Fidelidade e mudança: Papa Francisco, a pena de morte e a ameaça do neotradicionalismo. Artigo de Massimo Faggioli

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09 Agosto 2018

“A relutância em aceitar mudanças na Igreja faz parte de uma tendência mais ampla do catolicismo neotradicionalista dos Estados Unidos, em que parece ter se tornado impossível aceitar a ideia de que a Igreja Católica, a fim de permanecer católica, às vezes deve mudar.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de Teologia e Estudos Religiosos na Villanova University, nos Estados Unidos, e do BBI – The Australian Institute of Theological Education, em Sydney, Austrália.

O artigo foi publicado em ABC Religion and Ethics, 07-08-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A recente decisão do Papa Francisco de mudar o ensino do Catecismo sobre a pena de morte – que é sempre “inadmissível” – é supostamente um momento de regozijo na Igreja Católica, como foi o caso da grande maioria dos católicos.

Mas, para outros católicos, especialmente os católicos neotradicionalistas nos Estados Unidos, tornou-se outra oportunidade para questionar a interpretação do magistério do Papa Francisco e a sua relação com a tradição anterior da Igreja.

Há duas questões em jogo aqui: uma é teológico-doutrinal, e a outra é, de modo mais amplo, teológico-cultural.

A questão teológico-doutrinal tem a ver com a maneira como um famoso discurso do Papa Bento XVI foi interpretado. Esse discurso, em 22 de dezembro de 2005, apresentou a visão do papa sobre duas maneiras ideal-típicas de interpretar o Concílio Vaticano II: a hermenêutica da “descontinuidade e ruptura” versus a hermenêutica da “continuidade e reforma”.

Entre aqueles que criticam o ensino do Papa Francisco sobre a pena de morte (assim como sobre matrimônio e família), as duas hermenêuticas se tornaram “descontinuidade e ruptura” versus “continuidade”. A reforma é intencionalmente posta de lado, apesar de fazer parte da visão de Bento XVI sobre a natureza da mudança na tradição teológica e no magistério eclesiástico.

Esse é mais um exemplo dos mal-entendidos e das ambiguidades que cercam a “hermenêutica da continuidade” sem “reforma”. Pode-se dizer que a continuidade está sendo usada pelos católicos neotradicionalistas, paradoxalmente, para produzir uma ruptura com a maneira como a Igreja Católica sempre entendeu a tradição – isto é, dinamicamente.

É interessante notar que o teólogo beneditino francês Ghislain Lafont defendeu recentemente uma maior adequação do termo “coerência” com a tradição anterior da Igreja, em vez da “continuidade” com a tradição.

Há, depois, um problema teológico-cultural: a identificação da catolicidade com a continuidade e a rejeição da reforma é particularmente visível na Igreja Católica contemporânea, quando uma certa revanche de fundamentalismo ao abordar a tradição magisterial está assombrando o debate intracatólico.

Não é nenhuma coincidência que isso esteja acontecendo principalmente no catolicismo estadunidense. Independentemente da ironia (e da tragédia) de que os católicos que estão indignados com a decisão de Francisco sobre a pena de morte são os mesmos que são céticos em relação à assistência médica prestada pelo governo, isso também aponta para uma crise intelectual mais profunda. Onde a continuidade literal com a tradição magisterial passada é vista como o último recurso nas “guerras culturais” – especialmente em torno da sexualidade e orientação sexual –, a própria tradição se torna escrava de uma agenda política e ideológica que não pode fazer justiça à historicidade da tradição teológica.

Tal negacionismo (“a mudança não acontece, não pode acontecer e nunca aconteceu no ensino católico”) poderia se tornar o equivalente católico do julgamento de Scopes de 1925 [Wikipédia], que desempenhou um papel muito decisivo na guetização intelectual do cristianismo evangélico nos Estados Unidos.

Essa relutância em aceitar mudanças na Igreja faz parte de uma tendência mais ampla do catolicismo neotradicionalista dos Estados Unidos, em que parece ter se tornado impossível aceitar a ideia de que a Igreja Católica, a fim de permanecer católica, às vezes deve mudar: a fidelidade à linguagem do passado pode se tornar às vezes infidelidade a princípios imutáveis, como Yves Congar escreveu em “Verdadeira e falsa reforma na Igreja”, em 1950.

Parece agora que, nos círculos neotradicionalistas, mas também entre teólogos católicos respeitados, a mudança só é aceita quando está entre aspas, quando é formulada apenas como “desenvolvimento na continuidade” – como se, a fim de permanecerem ou parecerem católicos, os intelectuais católicos têm que adotar a linguagem eclesiástica para falar sobre mudança.

Na carta do cardeal Luis Ladaria aos bispos de 2 de agosto de 2018, que anunciou a mudança no Catecismo, a palavra “mudança” está ausente, enquanto “desenvolvimento” é usada oito vezes, e “continuidade”, apenas uma vez. Pode-se entender por que o cardeal prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé está usando essa linguagem cautelosa, mas essa não é uma boa razão para nos cegarmos diante dos fatos evidentes da história e para aceitar a ideia de que houve alguma mudança real, desde que gradual.

A recente decisão do Papa Francisco sobre o ensino católico vem na conclusão de uma série de declarações cada vez mais críticas sobre a pena de morte por parte de João Paulo II e de Bento XVI. Mas também vem 50 anos depois da abolição da pena de morte da lei da Cidade do Vaticano (1969) e depois de centenas de execuções realizadas pelos carrascos na história dos Estados Papais.

É difícil defender a decisão de Francisco a partir de um ponto de vista estritamente de “continuidade”. A carta do cardeal Ladaria afirma significativamente que “na nova redação se acrescenta que a consciência da inadmissibilidade da pena de morte cresceu ‘à luz do Evangelho’” (que é uma citação da Gaudium et spes), deixando claro, assim, que o critério real não é simplesmente a continuidade com a tradição anterior, mas principalmente a coerência do ensino da Igreja com uma compreensão cada vez maior do Evangelho.

Essa não é apenas uma questão puramente intelectual. É também uma questão eclesial, porque tem a ver com a credibilidade da Igreja que Francisco vê como uma Igreja missionária. Os pensadores católicos neotradicionalistas põem em risco a sua fé – e a dos outros – quando tornam dependente a sua filiação à Igreja em relação à viabilidade intelectual do catolicismo, estritamente fundamentada na ideia de que os ensinamentos da Igreja nunca mudaram, porque nunca foram errados. Como se a Igreja decidisse parar de aprender com a história – com a sua própria história, em primeiro lugar – sobre aquilo que os cristãos entenderam errado do Evangelho de Jesus; como se a publicação do Catecismo da Igreja Católica em 1992 representasse a ideia de que a história terminou dentro da Igreja.

O maior problema que esse tipo de cultura católica neofundamentalista tem com o Papa Francisco não é com um aspecto particular do seu magistério, mas sim, mais em geral, com as consequências do primeiro dos quatro princípios que Francisco expôs na exortação Evangelii gaudium: “O tempo é superior ao espaço”.

Francisco dá uma nova ênfase ao tempo, o que pressupõe uma maior aceitação da mudança, do desenvolvimento, da aceleração, da fratura e da recomposição da linguagem e das formulações da Igreja.

Alguns papas acabam sendo profetas, e a profecia nunca parece estar em continuidade visível e literal com o passado recente.

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