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10 Agosto 2018

"A Igreja tem uma mensagem para todos aqueles que "têm fome e sede de justiça". Os bispos, portanto, exigem reformas sociais e políticas para uma "autêntica libertação"."

O artigo é de Pierre De Charentenay, jornalista e jesuíta, publicado por L'Osservatore Romano, 08-08-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Desenvolvimento e família. Do livro “Paolo VI alle radici del magistero di Francesco. L’attualità di Ecclesiam suam ed Evangelii nuntiandi” (Paulo VI às raízes do magistério de Francisco. A atualidade da Ecclesiam suam e Evangelii nuntiandi, Cidade do Vaticano, Libreria Editrice Vaticana, 2018, 284 páginas, € 15) publicamos a parte dedicada à atenção do Papa Montini para o Terceiro Mundo e desenvolvimento, bem como sua preocupação com a família, através da Humanae vitae. O autor, padre jesuíta francês, professor e jornalista, ressalta, com referências precisas, os vínculos com o Papa Francisco sobre tais temas.

Em 26 março de 1967, o Papa Paulo VI publicou a Encíclica Populorum progressio, para iniciar a reflexão sobre o desenvolvimento após o período colonial. Encontramos ali a sua famosa fórmula: "O desenvolvimento é o novo nome da paz". O Papa resume nela todos os grandes princípios da doutrina social da Igreja, aplicando-os ao mundo inteiro e não apenas ao mundo desenvolvido. Rejeitando as ideias de violência e de revolução, exceto em casos de "tirania evidente e prolongada" exorta à justiça entre os países, condição para a paz. "O desenvolvimento requer transformações ousadas, profundas e inovadoras". Ele analisa com grande ênfase “o escândalo de desigualdades clamorosas, não só no usufruto de bens, mas ainda mais no exercício do poder”.

Vale à pena determo-nos sobre essa encíclica, inspirado pelo padre Lebret e escrita imediatamente antes do grande encontro do episcopado da América Latina, em Medellín, em 1968. A encíclica teve uma imensa influência na América Latina. Paulo VI foi para a Colômbia logo após a sua publicação: durante aquela viagem proferiu críticas muito severas contra o imperialismo do dinheiro e foi tachado de comunista por uma parte da opinião pública norte-americana. Afirmando que "a questão social hoje adquiriu uma dimensão mundial", ele abriu a igreja à globalização, ao desenvolvimento, para aquele Terceiro Mundo, que nunca tinha sido considerado na reflexão da Igreja. Colocou a questão da justiça no nível planetário de forma muito enfática e não apenas dentro das fronteiras nacionais.

A encíclica retoma várias passagens da constituição Gaudium et spes. Sobre a demografia faz referência às aquisições sobre o tema já consolidadas naquele mesmo documento. Expressa preocupação com o "um acelerado crescimento demográfico [que] acrescenta novas dificuldades aos problemas de desenvolvimento". Isso leva inevitavelmente a pensar sobre as afirmações do Papa Francisco, ao seu retorno de Manila, sobre a paternidade responsável, quando se expressou sobre o controle do número de filhos do casal. Paulo VI ainda cita Gaudium et spes sobre a promoção cultural (n. 40), sobre a tentação materialista (n. 41), sobre o desenvolvimento solidário (n. 48), sobre as missões de desenvolvimento (n. 71).

Inspirado por Jacques Maritain, Paulo VI defende a promoção de um "humanismo pleno", falando sobre o "desenvolvimento integral do homem todo e de todos os homens." No mesmo parágrafo, encontramos uma citação do Padre Henri de Lubac, um dos autores favoritos do Papa Francisco: "O humanismo exclusivo é um humanismo desumano". Paulo VI, então, cita Pascal: "O homem supera infinitamente o homem". É possível notar uma referência recíproca entre Paulo VI e a América Latina: o Papa viaja para aquele continente para defender o processo de reflexão sobre a relação entre a Igreja e o mundo. O Celam é inspirado por Paulo VI e por sua encíclica sobre o desenvolvimento dos povos, que por sua vez é inspirada pelas iniciativas da Igreja na América Latina.

Quase cinquenta anos mais tarde, o Papa Francisco iria lançar sua exortação Evangelii gaudium, na qual ressaltará igualmente críticas muito severas contra o mesmo imperialismo do dinheiro. E sofrerá as mesmas críticas de seu antecessor - aquela de ser marxista e comunista – por parte dos mesmos grupos norte-americanos. A semelhança é estarrecedora, e não é um acaso. Existem evidentes constantes entre a luta desses dois papas e as consequências de um liberalismo desenfreado.

Em 25 de julho de 1968, Paulo VI publicava a sua mais controversa encíclica, a Humanae vitae, sobre a família, a paternidade responsável e regulação dos nascimentos. As reações na Europa foram muito negativas em muitos setores da opinião pública e entre os cristãos, que não entendiam uma atitude de proibição à pílula anticoncepcional após o concílio. Na América Latina, a Humanae Vitae foi entendida como uma resposta ao malthusianismo promovido pelos Estados Unidos e pelas organizações internacionais. O presidente do Banco Mundial, Robert MacNamara, havia declarado, em 1968, que os países que teriam autorizado a contracepção teriam recebido financiamentos. Aquelas declarações foram interpretadas como uma vontade dos ricos de que os pobres não tivessem filhos; os norte-americanos estavam dispostos a pagar para os países que organizassem esterilizações. A Bolívia argumentou que tais afirmações eram um insulto para as nações católicas.

A leitura latino-americana da Humanae Vitae é anti-imperialista e muito diferente daquela da Europa. A América Latina fez uma leitura social e política da encíclica: era a ideia de Alberto Methol Ferré, um filósofo laico, que se tornou conselheiro do CELAM em Puebla. A interpretação acima mencionada da Humanae vitae vem de Ferré e se difundiu amplamente por toda a América Latina.

A ligação com o Papa Francisco é muito direta. Durante sua viagem às Filipinas, Francisco fala sobre Paulo VI como um homem corajoso. Em Manila, durante o encontro com as famílias, em 16 de janeiro de 2015, no Mall of Asia Arena, na frente de vinte mil pessoas, lembra de Paulo VI, que "viu essa ameaça da destruição das famílias por falta de filhos" e "pediu aos confessores que fossem muito misericordiosos", pois "conhecia as dificuldades que existiam em todas as famílias". Segundo Francisco, "Paulo VI foi corajoso e [...] advertiu suas ovelhas contra os lobos que se aproximavam". Ao retornar de Manila, no avião em 20 de janeiro, ele elogiou Paulo VI, que havia promovido a paternidade responsável na encíclica Humanae vitae. Naquela ocasião, dirigia-se àqueles que testemunharam a viagem às Filipinas, onde a questão demográfica é bastante séria. Essa leitura da Humanae Vitae é especial, no sentido que ela recupere a questão da responsabilidade da paternidade sem os efeitos negativos contra a contracepção, que tanto haviam criado problema, pelo menos na Europa.

Um mês depois da encíclica sobre a família, Paulo VI tomava voo para a América Latina, para participar da segunda assembleia da Conferência Episcopal Latino-Americana (CELAM), em Medellín, Colômbia, de 22-24 de agosto de 1968. As trocas seriam em grande parte inspiradas pela Populorum progressio, que encontrará assim sua aplicação na América Latina. Jorge Mario Bergoglio não estará presente na reunião, uma vez que ele ainda estava completando seus estudos teológicos em Buenos Aires (ele seria ordenado sacerdote em 13 de dezembro 1969). Evidentemente, no entanto, ele terá que se encaixar naquela corrente, especialmente na herança de Medellín e das reuniões do CELAM que se seguiram, em Puebla (1979) e em Aparecida (2007).

O ano de 1968 é foi um período de agitação, tanto pelos movimentos de protesto de maio na França, como pelos movimentos sociais que se afirmavam em vários países. É um período em que a América Latina está começando a ser dominada por regimes militares, especialmente no Brasil, onde sobem ao poder desde 1964. Inclusive os movimentos de extrema-esquerda eram muito ameaçador e se criava uma instabilidade a que tentavam responder os regimes autoritários.

Em seu encontro com os campesinos, em 23 de agosto, o Papa Paulo VI retorna muitas expressões da Populorum progressio, denunciando "as condições miseráveis, muitas vezes abaixo do padrão de necessidade básica da vida humana", mas enfatizando mais uma vez que a violência não é nem evangélica nem cristã. Na assembleia dos bispos latino-americanos, reunidos para a sua segunda conferência, ele partilha as suas reservas sobre as renovações teológicas que contestariam a tradição e o magistério. Adiciona um comentário pastoral sobre a secularização, assim como havia sido veiculada na época por autores como Harvey Cox. No plano social retoma a maioria das afirmações contidas na encíclica sobre o desenvolvimento que acabara de publicar, mas também menciona muitos trabalhos de diversas conferências episcopais do continente.

Durante a assembleia são apresentadas duas palestras sobre os "sinais dos tempos", o tema-chave do concílio: uma do padre Pironio, o argentino que se tornaria cardeal, a outra de Monsenhor MacGrawth, morte-americano nascido no Panamá e bispo da mesma cidade. As duas palestras representaram duas leituras dos sinais dos tempos, uma positiva para a Europa, o crescimento, o pleno emprego, a riqueza, e a outra negativa para a América Latina, em que reinava a violência, a pobreza e a desigualdades. Disso resultou um documento dos bispos muito comprometido com a mudança social e política, que conferia um grande papel à Igreja daquele continente católico.

Coube à assembleia escrever um documento após a conferência. Nele seria descrita a miséria que afeta a maioria dos homens do continente. Tal miséria manifesta uma injustiça "que grita ao céu". A Igreja tem uma mensagem para todos aqueles que "têm fome e sede de justiça". Os bispos, portanto, exigem reformas sociais e políticas para uma "autêntica libertação". As referências do texto publicado pela assembleia de Medellín são principalmente Gaudium et spes e Populorum progressio.

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