"O elitismo, o clericalismo favorecem toda forma de abuso". Papa Francisco em diálogo com os jesuítas na Irlanda

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14 Setembro 2018

No dia 25 de agosto, durante a sua visita à Irlanda, o Papa Francisco se encontrou com um grande grupo de jesuítas irlandeses. O encontro estava marcado para as 18h20, mas o pontífice preferiu estender a conversa privada com oito vítimas de abusos sexuais, que durou cerca de 1h30. Por volta das 18h40, Francisco entrou em uma sala da nunciatura, onde 63 jesuítas se encontravam reunidos, incluindo dois bispos: Dom Alan McGuckian, bispo de Raphoe (Irlanda), e Dom Terrence Prendergast, arcebispo de Ottawa.

O relato é do Pe. Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, 15-09-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Também estava presente o Pe. John Dardis, conselheiro geral da Companhia de Jesus para o discernimento e o planejamento apostólico. Três dos jesuítas irlandeses que estavam presentes são agora membros da província do Zâmbia-Malawi, e um reside no Sudão do Sul. Havia também três jesuítas em formação, provenientes dos Estados Unidos, Canadá e Camarões.

O provincial, Pe. Leonard A. Moloney, tomou a palavra para dar as boas-vindas ao papa em nome de todos: “Santo Padre, irmão nosso Francisco, por parte dos jesuítas irlandeses, eu lhe digo: ‘Céad míle fáilte!’. Essa é a típica expressão irlandesa de boas-vindas, que significa: ‘Cem mil vezes bem-vindo!’. Nós o acolhemos como irmão em Cristo e filho de Santo Inácio”.

O Pe. Moloney continuou agradecendo por esse encontro “íntimo e informal”, apesar do programa muito denso do papa. “Mas, em particular – afirmou –, agradecemos-lhe pela sua profunda fé em Jesus Cristo, como rosto misericordioso e amoroso de Deus, nosso Pai. O senhor apresenta a fé como atraente em um momento difícil”.

Moloney expressou o compromisso de “promover a compreensão da liberdade, do discernimento e do acompanhamento espiritual”. Esse compromisso foi solicitado muitas vezes por Francisco aos jesuítas, precisamente nas suas viagens apostólicas, e muitas vezes relatamos isso na Civiltà Cattolica.

Indicando os presentes, o provincial disse: “Como o senhor pode ver, não somos tão jovens – o senhor é um dos jovens deste grupo! E lhe pedimos que reze pelas vocações. É uma província que tem muita coragem e vontade de servir e amar em todas as coisas. Escutamos nesta semana o seu apelo pela oração e pelo jejum e para fazer todo o possível para erradicar o mal dos abusos dentro da Igreja”.

O provincial concluiu assim as suas boas-vindas: “Mais uma vez, Santo Padre, muito obrigado por estar aqui, por nos acompanhar ao longo deste caminho e sobretudo pela alegria, pelo humor e pela serenidade com que suporta os pesos da sua liderança. O senhor deve estar certo das nossas orações e de todos os outros tipos de apoio de que precisa, a fim de poder desempenhar a sua missão com paz e coragem”.

Depois, Francisco tomou a palavra e disse:

Muito obrigado! Peço desculpas por lhes receber tão às pressas. Estou atrasado e, daqui a pouco, tenho que ir ao encontro das famílias, porque há tempos específicos que eu devo respeitar. Acima de tudo, peço desculpas por ter esquecido todo o inglês que aprendi em Milltown há tantos anos, quando vim pela primeira vez à Irlanda. Não me dou bem com o inglês. Deve ser um limite psicológico! Mas muito obrigado.

Por que cheguei tarde? Porque tive uma reunião com oito sobreviventes de abusos sexuais. Eu não sabia que na Irlanda também havia situações de mães não casadas com filhos às quais levaram embora as crianças. Escutar isso tocou o meu coração de forma particular. Hoje, a ministra da Infância e da Juventude me falou sobre esse problema e depois me enviou um memorando. Gostaria de lhes pedir uma ajuda especial: ajudem a Igreja na Irlanda a acabar com essa história. E o que eu quero dizer com “acabar com essa história”? Não me refiro simplesmente a virar a página, mas buscar remédio, reparação, tudo o que for necessário para curar as feridas e para dar vida de novo a tantas pessoas. A carta que eu escrevi recentemente ao povo de Deus fala da vergonha pelos abusos. Quero reiterar isso aqui e comunicá-lo a vocês hoje.

Eu entendi uma coisa com grande clareza: esse drama dos abusos, especialmente quando é de proporções amplas e gera um grande escândalo – pensemos no caso do Chile e aqui na Irlanda ou nos Estados Unidos – tem por trás situações de Igreja marcadas por elitismo e clericalismo, uma incapacidade de proximidade ao povo de Deus. O elitismo, o clericalismo favorecem toda forma de abuso. E o abuso sexual não é o primeiro. O primeiro é o abuso de poder e de consciência. Peço-lhes ajuda para isso. Coragem! Sejam corajosos! Eu realmente não conseguia acreditar em histórias que eu vi bem documentadas. Eu as escutei aqui na outra sala e fiquei comovido profundamente. Esta é uma missão especial para vocês: limpar, mudar as consciências, não ter medo de chamar as coisas pelo seu nome.

Outra coisa. O provincial me disse que estou tornando a fé alegre. De verdade? Contanto que não seja um circo! [Aqui o papa e os presentes riem com gosto.] Não, é a alegria do Evangelho, é o seu frescor que te leva a seguir em frente, a não perder a paz. É preciso trabalhar para que se entenda bem o frescor do Evangelho e a sua alegria. Jesus veio trazer alegria, e não casuística moral. Trazer abertura, misericórdia. Jesus amava os pecadores. Mas agora estou fazendo uma pregação... não era a minha intenção! Mas Jesus amava os pecadores... Ele os amava! Mas tinha uma terrível aversão aos corruptos! O Evangelho de Mateus, no capítulo 23, é um exemplo daquilo que Jesus diz aos corruptos.

Ter o frescor do Evangelho é amar os pecadores. Eu conheço um confessor que, quando um pecador vem ao seu encontro para se confessar, ele o acolhe de modo que o outro se sinta livre, renovado... E, quando há algo difícil de dizer, ele não é insistente, mas diz: “Entendi, entendi...”, para livrar o outro do constrangimento. Ele faz da confissão um encontro com Jesus Cristo, não uma sala de tortura ou um estudo psicanalítico. É preciso ser o reflexo de Jesus misericordioso. Mas o que Jesus perguntou à adúltera? Por acaso ele perguntou: “Quantas vezes e com quem?” Mas não! Ele disse apenas: “Vai e não peques mais”.

A alegria do Evangelho é a misericórdia de Jesus ou, melhor, a ternura de Jesus. E Jesus gostava da multidão, das pessoas simples, comuns. Os pobres estão no centro do Evangelho. Os pobres seguem Jesus para serem curados, para serem saciados. Foi isso que me veio à mente quando você [e aqui se dirige ao provincial] falou da alegria.

Depois, você falou da liberdade: a liberdade do discernimento. Eu acredito no discernimento, e é preciso ser capaz de fazê-lo. Ele deve ser feito em oração, buscando a vontade de Deus... E – isto soa um pouco herético, mas absolutamente não o é – assim como Jesus está presente na Eucaristia, assim também o Espírito Santo está presente no discernimento. É Ele quem age em mim. E assim você segue em frente e encontra uma estrada que não pensava... Esse é o espírito da liberdade, o espírito que sempre trabalha em nós. E não devemos perder isso quando falamos da liberdade.

O papa pergunta ao provincial:

Quantos noviços vocês têm?

O provincial responde que são três: um da Irlanda e dois da Grã-Bretanha, na mesma casa de noviciado. Então, Francisco continua:

Isso é algo que me preocupa: as vocações. O que acontece quando as pessoas não se entusiasmam mais com a nossa vida? Devemos rever a nossa vida para receber filhos. Ou já somos estéreis? Quando descobrimos a nossa esterilidade, se nos colocamos em oração com o desejo de sermos fecundos, o Senhor dará a fecundidade. Tenham confiança. Cada um de nós deveria acariciar um filho, falar com um neto. E nós quase não temos mais filhos e netos! E com tantos santos que tivemos na Companhia ao longo dos séculos... Devemos pensar e nos perguntar: o que acontece? Com tanta juventude que está aí... Eu lhes sugiro a oração.

Depois, o papa questiona se há perguntas... O Pe. Michael Bingham se levanta para dizer: “Esta não é uma pergunta. Eu só quero lhe agradecer pelo exemplo de solidariedade que o senhor oferece, especialmente aos encarcerados”. O papa responde:

Por favor, saúde de minha parte aqueles que você conhece. Eu quero muito bem a quem está na prisão. Tenho uma simpatia particular por eles.

Brendan McManus pergunta o que é possível fazer concretamente contra os abusos. O papa responde:

Devemos denunciar os casos dos quais tomamos conhecimento. E o abuso sexual é consequência do abuso de poder e de consciência, como eu dizia antes. O abuso de poder existe: quem entre nós não conhece um bispo autoritário? Sempre, na Igreja, existiram superiores religiosos ou bispos autoritários. E o autoritarismo é clericalismo. Às vezes, o envio à missão com autoridade e de maneira decidida é confundido com autoritarismo. Mas são duas coisas diferentes. É preciso vencer o autoritarismo e redescobrir a obediência do envio em missão.

John Callanan toma a palavra e pergunta: “Como o senhor faz para manter o seu coração alegre com tudo o que lhe acontece?”

É uma graça. Todas as manhãs, há 40 anos, depois das Laudes da manhã, eu rezo a oração de São Tomás Morus, pedindo o senso de humor. Parece que o Senhor me dá! Mas nós, em geral, devemos ter esse senso. O Pe. Nicolás dizia que deveríamos dar ao Pe. Kolvenbach [1] o Prêmio Nobel do humor, porque ele era capaz de rir de tudo, de si mesmo e até da sua sombra. Essa é uma graça a se pedir. Eu não sei se o que eu tenho é o certo, talvez seja apenas inconsciência... [e aqui todos riem]. Ter senso de humor é fruto da consolação do Espírito. Insisto em uma coisa que me ajuda: o jesuíta sempre deve buscar a consolação, deve buscar ser consolado. Quando está desolado, é árido. A consolação é uma unção do Espírito. Pode ser forte ou também mínima. O mínimo da consolação é a paz interior. Devemos viver com essa paz. Se o jesuíta não vive em paz, vive desolado.

Michael O’Sullivan se levanta e diz: “Não sei se o senhor se lembra, mas nos encontramos nos anos 1980 aqui em Milltown”. O papa pergunta o seu nome e se lembra, assim como o nome de outro jesuíta que ele conheceu. O Pe. O’Sullivan continua fazendo uma pergunta sobre as responsabilidades dos casos de abuso. Francisco começa a responder afirmando que é preciso prestar contas das responsabilidades e fazer isso de acordo com a estrutura própria da Igreja, isto é, das Igrejas locais. Mas o responsável pela viagem entra na sala, pedindo que o papa conclua o encontro, porque está atrasado em relação ao roteiro.

Um idoso irmão jesuíta, George Fallon, em nome de todos, entrega a Francisco uma pequena teca para levar a comunhão aos doentes, dizendo: “Peço ao Senhor que lhe dê o dom do Espírito Santo e também a sabedoria para lhe ajudar durante a sua visita”. Infelizmente, não houve tempo para uma foto de grupo, nem para saudar um por um, como geralmente acontece. Porém, o papa pediu para rezar juntos uma Ave-Maria. Todos se levantaram. Depois da oração, Francisco, antes de sair, não renunciou a cumprimentar alguns jesuítas idosos em cadeira de rodas, que estão na primeira fila.

Nota:

1. O Pe. Adolfo Nicolás foi prepósito geral da Companhia de Jesus de 2008 a 2019. O Pe. Peter-Hans Kolvenbach foi de 1983 a 2008.

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