma visitação apostólica, ou seja, uma investigação feita pelo Vaticano. A tentativa agora é por outras formas de envolver Roma, com a premissa de que as respostas necessárias, provavelmente, não estejam nos Estados Unidos.

Obviamente, o Vaticano entende que o escândalo de McCarrick é algo de grande relevância, e mostrou isso ao divulgar duas reações diferentes no final de semana. Uma declaração no sábado, dizendo que Francisco ordenou um "estudo aprofundado" dos arquivos do Vaticano sobre McCarrick, e uma carta do cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos, no domingo, respondendo às acusações do ex-embaixador papal dos EUA, Carlo Maria Viganò, que apontam Francisco como envolvido no encobrimento do caso.

Na outra parte do mundo, o Chile tem agora seu próprio caso McCarrick.

A chefe de nossa sucursal em Roma, Inés San Martín, nos informou na segunda-feira, que o arcebispo Francisco Cox de La Serena, que renunciou em 1997, enfrenta agora múltiplas acusações de abuso sexual, incluindo pelo menos duas no Chile e duas na Alemanha, para onde se mudou após sua aposentadoria para morar em uma residência dos Padres de Schönstatt, congregação a qual ele pertence.

Segundo as supostas vítimas entrevistadas por San Martín, esses abusos remontam, pelo menos, à década de 1970, quando Cox era bispo da pequena diocese de Chillan, andando em seu caminhão azul e dando carona para crianças.

Apesar disso, Cox conseguiu ser nomeado como secretário, ou 'segundo oficial', do Pontifício Conselho para a Família em 1981. Quatro anos depois, ele retornou ao Chile como bispo assistente de La Serena, onde se tornou o principal organizador da visita de São João Paulo II em 1987 ao país. Ele assumiu como arcebispo em 1990, servindo lá até renunciar em 1997 pelo o que foi descrito como "dificuldades psicológicas". Mais tarde foi confirmado que se tratava de pressões relacionadas a acusações de abuso.

Embora as acusações só tenham realmente se tornado públicas em 1997, assim como McCarrick, houve rumores antes disso.

Muitos chilenos adorariam saber como isso aconteceu, da mesma forma que os americanos clamam hoje por clareza sobre McCarrick. No entanto, apesar de ter tido a mais intensa crise de abusos clericais do mundo, o Chile não tem nenhum ex-embaixador papal acusando o papa de cumplicidade com os crimes. Não houve nenhum católico leigo rico e influente apoiando o conteúdo das acusações do ex-embaixador, ou a liderança da Conferência Episcopal batendo nas portas do Vaticano num esforço para se livrar de uma investigação. Tampouco imprensa ou grupos ativistas que fossem a Roma reivindicar uma posição, e nenhum advogado conceituado apresentando queixas maciças contra o Vaticano nos tribunais nacionais.

A questão, claramente, é: por que não houve tal movimento daquela vez?

Para começar, há o fato óbvio de que McCarrick era um cardeal e alguém considerado como um importante aliado papal. É tido como um homem que desempenhou certo papel na eleição de Francisco em 2013, enquanto, globalmente falando, Cox é um desconhecido.

No entanto, essa não é a única diferença entre a situação americana e a chilena.

Para começar, enquanto o arcebispo Carlo Maria Viganò pode ser completamente sincero em dizer que a consciência o obrigou a apresentar seu testemunho sobre ter informado Francisco sobre McCarrick em 2013, suas acusações foram ampliadas e sustentadas por uma rede informal, em grande parte formada por conselheiros, jornalistas simpatizantes e sites de notícias, blogs e canais de mídia social americanos e italianos.

Em pelo menos alguns casos, esses apoiadores de Viganò fazem parte de organizações e grupos que têm recursos consideráveis à sua disposição, e que têm problemas com Francisco que vão muito além de sua maneira de lidar com a crise dos abusos sexuais.

Claro, tudo isso é ainda mais exacerbado pelo fato de que tudo nos Estados Unidos é maior, mais relevante e impossível de ignorar. Como diz o ditado, se os Estados Unidos espirrar, o resto do mundo pegará um resfriado. Isso é resultado de muitas coisas, mas não é preciso ser um gênio sobre assuntos internacionais para perceber que, acima de tudo, é sobre dinheiro e poder militar.

Como resultado, um prelado católico que subiu a escada hierárquica no Vaticano e no Chile apesar de má conduta, é, na melhor das hipóteses, um escândalo local. Mas quando isso acontece nos Estados Unidos, se torna um célebre caso internacional

Isso poderia não importar, exceto pelo fato de que o Vaticano, apesar de sua pretensa serena indiferença em relação à opinião pública, pode, às vezes, ser afetado por ela. Por que o caso McCarrick recebeu duas declarações separadas durante o final de semana, por exemplo, enquanto o silêncio rondava sobre o Chile? Fundamentalmente, é porque o Vaticano sabe que o mundo está prestando atenção à saga de McCarrick e Viganò.

No Chile, no momento, há oito bispos que foram intimados pelos promotores por suspeitas de abuso e/ou encobrimento, e embora Francisco tenha aceitado a renúncia de sete bispos, nenhuma explicação oficial sobre o motivo foi dada, nem mesmo um único caso - ou seja, não houve grandes cobranças e, portanto, nenhuma prestação de contas.

Como o padre Eugenio de la Fuente, um sobrevivente de abuso psicológico e abuso de poder no Chile, argumentou num tweet recente: “Seria bom se a Congregação para os Bispos do Cardeal Ouellet começasse a dar razões transparentes do motivo pela qual a renúncia dos bispos chilenos foi aceita antes de eles completarem 75 anos. Seria um ato mínimo de respeito às vítimas.”

Um sobrevivente de abuso no Chile, no entanto, provavelmente pode ser perdoado por pensar que seu sofrimento é mais profundo do que qualquer um marcado por McCarrick. Também pode se achar digno de todos os esforços do Vaticano para estabelecer a verdade. Sejam quais forem as decisões tomadas nessa frente, se espera que elas sejam guiadas pela consideração pastoral e não, como colocou a famosa Warron Zevon, por "advogados, armas e dinheiro".

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