Paris, o diálogo franco entre os bispos e Macron sobre bioética e migrantes

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11 Abril 2018

Igreja e Estado em um diálogo público na França secular. Reconhecendo mutuamente o papel de cada um, sem por isso esconder os pontos de atrito. Foi o que aconteceu na noite do último dia 9, em Paris, durante a recepção organizada pela Conferência Episcopal com a presença do presidente Emmanuel Macron e 400 representantes do mundo da política e da sociedade civil. Um encontro semelhante já acontece há anos na França com o CRIF (Conselho de Instituições Judaicas francesas) e CFCM (Conselho Francês do Culto Muçulmano); mas para a Igreja Católica aquela de domingo foi a primeira vez e o evento atendeu as expectativas. Macron falou abertamente sobre uma relação e ser redescoberta porque a França de hoje "mais que uma raiz abstrata" precisa de uma "seiva cristã".

A reportagem é de Giorgio Bernardelli, publicada por Vatican Insider, 10-04-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sob as arcadas do Collège des Bernardins foram os mais frágeis os primeiros a falar: teve Florent com seu irmão Samuel, que sofre de autismo; teve Vanina e Charles, uma anciã e um jovem que se conheceram graças à Sociedade de São Vicente; teve Martine, uma sem-teto, que falou sobre a vida familiar reencontrada na Association pour l'Amitié. "Acreditamos que o que mede a grandeza de uma sociedade é a sua capacidade de colocar os mais vulneráveis no centro", comentou o presidente da Conferência Episcopal, o arcebispo de Marselha  Georges Pontier, quando tomou a palavra.

Ele foi direto para as questões mais problemáticas. Sobre a bioética citou as palavras de Bento XVI na encíclica Caritas in veritate: "Face a estes dramáticos problemas, razão e fé ajudam-se mutuamente; e só conjuntamente salvarão o homem". Lembrou do debate francês sobre pais do mesmo sexo, o fim da vida, os Estados gerais da bioética projetados pelo próprio Macron. "Nós já nos expressamos sobre todas estas questões e o faremos novamente - observou Pontier - conscientes da nossa responsabilidade de vigiar pela salvaguarda dos direitos das crianças, pela defesa dos mais vulneráveis, do embrião ao recém-nascido, da pessoa portadora de deficiência ao paralisado, do idoso ao que depende dos outros em todos os aspectos. Não podemos deixar ninguém sozinho".

O Arcebispo também falou de outros assuntos: a proteção da criação, a economia ao serviço do homem. E depois a questão dos fluxos migratórios, tão crucial em nosso tempo; também mencionou a questão da falta de acolhimento às crianças estrangeiras, denunciou a falta de uma política europeia: "muitas preocupações individuais ou temores persistentes - advertiu - tornam impossível a elaboração de projetos solidários, acolhedores e razoáveis. Sabemos que, para alcançar esse objetivo é necessário o compromisso de todos, autoridades públicas, instituições, associações e o próprio cidadão. No nosso país há muita generosidade que só espera uma chance para poder se manifestar. Muitos jovens adultos são sensíveis a essa tragédia e estão prontos para viver o tempo do acolhimento, da solidariedade e da fraternidade".

Macron também não escondeu as dificuldades na relação com os católicos franceses: "O vínculo entre a Igreja e o Estado ficou arruinado e cabe a nós arrumá-lo", ele afirmou. Para isso indicou uma figura: a de coronel Arnauld Beltrame, o policial herói (católico), que há apenas duas semanas se ofereceu em troca de uma mulher refém no supermercado de Trebes palco de um ataque terrorista, pagando por esse gesto com sua vida. "O mistério da conduta heróica do Coronel Beltrame - comentou Macron - afunda na complexidade humana. Quando chega o momento da verdade, a parte do cidadão e a do católico queimam com a mesma chama". Uma chama que a França não deve temer: "A função do secularismo não pode ser a de erradicar de nossa sociedade a espiritualidade que alimenta tantos de nossos concidadãos - advertiu o presidente. Nesse momento de grande fragilidade social, considero que é minha responsabilidade não deixar que a confiança dos católicos na política se apague".

Não se esquivou das questões levantadas pelo arcebispo Pontier, "Quanto aos migrantes - declarou o presidente - há aqueles que nos acusam de não acolher com generosidade suficiente e aqueles que nos acusam de fazer apenas o politicamente correto: tentamos conciliar o direito com a humanidade. O próprio Papa Francisco convidou à prudência". Quanto à bioética, o mais jovem presidente do Elysée declarou, "eu escuto a voz da igreja, escuto a vossa voz quando nos convidam para não nos restringirmos em uma ação técnica da qual nos mostraram claramente os limites, eu tenho presente o papel essencial que a família tem em nossa sociedade". Mas, acrescentou, é também necessário "acertar as contas com uma realidade complexa e contraditória" que permeia a sociedade. Além disso, as próprias associações católicas e os padres franceses "acompanham todos os dias as famílias monoparentais, as famílias divorciadas, as famílias homossexuais ou aqueles que recorreram ao aborto, confrontando sempre os próprios princípios com a realidade".

Macron encerrou reiterando o apelo aos católicos para se envolver na política, "A sua fé é algo de que a política precisa muito", ele ressaltou. Falou de "sabedoria, empenho e liberdade" como três dons que a República espera dos católicos. O futuro dirá se foi apenas um evento ou se, de fato, é o início de um novo percurso.

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