Resistir à violência da moralina e retomar o sentido da ética

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09 Junho 2018

“O caminho da religação com o outro, com a comunidade, com a sociedade e com a espécie humana, vital para este século XXI, torna imprescindível fazer a reflexão ética superar o jogo de palavras reducionista e maniqueísta. O verdadeiro sentido da ética se encontra nos processos de regeneração da vida, na resistência à barbárie pela solidariedade e a fraternidade”, escreve Jonas Jorge da Silva, cientista social, coordenador do Centro de Promoção de Agentes de Transformação - CEPAT.

Eis o artigo.  

“Nossa civilização separa mais do que liga. Estamos em déficit de religação e esta se tornou uma necessidade vital”, adverte-nos o pensador francês Edgar Morin, em O Método 6 – Ética, do qual faremos diversas citações nesse texto. De fato, em um mundo dilacerado pelo rompimento dos laços de solidariedade e ameaçado pela iminente possibilidade de destruição da própria espécie humana, a religação se tornou um imperativo ético primordial.

Tendo presente a importância da ética em letras maiúsculas para repensarmos o devir humano nesta etapa da história foi que na última noite de quinta-feira, 07 de junho, o CEPAT encerrou o ciclo de debates Da violência à paz: pedagogia da superação, com o tema A centralidade da ética em prol de uma nova sociedade. A atividade foi promovida em parceria com os Missionários Combonianos, Paróquia Santa Amélia, Cáritas - Regional Paraná e teve o apoio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

A marcha da crise estrutural que se está vivendo atravessa os modos de ser, de conviver, de produzir, de consumir e assim por diante, desafiando todos a repensar os paradigmas que nortearam a modernidade, que mais separou, compartimentou e fragmentou, que relacionou, incluiu e integrou.

Um primeiro passo nesse caminho é o reconhecimento de que como humanidade participamos de uma aventura desconhecida. O ser humano não é o senhor da terra, muito menos é capaz de, com o esforço próprio, perscrutar todos os mistérios que envolve as mais diversas formas de vida existentes.  Sendo assim, é preciso superar a autossuficiência e prepotência de acreditar que é possível ter controle e o domínio sobre todas as coisas. Aí mora o grande desafio ético de nossa era, que é o de pensar a vida humana em meio à ambiguidade, a contradição e a imprevisibilidade presente em uma realidade complexa.

A natureza da ética é dialógica, não caminha na linearidade, mas em meio às sinuosidades e multiplicidades da vida. Por isso, leva em conta a incerteza nos resultados que almeja, sendo sempre uma aposta. Sendo assim, com o conceito de ecologia da ação, Edgar Morin desmascara uma ética que se concentra apenas nas intenções a priori, que não assume a imprevisibilidade dos resultados e consequências das ações humanas. Para o pensador francês, “a ecologia da ação indica-nos que toda ação escapa, cada vez mais, à vontade do seu autor na medida em que entra no jogo das inter-retro-ações do meio que intervém. Assim, a ação corre o risco não somente de fracassar, mas também de sofrer desvio ou distorção de sentido”.

Estar vigilantes, esforçar-se para “pensar bem”, discernir e ser até mais exigente conosco mesmo do que com aqueles que nos interpelam pode instaurar um ciclo virtuoso que humaniza, em vez de alimentar a nossa barbárie interior. Contudo, é preciso reconhecer que sem reflexão, sem autoconhecimento e sem autocrítica dificilmente é possível se desapegar da ilusão ética, que insiste em se apresentar como a senhora da verdade, em uma atmosfera dominada pela autocegueira.

Uma vida sem reflexão, sem questionamentos e sem estranhamento daquilo que se tem como pressupostos facilmente cede à tentação da moralina, apontada por Morin como um processo de “simplificação e rigidificação éticas que conduzem ao maniqueísmo e que ignoram compreensão, magnanimidade e perdão”. Tanto a moralina de indignação, que “sem reflexão nem racionalidade conduz à desqualificação do outro”, como a moralina de redução, que reduz o outro apenas “aos seus maus atos realizados e às suas ideias nocivas”, produzem um ambiente fecundo para a propagação do pânico moral, disseminando os piores sentimentos irracionais possíveis.

Além disso, a simplificação e rigidificação éticas são responsáveis pela consolidação de um pensamento binário (bem versus mal), erguendo muros ao invés de pontes e transformando diferenças de pensamento e de práticas sociais em inimizades inapeláveis. Esse mecanismo torna a violência direta contra as vítimas (indivíduo, grupo, classe, etnia, raça) o resultado final de um processo construído e legitimado coletivamente.

Para não cair nessa armadilha, Edgar Morin aponta que “‘trabalhar pelo pensar bem’ permite tomar consciência das degradações éticas produzidas pelas histerias coletivas, especialmente em casos de crise e sobretudo de guerra, quando o maniqueísmo, a diabolização do inimigo e a indignação permanente produzem avalanchas de moralina”.

O pensador francês também alerta que “quando as palavras ‘magnanimidade’, ‘misericórdia’ e ‘perdão’ são esquecidas, ignoradas e reclama-se um castigo que é vingança e aplicação da lei de talião, progride a nossa barbárie interior”.  

Portanto, para resistir à barbárie e superar as violências físicas e simbólicas três palavras-chave são fundamentais: compreensão, magnanimidade e perdão. Embora enormemente desprezados, tais valores são fundamentais para despertar o que há de melhor na humanidade.

O caminho da religação com o outro, com a comunidade, com a sociedade e com a espécie humana, vital para este século XXI, torna imprescindível fazer a reflexão ética superar o jogo de palavras reducionista e maniqueísta. O verdadeiro sentido da ética se encontra nos processos de regeneração da vida, na resistência à barbárie pela solidariedade e a fraternidade.

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