Padres próximos do povo e com o Evangelho dentro. Artigo de Giannino Piana

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01 Junho 2018

“O que está desaparecendo é sobretudo o grande apreço de que o padre desfrutava no passado; apreço que fazia dele um sujeito privilegiado, uma figura de autoridade – uma das máximas autoridades da cidade – à qual as pessoas se dirigiam para receber conselhos e direcionamentos para as escolhas mais delicadas e mais difíceis.”

A análise é do teólogo italiano Giannino Piana, ex-professor das universidades de Urbino e de Turim, e ex-presidente da Associação Italiana dos Teólogos Moralistas. O artigo foi publicado em Rocca, n. 11, 01-06-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A figura do padre (ou do presbítero, de acordo com a expressão original retomada pelo Vaticano II) progressivamente se descoloriu (pelo menos para nós) durante as últimas décadas. À centralidade atribuída a ela por importantes filões da cultura literária e sociológica do imediato (último) período pós-guerra – basta pensar em autores como Bernanos e Graham Greene ou na atenção reservada à epopeia dos padres operários – corresponde hoje um silêncio geral revelador de uma evidente queda de interesse.

As razões desse desaparecimento do padre do cenário público se devem a vários fatores, relacionados com o processo de secularização que gradualmente se desenvolveu na nossa sociedade, até assumir as conotações de secularismo. Se Deus não é mais um problema, se ele se tornou – como não é difícil de constatar – cada vez mais irrelevante, com mais razão essa irrelevância só pode envolver a figura de quem se professa como seu ministro e portador privilegiado de sua mensagem. O presbítero, assim, é uma figura anacrônica, uma espécie de achado arqueológico, que não parece poder ter (se algo não mudar) qualquer possibilidade de ser recuperado.

Perda de papel social e solidão

O papel social do qual ele era investido no passado, pelos motivos lembrados, desapareceu radicalmente. O padre parece ser para a maioria uma pessoa alheia aos problemas das pessoas; um homem que vive apartado dentro do espaço de seu próprio mundo, sem qualquer contato e qualquer comunicação de verdade com as situações existenciais das pessoas que vivem no ambiente em que ele está inserido.

Sua atividade ministerial se dirige a um número cada vez mais reduzido de fiéis: os batismos estão em constante diminuição, as missas festivas são cada vez menos frequentadas, e os casamentos religiosos representam um percentual cada vez mais limitado em comparação com o consistente e progressivo aumento dos civis.

Mas o que está desaparecendo é sobretudo o grande apreço de que o padre desfrutava no passado; apreço que fazia dele um sujeito privilegiado, uma figura de autoridade – uma das máximas autoridades da cidade – à qual as pessoas se dirigiam para receber conselhos e direcionamentos para as escolhas mais delicadas e mais difíceis. Hoje, a possibilidade de continuar “tendo importância” não está mais ligada ao papel que se tem, mas deve ser conquistada, aproveitando as próprias capacidades pessoais ou o próprio carisma, mas, acima de tudo, a própria seriedade moral e o próprio profissionalismo reconhecido.

Tudo isso se traduz, em muitos casos, em um sentimento de profunda frustração, devido à experiência de solidão, que põe em risco (e não pode deixar de por) a própria escolha de vida. O celibato, às vezes sofrido como condição para o acesso ao presbiterado (e não como expressão de um carisma pessoal), torna mais aguda a percepção do desconforto, induzindo, em alguns casos, a acomodações que geram duplicidade e instabilidade; em outros, empurram à busca de substitutivos, que encontram desafogo na adesão a novas modalidades de poder ou na adesão a formas sacrorrituais – pense-se na ênfase dada a certas liturgias – ou provocam, enfim, o retorno a hábitos do passado – o uso da batina é um exemplo eloquente –, fruto da vontade de não se contaminar com o mundo externo considerado como fonte de perigo.

A fragilidade psicológica, própria da condição juvenil em uma sociedade complexa como a atual, também está presente em quem se candidata ao presbiterado, tornando particularmente difícil a possibilidade de viver uma escolha que impõe certas limitações e sacrifícios e incorrendo nas situações de ambivalência recordadas.

A serviço da comunidade

O cenário que serve de pano de fundo para a vida presbiteral, portanto, não é dos mais cômodos e mais tranquilos. As mudanças em curso, que têm um porte epocal, obrigam a profundas revisões. Nem tudo o que aconteceu (e o que acontece), no entanto, deve ser considerado como exclusivamente negativo. A passagem de uma Igreja de massa, característica do regime de cristandade, a uma Igreja que tem cada vez mais as características de pusillus grex (pequeno rebanho), se, por um lado, remove garantias institucionais no passado muito sólidas, favorece, por outro, a possibilidade de um retorno às origens, isto é, da recuperação da autenticidade evangélica.

Além disso, existem indicações preciosas nesse sentido na eclesiologia do Vaticano II. A concepção da Igreja como “povo de Deus”, não mais como instituição piramidal com a hierarquia na cúpula, mas como comunidade dos fiéis que têm igual dignidade em virtude do batismo que os torna partícipes do sacerdócio profético e real de Cristo, obriga a uma profunda revisão da função do presbiterado e das modalidades do seu exercício. O padre (e antes ainda o papa e os bispos) não pode mais ser pensado como um sujeito fora ou acima da comunidade dos fiéis, mas como partícipe de tal comunidade e a serviço dela.

O que define, portanto, a essência do presbiterado é a categoria de “ministerialidade”, de “serviço”, isto é, a edificação da comunhão. O presbítero não existe, então, sem a comunidade à qual é chamado a exercer – nisto está a sua vocação, que não é estritamente pessoal, mas eclesial – a própria tarefa, que é, em primeiro lugar, a de dar vida à comunhão recordada em torno da mesa eucarística. É a partir dessa ótica celebrativa, de fato, que as outras funções também devem ser consideradas, em particular a da evangelização e a da implementação da unidade pastoral (funções, aliás, não exclusivas do presbítero).

Mas precisamente essa exigência de inserção plena na vida da comunidade envolve o cumprimento de alguns requisitos, três dos quais merecem ser aqui referidos.

O primeiro deles põe em causa a escolha da pessoa, que deveria ocorrer dentro da comunidade e por parte dela. O fato de ser catapultado a partir de fora – como ocorre normalmente hoje – dificulta a inserção: o padre é muitas vezes percebido como um “corpo estranho” imposto de fora e de cima, e que, por esse motivo, custa a ser percebido como parte viva da comunidade.

O segundo requisito é que o critério com base no qual a escolha deve ser feita deve ser o da capacidade de criar comunidade, ou seja, de tecer e consolidar relações recíprocas, superando as resistências negativas e desenvolvendo formas de solidariedade e de fraternidade que favoreçam a participação e a cooperação.

Por fim, o terceiro requisito é a necessidade de se ater ao essencial, restituindo aos leigos o exercício de muitas tarefas e favorecendo, desse modo, o desenvolvimento da corresponsabilidade entre todos os membros do povo de Deus.

Quem são os padres hoje?

Os presbíteros de hoje estão alinhados com a visão do ministério presbiteral fornecida pelo Concílio? O processo formativo corresponde adequadamente ao exercício das tarefas às quais eles são destinados? E, enfim, que proposta pastoral lhes é proposta pelas instituições – em primeiro lugar as dioceses – às quais eles se referem?

A resposta a essas perguntas não é fácil. A primeira dificuldade está ligada ao perfil daqueles que acessam o presbiterado. A redução cada vez maior (pelo menos entre nós) do número de candidatos a tal ministério é acompanhada por uma mudança bastante radical da figura daqueles que entram no seminário. O desaparecimento, em quase toda a parte, do seminário menor resultou (e resulta) em uma mutação da tipologia dos seminaristas, que são em grande parte jovens em adolescência avançada, graduados ou pós-graduados, que vêm de experiências eclesiais anteriores feitas em movimentos e/ou associações e que, por isso, já completaram um itinerário formativo e espiritual.

Deve-se acrescentar a isso – e não é algo de pouca importância – que, nas últimas décadas, ao número cada vez mais exíguo de seminaristas italianos, somou-se (e continuam se somando com um ritmo em constante crescimento) um número considerável de seminaristas estrangeiros, provenientes de todos os continentes – em particular da África, da América Latina e dos países do Leste Europeu – e, portanto, de culturas muito diferentes entre si, com visões diferentes também da missão da Igreja e do exercício do ministério presbiteral.

Apesar da renovação dos seminários ocorrido no pós-Concílio, tanto no campo da formação espiritual quanto no da preparação cultural – um pouco por toda a parte, uma maior atenção aos valores humanos e a uma adesão mais viva ao ideal evangélico, além de uma verdadeira abertura ao diálogo com o mundo ganharam espaço – as dificuldades lembradas continuam persistindo. De fato, tal renovação nem sempre é assimilada por parte daqueles que se preparam ao presbiterado.

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