Medellín em gotas. Situação de antipaz (1ª parte)

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10 Agosto 2018

"Existem muitos sinais de esperança que fazem crescer a organização popular e fortalecem a luta por outra América Latina (e Caribe) e outro mundo possíveis", escreve frei Marcos Sassatelli, frade dominicano, doutor em Filosofia (USP) e em Teologia Moral (Assunção - SP) e professor aposentado de Filosofia (UFG).

Eis o artigo.

No documento “Paz” - que é o segundo - a II Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e Caribenho de Medellín começa afirmando: “’Se o desenvolvimento é o novo nome da paz’, o subdesenvolvimento latino-americano, com características próprias nos diversos países, é uma injusta situação promotora de tensões que conspiram contra a paz”: uma situação de anti-paz.

Estas tensões são sistematizadas em três grandes grupos, “destacando em cada caso aquelas variáveis que, por exprimir uma situação de injustiça, constituem uma ameaça positiva contra a paz em nossos países”.

Mesmo reconhecendo que, às vezes, “a miséria em nossos países pode ter causas naturais difíceis de superar”, os participantes da Conferência dizem: “Ao falar de uma situação de injustiça fazemos referência àquelas realidades que exprimem uma situação de pecado”. Reparem: uma “situação de injustiça” é uma “situação de pecado”.

Hoje, a Igreja tem a coragem profética de denunciar que a situação de injustiça em que vivem os nossos povos da América Latina e do Caribe é uma situação de pecado? A Igreja não é, muitas vezes, omissa e conivente com os poderosos que fazem de tudo para manter essa situação de injustiça e legitimá-la, até em nome de Deus?

“Ao realizar esta análise - dizem os bispos - não ignoramos e nem deixamos de valorizar os esforços positivos que se realizam em diferentes níveis para a construção de uma sociedade mais justa. Não os incluímos aqui porque nossa intenção é a de chamar a atenção, precisamente, para aqueles aspectos que constituem uma ameaça ou negação da paz”.

Do ponto de vista filosófico-teológico, todos os seres humanos, homens e mulheres, são iguais: irmãos e irmãs. A sociedade de classes é uma sociedade estruturalmente desigual (desigualdade estrutural ou institucionalizada), uma sociedade estruturalmente violenta (violência estrutural ou institucionalizada), e uma sociedade estruturalmente injusta (injustiça estrutural ou institucionalizada).

Portanto, a desigualdade estrutural é a maior violência e a maior injustiça, que - sem negar a responsabilidade individual, situada e datada, de cada ser humano, homem ou mulher - gera outras violências e outras injustiças: pessoais, familiares e de grupos.

Mesmo não aprofundando o assunto, a Conferência - falando de “situação de injustiça” como “situação de pecado” - inspirou a Teologia da Libertação, que fez do “pecado social ou estrutural” um dos temas centrais da Ética Teológica.

No documento “Paz”, os bispos destacam os diversos “rostos” da “situação de injustiça” como “situação de pecado”: as “tensões entre classes e colonialismo interno”, as “tensões internacionais e neocolonialismo externo” e as “tensões entre os países da América Latina” (e Caribe). Na realidade, essas tensões são o reflexo da “situação de injustiça” como “situação de pecado” (injustiça estrutural como pecado estrutural) e revelam seu caráter iníquo e cruel.

A respeito das “tensões entre classes e colonialismo interno”, a Conferência enumera:

  1. “As diversas formas de marginalização: socioeconômicas, políticas, culturais, raciais, religiosas, tanto nas zonas urbanas como nas rurais.
  2. As desigualdades excessivas entre as classes sociais: especialmente, embora não de forma exclusiva, naqueles países que se caracterizam por um acentuado biclassismo: poucos têm muito (cultura, riqueza, poder, prestígio) enquanto muitos nada têm. (...)
  3. Frustrações crescentes: o fenômeno universal das expectativas crescentes assume na América Latina uma dimensão particularmente agressiva. A razão é óbvia: as desigualdades excessivas impedem sistematicamente a satisfação das legítimas aspirações dos setores postergados. Geram-se assim frustrações crescentes. Semelhante estado de espírito constata-se também nas classes médias que, diante de graves crises, entram em um processo de desintegração e proletarização.
  4. Formas de opressão de grupos e setores dominantes: sem excluir eventual vontade de opressão, elas se exprimem mais frequentemente numa forma de insensibilidade lamentável dos setores mais favorecidos perante a miséria dos setores marginalizados. (...) Não é raro comprovar que estes grupos ou setores, com exceção de algumas minorias lúcidas, qualificam de ação subversiva toda tentativa de modificar um sistema social que favorece a permanência de seus privilégios.
  5. Poder exercido injustamente por certos setores dominantes: como consequência normal das atitudes mencionadas, alguns membros dos setores dominantes recorrem, por vezes, ao uso da força para reprimir drasticamente toda tentativa de reação. Será muito fácil para eles encontrar aparentes justificativas ideológicas (anticomunismo) ou práticas (conservação da ‘ordem’) para coonestar este procedimento.
  6. Crescente tomada de consciência dos setores oprimidos: tudo o que ficou dito torna-se cada vez mais intolerável diante da progressiva tomada de consciência que os setores oprimidos fazem de sua situação. (...) A visão estática descrita nos parágrafos precedentes agrava-se quando se projeta para o futuro: a educação de base e a alfabetização aumentarão a tomada de consciência e a explosão demográfica multiplicará os problemas e tensões. Não se deve esquecer, tampouco, a existência de movimentos de todo tipo, interessados, cada vez mais, em aproveitar e exacerbar estas tensões. Portanto, se hoje a paz já é vista seriamente ameaçada, o agravamento automático dos problemas provocará consequências explosivas”.

Em grande parte - às vezes até agravada - é essa, ainda hoje, a nossa realidade, mas - graças a Deus - existem muitos sinais de esperança que fazem crescer a organização popular e fortalecem a luta por outra América Latina (e Caribe) e outro mundo possíveis.

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