'Igreja - Carisma e Poder' de Leonardo Boff oferece roteiro para sair do clericalismo

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17 Setembro 2018

Sugestões são abundantes, incluindo: o estabelecimento de um novo National Review Board (“Conselho Nacional de Revisão”, em tradução livre) na esperança de responsabilizar os bispos; monitorar os conselhos de revisão dos leigos diocesanos; patrocinar os protestos nas catedrais; e até mesmo nomear mulheres como cardeais. Isto pode ser útil a curto prazo. Mas também arrisca perpetuar o sistema monárquico-clerical quando o que é necessário é uma revisão radical", escreve Christine Schenk, Irmã da Congregação de São José, mestre em enfermagem e teologia, serviu a famílias urbanas durante 18 anos como enfermeira parteira antes de cofundar a FutureChurch, onde serviu por 23 anos, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 15-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Eis o artigo.

Não posso deixar de me perguntar se a atual implosão da credibilidade eclesiástica sobre o abuso sexual clerical tem o potencial de criar um novo momento de graça, um que rompa modelos de governança antiquados e crie novos modelos mais adequados aos nossos tempos.

Podemos já ter um roteiro - graças ao teólogo da libertação Leonardo Boff.

Ao completar meus estudos de mestrado em teologia em 1992, fui atingida pelo livro profético de Boff Igreja: carisma e poder. Na época em que o livro foi publicado, em 1981, Boff era padre franciscano e teólogo e vivia no Brasil. Lá, ele experimentou os dons do Espírito (carismas) em ação nas vibrantes comunidades cristãs de base da América Latina. Seu livro emergiu de um ambiente em que camponeses pobres encontraram coragem e graça para amar uns aos outros enquanto enfrentavam injustiças sistêmicas que os mantinham pobres.

Para Boff, a Igreja é o sacramento do Espírito Santo, e já que o Espírito é dado a todos do povo de Deus, pode-se perguntar: quais estruturas organizacionais ou jurisdicionais funcionam melhor para liberar os dons do Espírito em favor do reino de Deus?

Após extenso estudo de tradições teológicas mais eurocêntricas, Boff ousou sugerir um novo modelo de governança da Igreja. Em seu modelo, o carisma (dom do Espírito) é o princípio organizador, e não as estruturas monárquicas que temos agora. Ele aponta para São Paulo, que via o carisma como uma função ou serviço concreto que cada cristão exercia em nome de todos na comunidade (1 Coríntios 12:7; Romanos 12:4; Efésios 4:7).

Para Paulo, não há cristãos não-carismáticos, todos têm um lugar importante e cada um de nós é chamado para servir a comunidade (Romanos 12:5). Boff observa: "Este modelo de vida cristã é muito diferente daquele em que a hierarquia toma todo o poder sagrado e todos os meios de produção religiosa, dizendo na prática: 'Vocês escutarão, obedecerão, não farão perguntas e farão o que dissermos'."

No modelo de Boff, a hierarquia é apenas um estado carismático da Igreja e não deve sufocar os outros carismas elevados pelo Espírito. Além disso, a função da hierarquia é "abrir caminho para a unidade e harmonia entre os vários serviços" (carismas) exercidos pelos fiéis.

Não é um salto dizer que, neste modelo, os líderes (padres, diáconos e bispos) seriam selecionados com base em quem tem os dons para o ofício, não com base em gênero ou poder.

Previsivelmente, em 1984 Boff foi levado a julgamento pela Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano e condenado a um ano de "silêncio obsequioso" pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Boff deixaria o sacerdócio em 1992, depois que Ratzinger tentou silenciá-lo novamente. Dizia-se que o livro de Boff "colocava em risco a sadia doutrina da fé".

No entanto, como qualquer um que tenha lido pode atestar, a única coisa que Igreja: carisma e poder coloca em perigo são as estruturas monárquicas não-confiáveis com as quais sofremos gravemente hoje.

É dolorosamente claro que o clericalismo desenfreado em uma rede fechada de “bons e velhos camaradas” permitiu tanto o horrendo abuso sexual quanto um flagrante encobrimento dos bispos. Esses mesmos bispos escolheram preservar o sistema clerical em vez de proteger nossos filhos.

O que devemos fazer?

Sugestões são abundantes, incluindo: o estabelecimento de um novo National Review Board (“Conselho Nacional de Revisão”, em tradução livre) na esperança de responsabilizar os bispos; monitorar os conselhos de revisão dos leigos diocesanos; patrocinar os protestos nas catedrais; e até mesmo nomear mulheres como cardeais. Isto pode ser útil a curto prazo. Mas também arrisca perpetuar o sistema monárquico-clerical quando o que é necessário é uma revisão radical.

Aqui está minha opinião sobre o que uma "revisão radical" pode incluir:

Por que não convocar um sínodo mundial sobre o Espírito Santo na vida e liderança católicas, em que a representação de todos do povo de Deus teria voz deliberativa ao lado dos bispos? Um item da agenda poderia ser a discussão/discernimento de novos mecanismos para integrar os dons do Espírito do povo de Deus ao ministério da Igreja e à tomada de decisões. Outra poderia ser uma exploração da vinculação do ministério da Igreja ao sacramento do batismo, e não à ordenação.

Certamente, através do poder do Espírito, tal diálogo e discussão poderiam nos ajudar a descobrir os pesos e contrapesos tão desesperadamente necessários no governo católico moderno.

A preparação para esse sínodo exigiria a perícia de eclesiologistas e advogados canônicos proeminentes. Esses especialistas poderiam recomendar mudanças na lei canônica e na política da Igreja que responsabilizem os bispos e integrem os leigos à tomada de decisões, de modo que tenhamos uma voz deliberativa (não apenas consultiva) em todos os níveis.

Acabei de terminar a leitura de However Long the Night (“Por mais Longa que Seja a Noite”, em tradução livre), um belo livro da Leadership Conference of Women Religious (“Conferência de Liderança das Mulheres Religiosas”, em tradução livre). Em uma série de breves ensaios, as líderes-irmãs descrevem processos contemplativos de tomada de decisão que abriram espaço para o Espírito de Deus liderá-las e guiá-las através de um doloroso conflito com o Vaticano. A série exemplifica muitos dos escritos de Boff sobre o lugar central do carisma na vida da Igreja.

O Espírito sabe o que faz. Como talvez nunca antes, é hora de agirmos e confiarmos nela.

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