“Os jovens de hoje são mais pessimistas que os de Maio de 68”, considera o sociólogo Michel Wieviorka

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16 Maio 2018

“Proibido proibir”, cantavam em Paris os jovens durante a massiva marcha do dia 13 de maio de 1968. Há 50 anos, um dia como hoje, mais de um milhão de pessoas participaram da greve geral convocada pelos principais sindicatos da França.

No marco de uma recente visita ao Chile, convidado pela Escola de Sociologia da Universidade Diego Portales, La Tercera conversou com o sociólogo francês Michel Wieviorka (Paris, 1946), que viveu pessoalmente o Maio de 68. Agora, Wieviorka é codiretor do Collège d’Études Mondiales de Paris. Discípulo do sociólogo Alain Touraine, centrou-se nas noções de conflito, terrorismo e violência, assim como no estudo sobre racismo, movimentos sociais e pluriculturalidade. Nesta entrevista, analisa sua experiência durante as revoltas desse histórico ano, o que resta desse movimento atualmente e os jovens de hoje em dia.

A entrevista é de Paula Serra Bachs, publicada por La Tercera, 13-05-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Onde você estava durante o Maio de 68?

Estudando em Paris. Participei de todas as manifestações, ou quase todas, mas sem entender muito o que estava acontecendo. Eu era muito jovem, tinha 21 anos e naquele momento o movimento não era muito claro. Era um movimento de festa, de emancipação, antiautoritário, cultural. Mas, no sentido mais político, não tinha muito claro do que se tratava tudo isso.

Quanto do que foi conquistado em Maio de 68 prevalece hoje em dia?

É muito difícil falar nestes termos, ainda há muita paixão e ilusão quando se recorda esse movimento. Há pessoas que dizem, de maneira negativa, que Maio de 68 acabou com a autoridade na França e que abriu a porta ao neoliberalismo, sobretudo por essa ideia de “proibido proibir”. No meu ponto de vista, graças a esse movimento a França saiu do mundo velho, marcado por muitos arcaísmos intelectuais e o declive do Partido Comunista. Mudamos o tipo de sociedade e sua relação com o Estado. Por isso, acredito que não ficaram coisas precisas, mas, sim, novas maneiras de pensar a relação da sociedade com o Estado.

Como era essa “sociedade nova”?

O movimento de 68 não queria tomar o poder do Estado e rompeu com essa lógica. Daí apareceram novas maneiras de falar e de comunicar, de forma mais direta, mais normal. Para mim, estas foram as coisas mais importantes que conseguimos. Foi a entrada em outro tipo de sociedade e nós a estávamos construindo como podíamos.

Este discurso recorda muito as demandas das Primaveras Árabes ou o movimento dos indignados na Espanha, durante o 15-M...

Exatamente. O movimento 15-M é um pouco o filho pequeno de 68, porque tem muito a ver com a sua maneira de pensar a cultura e as relações das pessoas. Assim como ocorreu durante o 15-M, durante o Maio de 1968 nasceu uma nova sociedade e morreu outra. Mas, também foi o momento em que os dois mundos viveram juntos.

Em várias ocasiões, você comentou que estamos entrando em uma “nova era”. O que a caracteriza?

Nesta nova era segue havendo política, mas devemos repensá-la de novo. A sociedade de hoje em dia se caracteriza pela capacidade de pensar muito globalmente, viver localmente e estar muito comunicada. O que hoje ocorre em uma pequena parte do mundo deve ser analisado com lógicas locais, nacionais, supranacionais e planetárias.

Que papel as redes sociais desempenham na construção desta era?

As redes sociais não têm o mesmo nível de comunicação que de ação. Por isso, os movimentos sociais mais importantes atualmente são os que combinam, ao mesmo tempo, redes sociais e capacidade de se conhecer fisicamente. Como o movimento antiarmas dos jovens estadunidenses ou o movimento feminista.

Você acredita que mais do que uma mudança política, hoje em dia há uma mudança de moral?

Claramente. Estamos entrando em um momento histórico onde se está mudando a maneira de entender as relações entre as mulheres e os homens, onde a subjetividade é muito mais importante que antes, onde cada pessoa deve ser capaz de tomar decisões individuais e não unicamente como membro de uma comunidade. Estamos em um mundo culturalmente distinto em razão da comunicação. Toda a minha geração sabe que para saber algo da vida cotidiana é preciso perguntar aos jovens.

E como são estes jovens?

Os jovens de hoje têm tudo mais difícil e são mais pessimistas que os de minha geração.

Quais você acredita que serão os desafios que marcarão a primeira metade do século XXI?

É muito complicado saber, porque tudo está mudando muito rápido. Mas, sobretudo, a nova era será marcada pela multiculturalidade, outros tipos de violência, outra maneira de nos comunicar.

Como se lida com um mundo multicultural, quando há vozes que o rejeitam?

Hoje em dia, há um fluxo migratório muito importante. Mas, eu posso te dizer que o Chile é muito mais aberto às pessoas que os países europeus. Na Europa, a imigração é o tema político central e há medo, rejeição. Se você faz uma comparação com a Europa, este país é muito mais aberto.

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