24º Domingo do Tempo Comum - Ano B - Tomar a cruz, perder a vida por amor

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14 Setembro 2018

"Tomar a cruz é tomar distância de si, não se pertencer, mas se descentralizar, pois nosso baricentro é fora de nós. Estabelecer uma relação fundamental na qual o centro é Jesus Cristo, e Este crucificado, e que no hoje o encontramos nos crucificados da história, os crucificados que encontramos no cotidiano.

"Perder a vida não é um valor. Tornam-se valor se escolho perdê-la por amor a alguém, se escolho perdê-la como testemunho de amor. Deus não quer que 80% da humanidade viva sem condição de vida digna e 20% esbanje. Deus não ama e não quer a dor, a doença, a morte, o sofrimento causado pelas injustiças, pela iniquidade humana. A cruz somente tem valor quando se torna instrumento de amor que livremente aceita morrer para salvar e dar vida. Renegar-se não é negar a si mesma uma vida realizada, e sim orientar a vida para plena realização que se encontra unicamente na doação de sua própria vida por amor a alguém".

 

A reflexão é de Tea Frigerio, Missionária de Maria-Xaveriana – mmx. Ela possui graduação em Ciências da Religião pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma - PUG e pós-graduação em assessoria bíblica pela Escola Superior de Teologia - EST e pelo Centro de Estudos Bíblicos - CEBI, São Leopoldo/RS . Atualmente atua em assessoria bíblica pelo CEBI e é assessora nacional das Comunidades Eclesiais de Base - CEBs.

 

Referências bíblicas

1ª Leitura – Is 50,5-9ª
Salmo 114 (115)
2ª Leitura – Tg 2,14-18
Evangelho – Mc 8,27-35

 

O evangelho deste 24º domingo do tempo comum nos coloca no coração da Boa Nova da comunidade de Marcos. Os discípulos estão convivendo há tempo com Jesus, e chegou o momento em que precisam optar, se pronunciar com clareza. A quem estão seguindo? O que descobriram em Jesus? O que perceberam em sua vida, em sua mensagem, em seu projeto?

Muitas perguntas deviam povoar suas cabeças, a interrogar sobre sua identidade: quem é este homem que cura, que perdoa, que inclui, que expulsa demônios, que dá de comer, que tem poder sobre a natureza, que é amigo das mulheres, que desobedece à lei do sábado?

Entre o povo corriam muitas suposições: voltou Elias, um profeta, João Batista, mas a Jesus interessava conhecer a posição dos que conviviam com ele, dos que diziam serem seus discípulos. Então pergunta: o que dizem? Vocês o que dizeis? Tu o que dizes? (Mc 8,27-29). Esta pergunta é pergunta que interpela a pessoa, que aponta uma opção, uma escolha: tu o que dizes? Os outros dizem, mas tu o que dizes, que opção faz?

O profeta Isaías com sua palavra nos preparou para compreender a interrogação de Jesus: “de manhã em manhã ele faz meus ouvidos ficarem atentos, para que eu possa ouvir como discípulo”. De manhã em manhã eles estavam com Jesus como discípulos atentos à sua palavra, seus gestos, seu agir. E Pedro responde como discípulo, mas depois volta atrás. O que o tornou de discípulo em pedra de tropeço?

Pedro confessou: “Tu és o Cristo”, mas ao ouvir “é preciso que o Cristo sofra muito” já não estava disposto a ser discípulo de alguém cujo destino era sofrer e morrer. E, depois, quando ouviu “se alguém quer vir atrás de mim negue a si mesmo, tome sua cruz cada dia e me siga”, sua compreensão foi água abaixo. A condição para seguir Jesus é: Negar a si mesmo.

Primeiro vamos dizer o que não é, assim limpamos o terreno. Não tem nada a ver com autoestima: desprezar-se, negar a si mesma. Acolher a si mesma é fundamental para qualquer caminho. Acolher a si mesma, nossa história, amar-se é fundamental para ter equilíbrio e ser capaz de tecer relações humanas e justas. Não podemos fugir de nós mesmos, mas devemos aprender a dar sentido àquilo que cada uma é, pois fomos colocadas dentro dos limites que são os nossos cromossomas, nossos genes, nossa história pessoal. Fomos educadas numa espiritualidade de superação dos limites, e isso muitas vezes nos fez sentir impotentes, inadequadas. Os limites às vezes são insuperáveis, devemos aprender a acolhê-los e a lhes dar um sentido. Fomos dadas a nós mesmas, este ser irrepetível; aprendamos a acolhê-lo, lhe dar um sentido e realizá-lo no jeito específico e irrepetível de cada um.

Negar a si mesma não quer dizer negar as alegrias da vida. Há uma ascética que nos empurra constantemente a negar, a não se alegrar, a não gozar dos bens oferecidos, este não é ser cristão, é ser estoico. Não negar aquilo que Deus nos deu, e sim acolher e agradecer.

O verbo usado indica mais que negar, tomar distância. É o mesmo verbo usado para dizer que Pedro renegou a Jesus: Pedro tomou distância de Jesus, negou ser o seu discípulo, negou Jesus como seu mestre, tomou distância, se afastou.

Tome sua cruz cada dia. Mais uma vez vamos primeiro dizer o que não é, pois esta expressão foi tão aviltada. Não quer dizer: aceitar o sofrimento que acontece em nossa vida, doença, fome, injustiça. Não se pode aceitar o mal. A bíblia nos salmos através dos gritos de protestos nos fala que o sofrimento não é um valor. Então o sofrimento, sobretudo se causado pela injustiça, não é um valor e deve ser combatido.

No livro do Apocalipse há uma multidão assinalada pela letra tau, a última letra do alfabeto hebraico que na maiúscula parece com uma cruz. Ser assinalados com a cruz indica pertença, pertenço a Cristo: fui dado, aderi a… Tomar a cruz é tomar distância de si, não se pertencer, mas se descentralizar, pois nosso baricentro é fora de nós. Estabelecer uma relação fundamental na qual o centro é Jesus Cristo, e Este crucificado, e que no hoje o encontramos nos crucificados da história, os crucificados que encontramos no cotidiano.

Perder a vida não é um valor. Tornam-se valor se escolho perdê-la por amor a alguém, se escolho perdê-la como testemunho de amor. Deus não quer que 80% da humanidade viva sem condição de vida digna e 20% esbanje. Deus não ama e não quer a dor, a doença, a morte, o sofrimento causado pelas injustiças, pela iniquidade humana. A cruz somente tem valor quando se torna instrumento de amor que livremente aceita morrer para salvar e dar vida. Renegar-se não é negar a si mesma uma vida realizada, e sim orientar a vida para plena realização que se encontra unicamente na doação de sua própria vida por amor a alguém.

Salvar a vida: colocar a si própria e os bens como centro, é perder a vida. Nenhum bem no mundo tem tanto valor quanto Jesus Cristo e este crucificado. Mas tudo isso não na tristeza, no luto, mas na felicidade, alegria. Esta dimensão expressa a plenitude de uma vida doada a Cristo.

A esta luz somos convidadas a rever nossas estruturas comunitárias que às vezes são permeadas de tristeza, são pesadas. Ser cristão não nos condena ao luto, à tristeza, mas nos pede serem testemunhas da alegria, pois a outra face da cruz é a ressurreição.

Um autor que agora não lembro o nome escreveu: fizemos da cruz um adobe, uma joia, uma banalidade, um enfeite, a cobrimos dos ornamentos, dos sinais e contradições símbolos de poder, a coroamos de ouro e prata para esquecer que ela é amor porque é denúncia, fizemos isso porque não queremos carregar esta cruz*. É a cruz que para Jesus foi suplício, condenação, morte infamante, pois o poder não suportou sua mensagem, sua proposta de vida. Ele por amor, em plena liberdade, carregou a cruz e aceitou morrer nela como denúncia aos poderes, seja político, seja religioso, que oprimem e matam para se legitimar. Escândalo, loucura, mas escândalo e loucura do amor para ser denúncia das cruzes que Deus não quer, para ser anúncio de uma vida que coloca em seu centro a salvação dos outros, das outras, salvação que é vida em plenitude.

Escutemos Jesus nos perguntar: E tu quem dizes que eu sou?

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