Pessoas com Deficiência e o Mercado de Trabalho no Vale do Sinos. Entrevista com Maura Corcini Lopes

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Por: João Pedro Wilson Dias | 04 Agosto 2018

As Pessoas com Deficiência representam 22% da população da região do Vale do Sinos, porém em 2016 eram apenas 1,2% das pessoas no mercado formal de trabalho, tendo acesso a renda, dignidade e proteção social do trabalho. Estes e outros dados foram sistematizados pelo Observatório das Realidades e Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos - ObservaSinos, programa do Instituto Humanitas Unisinos - IHU, para o Especial do Trabalho 2003-2016.

Ao longo de 2018 o Observatório vem desenvolvendo uma série histórica sobre o trabalho entre os anos de 2003 e 2016, período de grande movimentação e transição econômica, política e social no Brasil. Os dados analisados são dos 14 municípios do Conselho Regional de Desenvolvimento - Corede do Vale do Rio dos Sinos, região de atuação do ObservaSinos.



Maura Corcini Lopes | Foto: Reprodução do Google

Para compreender melhor o significam esses índices, a equipe do ObservaSinos conversou com a Maura Corcini Lopes, integrante do Grupo de Estudo e Pesquisa em Inclusão (GEPI/CNPq) da Unisinos. Para ela os dados da inclusão informam um importante crescimento no número de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, mas é preciso problematizar as condições de trabalho as quais elas estão submetidas. Confira a íntegra da entrevista com a professora.

O que poderia explicar o aumento na participação de pessoas com deficiência cognitiva e visual na região? 

Olhá-los reunidos e de forma comparativa permite perceber o quanto caminhamos, nos últimos 11 anos, na direção de uma sociedade mais justa e menos excludente, mas também o quanto ainda falta investirmos em políticas de inclusão para que o direito ao trabalho seja respeitado. 

Muitas são as variáveis em jogo que possibilitariam uma análise das condições que contribuíram para o aumento da participação das pessoas com deficiência cognitiva e visual no mercado de trabalho. Entre as variáveis, destacaria: a formação profissional das pessoas com deficiência cognitiva e visual; maior autonomia dos sujeitos; ampliação de oportunidades de trabalho derivadas tanto do crescimento econômico vivido na última década quanto da construção de políticas públicas que passaram a exigir novos comportamentos das empresas; organização das comunidades; reivindicação de direitos, etc.

Sem dúvida, as inúmeras investidas na construção de políticas de inclusão mostram que é possível mudar uma realidade. Todavia, tal mudança demanda ações continuadas para que prossigamos nos movimentando em direção a uma vida mais digna para todos e à consolidação de práticas de vida com o outro e de respeito às diferenças. 

Nos casos específicos de inclusão de pessoas com deficiência cognitiva e visual, penso que o aumento do número de trabalhadores empregados que apresentam tais deficiências pode justificar-se, entre outras razões, pelo amplo espectro de variações das deficiências compreendidas em tais diagnósticos. Quero dizer que uma pessoa com uma deficiência cognitiva leve pode não constituir um grande desafio para ser incluída em uma empresa. O mesmo se passa com uma pessoa com deficiência visual que tem autonomia e se beneficia de aparatos tecnológicos que podem facilitar a sua vida. 

Como a presença das pessoas com deficiência impacta o mundo do trabalho e qual a importância da inserção no mercado de trabalho para esses pessoas?

Trata-se de uma via de mão dupla, ou seja, a presença de pessoas com deficiência no que tu estás chamando de “mundo do trabalho” impacta na forma de vida de todos aqueles que estão envolvidos na experiência de conviver com o outro. Trata-se de uma experiência que transforma, pois implica o reposicionamento dos sujeitos nas redes de relações e de produção, bem como a revisão de representações sobre a normalidade.

A normalidade, como sabemos, é uma categoria inventada socialmente. Quanto mais pessoas com deficiência tivermos circulando e ocupando os espaços comuns e de trabalho, mais naturalizadas serão suas presenças e mais espaços serão criados para que todos possam conviver com autonomia. 

Até pouco tempo atrás, não tínhamos noção do número de pessoas com deficiência que existiam no Brasil e em nossas regiões. Hoje, por mais difícil que ainda seja fazer um mapeamento populacional, devido, entre outras razões, à dificuldade de diagnósticos médicos que definam, por exemplo, a deficiência cognitiva e visual, é bem mais fácil identificá-las, com a finalidade de criar políticas e ações pontuais para que as pessoas que têm tais deficiências participem das redes de relações, de trabalho, educacionais, etc. 

Em tempos de eugenia genética, de ciborguização do corpo, de eliminação das diferenças e/ou de redução destas em identidades e de normalização, conviver com qualquer um constitui-se em uma ameaça. Portanto, transformar a presença de todos nos espaços comuns em uma prática constante pode servir de estratégia para que lutemos pela presença da diferença como elemento que nos enriquece e nos fortalece como humanos.   

Qual o maior desafio para inserir a pessoa com deficiência no mercado de trabalho?

Não sei qual é o maior desafio, pois os desafios podem variar, dependendo das experiências que encontramos, mas mudar a lógica competitiva e excludente de mercado para uma lógica pautada na justiça e na corresponsabilidade de uma vida compartilhada talvez seja algo altamente desafiador.

Entendo que fazer a formação de pessoas com deficiência para o mercado de trabalho, investir no mercado para que ele possa abrir-se para receber tais pessoas e educar os envolvidos na experiência de inclusão para que mudem as representações de uns sobre os outros e saibam lidar com especificidades que marcam os sujeitos em aspectos sensoriais, motores, cognitivos e/ou de forma múltipla são desafios presentes e difíceis. Porém, a exclusão das pessoas com deficiência do mercado de trabalho mistura-se com a exclusão econômica e financeira vivida historicamente no Brasil. 

O que poderia explicar este aumento no número de trabalhadores com deficiência visual com ensino superior completo?

Uma parte da explicação poderia ser os inúmeros investimentos feitos pelo Estado brasileiro na educação básica. No campo da Educação, o Brasil tem sustentado políticas de inclusão desde o início dos anos 2000. Antes disso, havia políticas de integração. Para ser mais exata, foi em 2002 a primeira vez que a palavra inclusão entrou nas políticas educacionais brasileiras. Portanto, há quase duas décadas, convivemos com políticas de inclusão educacionais, fato que tem possibilitado que as pessoas com deficiência visual, baixa visão e cegas (e não só elas) avancem nos anos de ensino e concluam cursos universitários.  

Outra explicação que poderia ser dada é a autonomia conquistada pelas pessoas com deficiência visual devido ao desenvolvimento de aparatos tecnológicos e tecnológico-digitais. Hoje temos programas de computador que facilitam o acesso das pessoas aos conhecimentos historicamente acumulados e produzidos em aula. Também facilitam a entrega de trabalhos e as trocas entre colegas, mesmo na educação online. O acesso ao conhecimento e à universidade está mais democratizado.

Para finalizar, penso ser importante fazer uma reflexão final. Os dados da inclusão informam um crescimento no número de pessoas com deficiência no mercado de trabalho, fato que é muito bom e um avanço, sem dúvida alguma. Porém, é interessante focar a problematização nas condições de trabalho enfrentadas pelas pessoas com deficiência.

Inúmeras narrativas de trabalhadores denunciam realidades difíceis enfrentadas no mercado de trabalho, entre elas, o pagamento de salários menores para execução dos mesmos trabalhos realizados por pessoas sem deficiência; empregos que exigem menos do que as competências profissionais já desenvolvidas pelos trabalhadores com deficiência; isolamento; piadas feitas pelos colegas; exposição a perigos que podem ser evitados se a empresa investir em adaptações arquitetônicas, etc.

Inúmeras práticas in/excludentes são enfrentadas cotidianamente por parte dos trabalhadores que estão contribuindo para o aumento das estatísticas de inclusão no mercado de trabalho. O que quero marcar, ao fazer esta problematização, é que inclusão implica mudança de cultura, e, para que tal mudança ocorra, são necessários investimentos continuados na educação da população.

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