Bento XVI é criticado por novo ensaio sobre relações judaico-cristãs

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03 Agosto 2018

'É altamente problemático para o Papa emérito insistir que os cristãos continuem a empurrar a sua interpretação das escrituras hebraicas sobre os próprios judeus'.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada por La Croix International, 31-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Vários rabinos de língua alemã e teólogos cristãos criticaram agudamente Bento XVI pelo seu ensaio recém-publicado sobre o diálogo judaico-católico, que aparece na edição atual da revista teológica internacional Communio.

Um rabino chegou a dizer que o artigo estimula "um novo antissemitismo", enquanto outro disse que "o mais problemático" é que o antigo Papa insista que os cristãos instruam os judeus sobre como o Antigo Testamento deve ser interpretado do ponto de vista cristológico.

O novo texto do Bento XVI, “Grace and Vocation Without Remorse” (Graça e Vocação Sem Remorso, em português) saiu na edição alemã da Communio, uma revista teológica de referência que Joseph Ratzinger co-fundou em 1972 com Hans Urs von Balthasar e Henri de Lubac.

O artigo de 18 páginas é datado de 26 de outubro de 2017 e está assinado "Joseph Ratzinger-Benedikt XVI". Ele foi originalmente escrito como uma reflexão sobre o 50º aniversário da Nostra Aetate, declaração de 1965 do Concílio Vaticano II sobre as relações da Igreja com as religiões não cristãs.

A intenção era servir como um documento interno para a Comissão para as Relações Religiosas com os Judeus do Vaticano, que está sob o domínio do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos.

Cardeal Kurt Koch, Presidente do Pontifício Conselho desde 2010, convenceu Bento a publicar o artigo na Communio. O cardeal suíço de 68 anos fornece uma introdução de uma página para as reflexões do Papa emérito.

"Depois de lê-lo com muito cuidado... Cheguei à conclusão de que as reflexões teológicas que continha deveriam ser introduzidas no futuro do diálogo entre a Igreja e Israel", escreveu Koch.

Mas vários dos principais acadêmicos de língua alemã sobre as relações judaico-católicas reagiram negativamente à publicação do artigo.

O primeiro foi o padre Christian Rutishauser, Superior Provincial da Companhia de Jesus na Suíça e acadêmico de estudos judaicos. O jesuíta de 52 anos de idade disse que o artigo recentemente publicado de Bento XVI "quase não chega a ser uma contribuição ao diálogo com os judeus."

Em uma crítica de sete páginas do artigo publicada no dia 08 de julho pelo Neue Zürcher Zeitung (NZZ), ele concluiu que era muito problemático para o Papa emérito insistir que os cristãos continuem empurrando sua interpretação das escrituras hebraicas sobre os próprios judeus.

No entanto, Rutishauser disse que o texto é útil em explicar por que Bento XVI reformulou a Oração da Sexta-Feira Santa para o Rito Tridentino, liturgia pré-Vaticano II que ele havia retirado quase todas as restrições dois anos antes.

Michael Böhnke, professor de teologia sistemática na Universidade de Wuppertal, foi mais crítico.

"Podemos ser gratos ao Cardeal Koch por publicar o texto de Bento XVI, afinal ele dissipa certas lendas de uma só vez", disse o teólogo católico de 62 anos de idade.

"Primeiro, o texto dissipa a lenda do silencioso 'Papa emérito’", escreve ele no Münster Forum for Theology and Church.

"Teologicamente, Bento XVI, preocupado com seu legado, obviamente ainda puxa as cordinhas por trás dos muros do Vaticano. O fato de que o texto não foi originalmente destinado à publicação mostra que o conteúdo, na verdade, não era para ser trazido à atenção pública”, disse o Professor Böhnke.

"Em segundo lugar, a publicação dissipa a lenda e que a revisão da Oração da Sexta-Feira Santa... não foi um erro que não era para acontecer, e a reabilitação do notório negador do Holocausto (antigo Lefebvrista, Bispo Richard) Williamson não foi apenas um contratempo diplomático baseado na ignorância. O texto involuntariamente fornece as razões para ambos", disse o teólogo.

Böhnke, argumentando que o texto revela a edição definitiva de um programa de teologia revisionista, disse: "Depois de Auschwitz, não esperava que tivesse que ler algo assim de um teólogo alemão."

O texto, claro, também foi fortemente criticado por vários proeminentes rabinos. Rabino Walter Homolka, reitor do Potsdam’s Abraham Geiger College, acusou Bento de incentivar "um novo antissemitismo com uma base cristã" em entrevista ao semanário alemão Die Zeit.

E o Rabino-Chefe de Viena, Arie Folger, disse ao Jüdische Allgemeine, o maior diário judaico na Alemanha, que as sugestões de Bento XVI de que os cristãos devem ensinar aos judeus sobre como as passagens relevantes da Bíblia hebraica devem ser entendidas a partir da perspectiva cristológica era "o mais problemático".

Recordando que os católicos tinham tentado por muitos séculos converter à força os judeus, ele disse: "Como muito sangue foi derramado em resultado da animosidade cristã contra os judeus, deve ser claro para Bento que não pode haver nenhuma abordagem positiva para o proselitismo de judeus."

Mas Jan-Heiner Tück, editor da edição alemã de Communio, disse que o texto do Bento XVI era "notável" por várias razões.

Em uma entrevista ao Kathpress, o teólogo de 51 anos de idade disse que o artigo mostrou que o Papa Francisco "agora tem uma 'segunda voz', por assim dizer, ao seu lado; especialmente desde que (o Papa atual) tem falado sobre as relações judaico-cristãs na Evangelii gaudium e em outras ocasiões."

Tück disse que o artigo de Bento XVI também fornece "alimento para o pensamento". Ele disse que enquanto o texto não tem a pretensão de ser "doutrinariamente autoritário", deve ser abordado com "benevolência... mas certamente sem deixar devidas críticas serem varridas para debaixo da mesa."

O antigo Papa está preocupado principalmente com duas questões: a rejeição atual da chamada “teoria de substituição” e a expressão da "aliança nunca desfeita", cunhada por seu antecessor, São João Paulo II em 1980.

"Ambas as teses, a de que a Igreja não substitui Israel e a de que a Aliança nunca foi desfeita, estão basicamente corretas, mas em muitos aspectos imprecisas e, portanto, exigem mais pensamento", disse.

Ele também reflete sobre as diferenças entre judeus e cristãos sobre como compreendem o Messias e a fundação de Israel como um Estado. A fundação de Israel foi uma consequência da Shoah e um evento puramente político, disse ele, acrescentando que não tem nenhum significado teológico e não faz parte da história da redenção.

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