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19 Abril 2018

Dois novos livros em italiano se juntam à crescente conversa sobre as mulheres no diaconato: um é uma coleção de artigos acadêmicos; o outro, um livro geral e mais acessível.

O comentário é da teóloga estadunidense Phyllis Zagano, pesquisadora da Hofstra University, em Hempstead, Nova York, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 18-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tanto Donne diacono? La posta in gioco (de Christina Simonelli e Moira Scimmi, Edizioni Messaggero Padova, 104 páginas) quanto Diacone: quale ministero per quale chiesa? (editado por Serena Noceti, Ed. Queriniana, 312 páginas) são uma resposta ao anúncio do Papa Francisco em maio de 2016 e à nomeação em agosto de 2016 da Comissão Papal para o Estudo do Diaconato das Mulheres. Os títulos dos livros desmentem seus pontos de vista. “Mulheres diáconos?” e “Diáconas” parecem bastante inócuos em inglês, mas seus subtextos linguísticos correspondentes apresentam a visão de que as mulheres diáconos são exatamente isso. Alguns argumentam que mulheres ordenadas como diáconos pertenciam a uma ordem separada de “diaconisas”, mas cada título emprega uma forma feminina de diácono.

A discussão moderna sobre as diaconisas encontrou um fim previsível desde que o padre oratoriano francês Jean Morin (1591-1659) argumentou no século XVII que as liturgias para as diaconisas preenchiam os critérios do Concílio de Trento para a ordenação sacramental. Desde então, alguns escritores concordaram, outros não.

Um renovado interesse em discutir as mulheres diáconos se seguiu ao encerramento do Concílio Vaticano II e à restauração do diaconato pelo Papa Paulo VI como um grau da ordem permanente. Paulo VI perguntou a um estudioso litúrgico e membro da Comissão Teológica Internacional, o padre beneditino camaldulense Cipriano Vagaggini, sobre as mulheres ordenadas como diaconisas. Em um ensaio detalhado, Vagaggini disse que, sim, as mulheres foram ordenadas sacramentalmente. Seu ensaio (em italiano) nunca viu a luz do dia como um documento oficial vaticano, mas apareceu em uma pequena revista acadêmica.

Em 1972, o monsenhor belga Roger Gryson, um estudioso da patrística da Universidade Católica de Louvain, apresentou Le ministère des femmes dans l'Eglise ancienne (O ministério das mulheres na Igreja antiga), ao qual o bispo francês Aimé-Georges Martimort, um liturgista que participou do Vaticano II, respondeu negativamente. Em 1982, Martimort publicou Les diaconesses: essai historique (Diaconisas: um ensaio histórico).

Outros estudiosos entraram no jogo, tipicamente em uma ou em outra direção: se as mulheres eram ordenadas sacramentalmente, então elas podem ser ordenadas de novo, ou as mulheres nunca foram ordenadas sacramentalmente e, além disso, as mulheres não podem ser a imagem sacramental de Cristo. As linhas permanecem desenhadas desse modo. Francisco renovou a discussão.

Em Diacone, Serena Noceti, vice-presidente da Associação Teológica Italiana e professora de teologia em Florença, apresenta documentos reunidos em um congresso da Coordenação de Teólogas Italianas – aproximadamente o Congresso das Teólogas Italianas –, realizado em Veneza em outubro de 2016.

O título completo do livro – Diacone: quale ministero per quale Chiesa? – pergunta sobre as diáconas: “Qual ministério para qual Igreja?”. Os documentos do congresso estão organizados de acordo com quatro áreas de discussão: a restauração do diaconato pelo Vaticano II (Gilles Routhier, Serena Noceti, Andrea Grillo e Cettina Militello); fontes bíblicas sobre as mulheres servindo como diáconas (Marinella Perroni e Pius-Ramon Tragan); as mulheres diáconos na tradição da Igreja (Christina Simonelli, Giuseppe Laiti, Moira Scimmi); e um exemplo ecumênico contemporâneo do diaconato das mulheres (Angela Berlis).

O resultado da discussão é uma compreensão mais clara do problema. A questão de restaurar as mulheres ao diaconato é eclesiológica. A Igreja primitiva, de forma bastante óbvia, incluía as mulheres diáconos, e elas eram ordenadas para esse ofício. Os artigos combinados sugerem uma eclesiologia funcional.

Como escreve Routhier, professor da Universidade de Laval, em Quebec, “em última análise, a questão necessária é: ‘Que ministério a Igreja precisa hoje para assegurar cuidados pastorais adequados e culturalmente significativos em algumas regiões do mundo?’”.

Dito isso, o problema, ou não problema do cursus honorum medieval (o “curso de honra”) precisa ser abordado. A ordenação diaconal implica automaticamente a elegibilidade ao sacerdócio? Em seu ensaio, Militello, que leciona em Roma na Pontifícia Faculdade Teológica Marianum”, responde à pergunta de modo simples: o diaconato não é o sacerdócio.

Como aponta Berlis, historiadora da faculdade de teologia da Universidade de Berna, na Suíça, o diaconato não é um ofício improvisado para mulheres que se sentem chamadas ao sacerdócio.

Cada um dos documentos do congresso nasce do pensamento profundo sobre o lugar das mulheres na Igreja e na sociedade. Embora os documentos possam nunca ser traduzidos para o inglês, é importante saber que esse congresso ocorreu, e que seus artigos publicados estão sendo lidos onde quer que o italiano seja conhecido.

Dois dos participantes do congresso de Veneza, Simonelli e Scimmi, prepararam uma resposta instantânea à criação da comissão papal. O título do livro é revelador: Donne diacono? La posta in gioco (Mulheres diáconos? O que está em jogo). Simonelli leciona patrística em Verona e está no corpo docente do Seminário de Milão. O serviço diaconal ao longo da vida de Scimmi ocorreu em várias paróquias de Milão e, mais recentemente, na Casa della Carità di Milano. Sua tese de doutorado de 2004 talvez seja o texto acadêmico contemporâneo em italiano mais significativo sobre as mulheres no diaconato. Ambas as autoras sabem muito bem o que está em jogo.

A lógica de seu livro começa com as conclusões do documento da Comissão Teológica Internacional de 2002, resultado de um trabalho de 10 anos, supervisionado e conduzido pelo então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Joseph Ratzinger: “Pertence ao ministério do discernimento, que o Senhor estabeleceu em sua Igreja, se pronunciar com autoridade sobre a questão” das mulheres diáconos. Ou seja: a questão está em aberto para a discussão.

Em seu artigo de abertura, Simonelli recorda a proposta do cardeal alemão Walter Kasper, presidente aposentado do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, que sugeriu uma vez a criação de um “ofício” não ordenado de diaconisas, capazes de ministrar liturgicamente e mediante a caridade, mas que não seriam ordenadas sacramentalmente. O subtexto da proposta: enquanto as mulheres podem ministrar, somente os homens podem oficialmente ter a “liderança” e somente os homens podem ser a imagem de Cristo.

Simonelli pergunta: como pensamos sobre o que é masculino e feminino? As distinções e as questões relativas ao sacerdócio e ao ministério, e o fato de pessoas ordenadas agirem e estarem in persona Christi, fazem da discussão do tópico uma tarefa comum a todos os que pertencem à Igreja.

Na segunda parte de Donne diacono?, Scimmi escreve sobre a história das diáconas, que aparentemente varia sempre em resposta às necessidades da Igreja local. Ela apresenta a história das mulheres no diaconato do primeiro ao sétimo século, usando fontes históricas para esclarecer o passado e rever o debate atual. Ela conclui com o rito de ordenação para uma diácona registrado nas Constituições Apostólicas, que instrui o bispo, na presença dos presbíteros, diáconos homens e mulheres, a impor as mãos sobre a candidata e invocar a bênção do Espírito Santo, “para que ela possa completar dignamente a obra que lhe foi confiada”.

A pergunta básica: como a Igreja levará a palavra, a liturgia e a caridade ao povo de Deus? Se a resposta for ordenando mulheres como diáconos, essas obras juntas apresentam um entendimento de que a Igreja poderia retornar à sua tradição sem incomodar qualquer ensinamento sobre o sacerdócio.

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