Inteligência artificial e pós-humanismo. Artigo de Giannino Piana

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03 Agosto 2018

“A mutação antropológica põe em causa o futuro de todo o gênero humano. As interrogações que surgem são, a esse respeito, as seguintes: que evolução nos espera? Qual destino para a espécie humana? E ainda: a inteligência artificial poderá evoluir até se auto-humanizar?”

A reflexão é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas. O artigo foi publicado em Rocca, n. 14, 15-07-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A inteligência artificial representa um desafio decisivo para o futuro (próximo) da humanidade.

Apesar da dificuldade de previsões seguras, devido à rapidez com que os processos tecnológicos evoluem e às suas implicações globais, não é difícil, desde hoje, levantar a hipótese da sua possível aplicação em todos os setores da vida: do sistema econômico-financeiro às empresas e à pesquisa; da informação à educação; da saúde à família e às amizades.

Mais controverso parece ser o juízo sobre os resultados de tal aplicação, que não diz respeito só às modalidades de desenvolvimento das diversas atividades humanas, mas também envolve, modificando profundamente o seu sentido, a consciência pessoal e as relações inter-humanas.

Como em todas as revoluções de época, portanto, está ganhando espaço uma atitude ambivalente, misto de fascínio e de medo, de expectativa e de inquietação.

A ambivalência dos resultados

A inteligência artificial pode realmente oferecer à humanidade novas (consistentes) potencialidades expressivos: basta pensar no aumento das capacidades cognitivas, graças à possibilidade de extrair de grandes quantidades de dados, através de alguns algoritmos, informações importantes que permitam analisar problemas cada vez mais complexos; ou, no campo da atividade laboral, à atribuição à máquina das tarefas mais chatas e repetitivas com a consequente possibilidade de que o ser humano se dedique às mais criativas e de controle da qualidade; ou ainda, ao desenvolvimento de processos cada vez mais extensos de comunicação, em virtude da possibilidade de fruir da tradução imediata dos discursos em línguas diversas fornecida por instrumentos tecnológicos já desde agora em vias avançadas de aperfeiçoamento.

Tudo isso é verdade e poderíamos acrescentar outros efeitos positivos de relevante significado.

Mas também não se pode ignorar os efeitos negativos, devidos – como dizem as previsões – à drástica redução dos postos de trabalho e, portanto, ao aumento do desemprego – calcula-se que, em 2020, nos Estados Unidos, 47% dos trabalhos serão automatizados; ou provocados – como constata o Fundo Monetário Internacional – pela hipótese (não totalmente improvável) de que a revolução dos robôs faça o PIB subir, mas também envolva o crescimento das desigualdades; ou ainda (e finalmente) ditados, no campo da defesa militar, pela produção de sistemas de armas completamente autônomas, os chamados killer robots [robôs assassinos], que podem expulsar os sujeitos humanos das decisões e da possibilidade de exercício do controle, diminuindo consequentemente (até anulá-la) a responsabilidade pessoal e alimentando a desumanização dos processos, com consequências trágicas sobre a família humana.

Os cenários que se abrem, portanto, são, ao mesmo tempo, promissores e alarmantes, e isso, com ainda mais razão, se considerarmos – como destaca Max Tegmark, do MIT de Boston, em um recente livro (Vita 3.0, Ed. Cortina) – que os desenvolvimentos da inteligência artificial são capazes de produzir em poucas semanas uma verdadeira revolução na configuração industrial e geopolítica.

A mutação antropológica

Mas o aspecto mais inquietante é a mutação antropológica, que põe em causa o futuro de todo o gênero humano. As interrogações que surgem são, a esse respeito, as seguintes: que evolução nos espera? Qual destino para a espécie humana? E ainda: a inteligência artificial poderá evoluir até se auto-humanizar?

Nesse contexto, adquire pleno significado o termo “trans-humanismo”, cunhado em 1957 por Julien Huxley, renomado biólogo, geneticista e escritor britânico, e parece encontrar cumprimento a “suprema esperança” referida por Nietzsche em “Assim falou Zaratustra”, a de alcançar a superação da humanidade, graças ao nascimento de uma “nova bela espécie” de seres humanos superiores.

Na realidade, tal mutação não deve ser atribuída apenas à robótica, mas também (e, em muitos aspectos, principalmente) às biotecnologias – basta pensar nas manipulações genéticas – e às noções adquiridas graças aos conhecimentos que vêm do campo das neurociências. É o que enfatiza o artigo 1 da Carta dos Trans-humanistas Italianos, em que se afirma: “Graças às biotecnologias e à engenharia genética, às nanotecnologias e à robótica, à inteligência artificial e às neurociências, romperemos os nossos vínculos biológico-evolucionistas, emancipando-nos do envelhecimento, das doenças, da pobreza e da ignorância”.

O que emerge, portanto, é a tendência a “reinventar” o ser humano, elevando-o a um nível biológico superior e confiando na tecnologia como instrumento privilegiado para alcançar esse fim. Por trás da tensão de ir “além”, da qual a inteligência artificial é a meta mais avançada, há uma espécie de confiança incondicional nas potencialidades da técnica, uma forma de otimismo iluminista que vê nela o moderno Prometeu capaz de fazer com que o ser humano supere todos os limites que, desde sempre, experimenta.

Para além das reservas já assinaladas em relação a tal confiança e a tal otimismo, a questão de fundo com a qual é necessário se defrontar é a concepção da pessoa humana e os parâmetros de definição da sua dignidade, aos quais se apela para orientar o percurso delineado; ou é o sistema de valores ao qual se faz referência para avaliar suas diversas etapas evolutivas.

Os defensores do pós-humanismo (ou, de acordo com a expressão de outros, do tecno-humanismo) levantam a hipótese da fabricação, através das práticas de “antropopoiese biotecnológica”, de espécies futuras dotadas de capacidades que somente de modo inapropriado podem ainda ser definidas como humanas. O que levanta perguntas de grande seriedade, cuja resposta remete a reivindicações decisivas provenientes do mundo humanista.

As competências técnicas sozinhas não são suficientes; requer-se um pensamento criativo, uma nova cultura de síntese, capaz de assumir as potencialidades oferecidas pela ciência, integrando-as no contexto de uma visão global do humano, que preserve plenamente a sua identidade.

A reivindicação ética emergente

A exigência de tal cultura, cuja promoção implica a adoção de múltiplos registros de várias origens – dos das ciências naturais aos das ciências humanas, até os do saber literário, artístico e filosófico –, foi evidenciada nos últimos anos por inúmeros estudiosos de diversas disciplinas.

A preocupação a partir da qual eles se moveram é o medo (não sem razão) do desaparecimento dos estudos humanísticos, que asseguram – como escreveu Martha Nussbaum, renomada filósofa estadunidense em Non per profitto. Perché le democrazie hanno bisogno della cultura umanistica [Não por lucro. Por que as democracias precisam da cultura humanista] (Ed. Il Mulino, 2014) –, “a capacidade de pensar criticamente, a capacidade de transcender os localismos e de enfrentar os problemas mundiais como ‘cidadãos do mundo’; e, por fim, a capacidade de representar simpaticamente a categoria do outro”.

O cultivo desse ethos cultural, que se apoia em um sólido sistema humanista, exige acima de tudo a produção de regras compartilhadas, voltadas a proteger os direitos e a combater as desigualdades. A previsão, formulada por diversos sociólogos e economistas, de que, por causa da natureza drástica das mudanças, se possa incorrer no perigo, particularmente no período da transição mais imediata, de uma consistente redução dos salários pela concorrência com as máquinas impõe a adoção de uma robusta ação política voltada a restabelecer os equilíbrios, através de intervenções destinadas tanto a atribuir rotas de crescimento global para o sistema econômico, quanto a garantir, através da oferta de serviços adequados – pense-se na reforma do Estado social –, a satisfação das necessidades básicas das categorias menos privilegiadas.

A esse respeito, dois setores merecem uma atenção particular. O primeiro é o do mundo do trabalho, em que se torna necessária a definição de um novo contrato social, que preveja, por um lado, a redução das horas de trabalho – o slogan “trabalhar menos para que todos trabalhem” adquire uma indubitável atualidade – com o incremento, além disso, do tempo livre, que favorece o desenvolvimento de outras atividades de crescimento pessoal e de socialização; e que solicite, por outro lado, a formação permanente dos trabalhadores em vista de uma constante requalificação profissional, indispensável se se quiser enfrentar a grande mobilidade atual e criar as condições para a reinserção no ciclo produtivo.

O segundo setor é o militar, em que – como foi lembrado – a presença de armas completamente autônomas exige que sejam adotadas severas normas internacionais, voltadas a evitar seu desenvolvimento e sua proliferação, e a permitir a possibilidade do controle e da tempestividade das intervenções.

As perspectivas que a introdução da inteligência artificial abre, portanto, provocam radicalmente a reflexão antropológica e moral. A atenção aos impactos abrangentes dela sobre todos os âmbitos da vida privada e pública solicita um compromisso de amplo alcance, que exige a abertura de um debate o mais vasto possível com o envolvimento de toda a cidadania.

E estimula a assunção de responsabilidades políticas específicas, para tornar os novos sistemas introduzidos pela evolução tecnológica mais confiáveis e mais controláveis.

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