Síria. Isso é o que precisam cristãos e muçulmanos no Oriente Médio. Entrevista com Padre Murad, monge de Deir Mar Musa

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10 Julho 2018

O monge de Deir Mar Musa Comunidade convida os líderes das Igrejas Orientais a não desistir da missão de "proteger a espera de Jesus presente nos muçulmanos". E revela, nas prisões sírias estão detidos injustamente inclusive muitos cristãos.

A entrevista é de Gianni Valente, publicada por Vatican Insider, 06-07-2018. A tradução é de e Luisa Rabolini.

"Espero que o encontro de Bari, seja para os participantes também uma espécie de retiro espiritual. A ocasião para um exame de consciência pessoal e eclesial". Padre Jacques Murad, monge sírio de comunidade de Deir Mar Musa confidencia ao Vatican Insider as expectativas e as considerações - compartilhadas com os irmãos e irmãs de sua comunidade – em relação à jornada de oração e reflexão sobre a situação no Oriente Médio, convocada para o dia 7 de julho pelo Papa Francisco. Aquele encontro - padre Jacques tem certeza - não poderá ser uma simples passarela de boas intenções. Porque as questões e os problemas que afligem o presente e o futuro das comunidades cristãs espalhadas no Oriente Médio chamam em causa o próprio coração da missão da Igreja e de seu estar no mundo.

O sacerdote e religioso sírio-católico, em maio de 2015, foi retirado do santuário de Mar Elian por militantes dos jihadistas do Estado Islâmico (Daesh). Foi mantido incomunicável por meses, sendo depois trazido de volta para a cidade de Quaryatayn, depois de tê-la conquistado, junto com outras centenas de cristãos que como ele haviam assinado com o Estado islâmico o "Acordo de proteção." Mesmo aquela experiência confirmou nele a intuição de que a missão própria dos cristãos do Oriente não pode excluir seu relacionamento e sua comunhão de destino com a multidão de concidadãos de fé muçulmana. E que, após os conflitos e a violência, os caminhos da verdadeira reconciliação podem recomeçar apenas no perdão, recíproco, sem recriminações ou um genérico "fechamento" entre os cristãos.

Eis a entrevista. 

O que se deve fazer? De onde se pode começar?

É conveniente pedir que a presença dos cristãos no Oriente Médio seja evangélica, de acordo com o que o próprio Jesus nos ensinou. E a primeira coisa é implorar o dom de perdoar e de pedir perdão. Pedir perdão a Deus também pelos outros, como fez Jesus, quando pediu ao Pai que perdoasse aqueles que não sabiam o que estavam fazendo. A verdadeira reconciliação só pode começar dali.

Todos os chefes das Igrejas sempre dizem que são a favor do diálogo e da convivência com as diversas comunidades religiosas.

Os líderes das Igrejas no Oriente Médio, nesta situação, podem ousar gestos mais arrojados. Como João Paulo II fez, quando pediu perdão aos judeus. Ou, como Paulo VI e o Patriarca Ecumênico Atenágoras, quando condenaram ao esquecimento as recíprocas condenações do passado entre católicos e ortodoxos.

Os eventos dos últimos anos e a situação atual, como questionam a fé dos cristãos no Oriente Médio?

Esta situação histórica chama em causa a própria missão das Igrejas do Oriente, o seu viver com humildade e pobreza entre os muçulmanos. Se não houver isso, mesmo na Síria e no Iraque tudo pode acabar dentro de cinquenta anos. Ou talvez tudo acabe como na Turquia, onde há pequenas presenças cristãs restritas a guetos.

Esse é o resultado inelutável? Ao que se deve? Às perseguições?

Tudo se torna difícil para os cristãos e também para os muçulmanos, se os cristãos não trouxerem a esperança de Cristo com eles, se não forem testemunhas de esperança. A Igreja não anuncia a si mesma. A Igreja anuncia Jesus, como a estrela-guia que orientava os Reis do Oriente para Jesus. Quando não vive na esperança de Jesus, quando não caminha entre os povos como a estrela-guia que anunciava Jesus, então a Igreja sempre acaba por perseguir a si mesma. E essa é a única perseguição que pode realmente extinguir a fé.

Tudo isso diz respeito também aos muçulmanos?

A Igreja é chamada para mostrar que Cristo está vivo, mesmo quando está no mundo muçulmano. Eles também, os muçulmanos, desejam encontrar Jesus, que para eles é o profeta cujo retorno é aguardado. Devemos respeitar, devemos abraçar essa espera dos muçulmanos. E ajudá-los a encontrar Jesus.

E a missão da Igreja entre os muçulmanos?

A missão da Igreja no Oriente é também esta: cuidar da espera de Jesus presente nos muçulmanos. Sem essa missão, a presença dos cristãos no Oriente Médio pode não ter sentido. Ou somos missionários, ou temos uma missão própria nesta parte do mundo, assim como é agora, ou é melhor esquecer tudo, é melhor que todos nós voltemos para a Europa ou para outro lugar.

A situação na Síria e em outras partes do Oriente Médio continua incerta e suspensa, também do ponto de vista político e geopolítico.

Seria importante que o Papa Francisco relembre aos bispos e patriarcas da Síria que chegou a hora de voltar a olhar também para as situações e questões políticas seguindo o Evangelho, isto é, com um olhar condizente com o Evangelho. O Papa, com sua sensibilidade humana e cristã, poderia sugerir o que é realmente necessário para reconstruir o país. Acredito que poderia aproveitar esta oportunidade para mostrar o caminho para a colaboração com países e povos muçulmanos da região. E as Igrejas do Oriente poderiam oferecer uma preciosa contribuição fundamental para a reconciliação entre os diferentes grupos étnicos e comunidades religiosas. As Igrejas, e especialmente as Igrejas Orientais, têm uma grande responsabilidade como pontes de paz na sociedade síria.

Esta abordagem evangélica em que escolhas práticas poderia ser expressa?

Existem muitas famílias sírias que continuam sofrendo porque muitos de seus parentes são mantidos em prisões do estado. Na prisão também há muitos cristãos injustamente detidos. O papa também deveria saber disso. E com a colaboração dos bispos de todas as Igrejas locais e do Vaticano, talvez se poderia tentar fazer alguma coisa. Oferecer uma ajuda para libertar os prisioneiros, como ato humanitário extraordinário. Mesmo aqueles são seus filhos.

E em um nível pastoral?

Nas paróquias é necessário manter aberta a porta do perdão e também compartilhar um olhar amistoso para o Islã. Ainda há bispos que eventualmente participem das reuniões com os líderes islâmicos para agradar o estado, mas, em privado, expressam desprezo pelo Islã.

Você tem alguma sugestão específica?

Todas as Igrejas do Oriente poderiam criar escritórios e instrumentos para acompanhar e estimular a relação com os muçulmanos, começando ou fortalecendo contatos de vizinhança com os imãs e as mesquitas que estão localizadas nos mesmos bairros. Poderiam também ser criados entre os paroquianos cursos de formação para aumentar a compreensão e o diálogo com os muçulmanos. Sobre isso também poderia ser falado nos cursos de catequese dirigidos a jovens e crianças.

E que ajuda especial é mais urgente para as próprias comunidades cristãs?

Poderíamos tentar novos caminhos para ajudar diretamente as famílias cristãs, para não vê-las emigrar para outros países apenas porque não há segurança suficiente, ou porque sentem que não conseguem lidar com serenidade com as doenças e a chegada da velhice. Após os conflitos, muitos deles não conseguem encontrar trabalho. E também a segurança de saúde se tornou um problema cada vez mais presente. Também poderiam ser apoiadas ao nível eclesial formas de seguro de saúde para os doentes que não dispõem de recursos econômicos suficientes para cuidar de si mesmos. As coisas não estão indo bem, apesar do grande trabalho das Igrejas e das organizações locais. Muitas pessoas estão angustiadas e cheias de raiva.

O Papa Francisco tem uma atenção especial com os refugiados e migrantes que são obrigados a fugir das guerras. E no Oriente Médio, são milhões.

O Papa, os patriarcas e as Igrejas locais deveriam convidar e ajudar a todos a não esquecer os milhões de refugiados que se encontram em campos de refugiados no Líbano, na Jordânia, no deserto da Síria, na Turquia e no Iraque, muitas vezes em condições de miséria insuportável. Se essa situação insustentável não for enfrentada agora, acontecerá o mesmo que aconteceu com os palestinos que, depois de setenta anos, ainda estão nos campos de refugiados, depois de terem sido expulsos de suas terras. Mesmo que só por senso de justiça humana, é importante que esse nó delicado e crucial não seja deixado de fora do horizonte da reunião em Bari. E também existem muitos cristãos sírios que fugiram para o Líbano e estão na miséria ... Rezemos para que a Igreja maronita os socorra.

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