Desafios para a esquerda brasileira, sem indulgências coniventes

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Por: Jonas Jorge da Silva | 12 Junho 2018

Os retrocessos vividos no país são visíveis, ninguém pode desconsiderá-los. Desde que Michel Temer assumiu a presidência, entrando pelas portas do fundo, o que se assiste é um total desmonte das políticas que, em parte, favoreciam a base da pirâmide social brasileira. Movimentos sociais e populares resistem aos ataques e buscam retomar as lutas sociais. No fogaréu que se acende, com a combustão da política partidária, ocorrem muitos alaridos, mas pouca reflexão. Um segmento da esquerda insiste em renunciar passar a limpo os fatos ocorridos no país para se apequenar nos discursos fáceis das sentenças acusatórias, que só enxerga o problema no outro, mas se exime de uma autocrítica e de novos rumos. No atual momento, debater a esquerda é primordial, já que a solução para o buraco onde entramos não se resolve com um passe de mágica.

É nesse sentido que, no dia 09 de junho, o CEPAT promoveu o debate Desafios para a construção de um projeto de esquerda, pelo ciclo de debates Cenários para o Brasil Contemporâneo. A atividade conta com a parceria do Núcleo de Direitos Humanos da PUCPR, Cáritas - Regional Paraná, Comunidades de Vida Cristã (CVX) - Regional Sul e Instituto Humanitas Unisinos IHU.

Cesar Sanson (UFRN), convidado para este momento, apontou que os rumos da atual crise ainda é um debate em aberto, que é necessário ouvir todas as vozes, mas que não se pode ser indulgente com um determinado segmento da esquerda. Em parte, determinadas práticas da ‘esquerda’, aqui posicionadas como a experiência de poder do Partido dos Trabalhadores (PT), também são responsáveis pelo que está acontecendo.

Ao se fazer um balanço da recente trajetória da esquerda no mundo, percebe-se que a mesma perdeu o seu rumo pós-queda do Muro de Berlim. O horizonte socialista foi se esfacelando diante da devastadora força da economia de mercado. O modelo socioeconômico hegemônico capitalista tem imposto severos limites à possibilidade de se fazer rupturas significativas em favor das maiorias pobres e, na Europa, o modelo de Estado de Bem-Estar social, tão almejado pelas forças progressistas de diferentes países do mundo, apresenta sinais de esgotamento.  

Momento de debate (Foto: Ana Paula Abranoski)

Nesse cenário, há sinais visíveis de um processo de capitulação de ‘determinada esquerda’ aos ditames do neoliberalismo. Ironicamente, em vários casos, forças políticas tidas como mais abertas e progressistas (Tony Blair, no Reino Unido; Bill Clinton, nos Estados Unidos; François Miterrand, na França, etc.) fizeram a lição de casa, ambicionada pelo Mercado, com muito mais maestria que a própria direita tradicional. E muitos atores políticos que venceram as eleições pelo mundo com um discurso de esquerda ou mais à esquerda acabaram entrando no ritmo do pensamento único neoliberal.

Trata-se de uma traição a duas condições que definem um projeto político de esquerda: seu compromisso inegociável de combate à desigualdade e o seu compromisso em estabelecer rupturas que conduzam a significativas mudanças na sociedade. Se a esquerda abre mão dessas duas condições, trai o próprio sentido de sua existência.

É nesse cenário que Cesar Sanson, refletindo acerca da realidade brasileira, lançou um questionamento aos participantes: “Lula: grande transformador social ou grande articulador do capitalismo brasileiro?”. Na opinião de Sanson, se por um lado Collor foi quem abriu as portas para a entrada do neoliberalismo, acompanhado depois por Fernando Henrique Cardoso, por outro, Lula foi quem o habilitou como política de Estado. Mesmo que se reconheça conquistas sociais durante os anos de governo Lula, é inegável que não se mexeu com os interesses do Capital.

Em seguida, Sanson apresentou um panorama crítico, com algumas ideias-chave de importantes cientistas políticos e sociólogos, a respeito do que foi o período do lulismo no poder:

a) Luiz Werneck Vianna:

- “O PT veio ao mundo com uma missão, a de transformar, mas aos poucos foi capitulando”;
- “O PT se tornou o grande operador do modo do capitalismo brasileiro”;
- “O modelo conduzido por Lula não significou uma ruptura com os setores grão-burgueses nacionais e transnacionais”.

b) Vladimir Safatle:

- “Para qualquer partido de esquerda o problema central vai ser sempre a desigualdade social, econômica e de direitos;
- “Qual deveria ter sido a função de um novo momento [o PT no poder] do ponto de vista econômico e social no Brasil? Era fazer um investimento maciço na construção de grandes sistemas de serviço público”.

c) Ivo Lesbaupin:

- “Não foi feita nenhuma reforma estrutural nas estruturas geradoras da desigualdade no país”.

d) Eduardo Viveiros de Castro:

- “O modelo encetado a partir dos anos 2000 ficou refém de uma lógica economicista. A esquerda em geral tem uma incapacidade congênita para pensar todo tipo de gente que não seja o bom operário que vai se transformar em consumidor”.

e) José de Souza Martins:

- “O modelo do PT foi apenas ou sobretudo o de incluir e integrar, não se trata de superar e de transformar, mas de aderir”.

f) Rudá Ricci:

- “O PT se acomodou às clássicas ideologias de esquerda que tanto criticou na sua origem: estatismo, centralismo, personalismo, burocratização. O PT se tornou o PCB do século XXI”.

g) André Singer:

- “O PT arquivou o seu radicalismo em 2002 com a Carta ao Povo Brasileiro. O que estava lá? Um conjunto de garantias ao capital de que o PT não faria um governo de ruptura. Foi uma mudança de fundo. De um partido de confronto para um partido de não confronto com o capital”.

h) Chico de Oliveira:

- “O PT no poder desconstruiu a hegemonia – no sentido gramsciano – que anteriormente conquistou na sociedade;
- “A classe dominante aceitou ceder aos dominados o discurso político, desde que os fundamentos da dominação que exerce não sejam questionados”;
- “O mais dramático e decisivo é que ao incorporar parte das exigências históricas dos ‘de baixo’ em políticas de renda compensatórias e com uma diminuição incontestável da pobreza absoluta, ao mesmo tempo o lulismo cumpre religiosamente com os compromissos da dívida pública e com os interesses dos credores do sistema financeiro”.

Além desses pontos críticos, Sanson também argumentou que aos poucos muitos integrantes do Partido dos Trabalhadores foi abandonando, ou então colocando em plano inferior, a bandeira da ética, tão fundamental na origem dos grupos que o constituíram como força política.

Quanto aos desafios vindouros, diante de tal quadro de deterioração das bases políticas e de legitimidade social do PT e o lulismo, a esquerda atual se vê pressionada a repensar seu modus operandi, recuperando o apoio das forças vivas da sociedade.

Nesse sentido, a esquerda precisa estar atenta ao protagonismo dos novos movimentos sociais e da multidão das grandes metrópoles, a exemplo do que foi Junho de 2013, que não contou com a liderança das vanguardas tradicionais da esquerda e que ainda hoje segue sendo debatido. Também é preciso cada vez mais incorporar à luta contra a desigualdade as forças que estão em luta pelo reconhecimento, nas lutas identitárias. Também é primordial não abandonar a perspectiva de que o mundo vive uma crise civilizacional e que, dentre suas facetas, a crise socioambiental pulula como uma emergência imperante.

Por fim, Cesar Sanson apresentou alguns temas que a esquerda de hoje precisa debater, problematizar e pensar em termos de alternativas: a desigualdade, como já mencionado, a financeirização, o trabalho, a luta por reconhecimento, o meio ambiente (matrizes energéticas), a luta indígena, o especismo, já que a luta pelo direito dos animais ganha cada vez mais força, o atual modelo de democracia representativa e a ética na política.

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