Documento papal sobre santidade: por que agora? Dois eventos servem de resposta

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11 Abril 2018

"Indiscutivelmente Gaudete et Exsultate é o documento do Papa Francisco mais direto e convincente até agora, porque chega diretamente ao coração do objetivo de seu pontificado de restaurar a centralidade da graça no convite da Igreja", afirma Austen Ivereigh, jornalista e cientista político, autor da já clássica biografia do Papa Francisco, em artigo publicado por Crux, 09-04-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Austen Ivereigh participará do XVIII Simpósio Internacional IHU A Virada Profética de Francisco. Possibilidades e limites para o futuro da Igreja no mundo contemporâneo, a ser realizado nos dias 21 a 24 de maio de 2018, em Porto Alegre, RS, Campus Unisinos.

Eis o artigo.

Quando um documento magisterial aparentemente inócuo é publicado em Roma – e um papa que nos chama à santidade se enquadra nessa descrição mais do que a maioria – é sempre importante perguntar: por que isso e por que agora? Quando você aplica a lente de contexto, dois eventos recentes ajudam a responder a essa pergunta.

Um foi ontem: a Amoris laetitia – o ensino papal mais disputado desde as controvérsias da Humanae vitae de 1968 – celebrou silenciosamente seu segundo aniversário. Durante o fim de semana, alguns de seus famosos oponentes organizaram um evento em Roma para insistir que a Amoris laetitia é herética, enquanto um grupo de bispos na Lombardia se tornou o mais recente dentre as dezenas de dioceses a aceitá-la e implementá-la.

No coração da Amoris laetitia está uma tentativa de mudar o foco da Igreja: afastando-se do foco na defesa da verdade sobre o matrimônio no nível da cultura e da lei, e rumo à ampliação do acesso à graça que permite que as pessoas vivam essa verdade (se isso compromete o testemunho dessa verdade durante o processo, como afirmam seus críticos, é uma questão em discussão).

O parágrafo que melhor revelou a agenda da Amoris laetitia foi o número 37: “Durante muito tempo pensamos que, com a simples insistência em questões doutrinais, bioéticas e morais, sem motivar a abertura à graça, já apoiávamos suficientemente as famílias, consolidávamos o vínculo dos esposos e enchíamos de sentido as suas vidas compartilhadas”, admoestou Francisco.

Na Evangelii gaudium, em 2013, o papa previu a dificuldade que alguns poderiam ter com esse redirecionamento, que o documento de Aparecida dos bispos latino-americanos, em 2007, chamava de “conversão pastoral”. Essa resistência, sugeriu ele, ecoava as batalhas da Igreja primitiva em torno das antigas heresias do gnosticismo e do pelagianismo, no coração das quais estava, precisamente, o papel da graça.

E agora, tendo procurado abrir os canais da graça na Igreja, ele está se voltando para as pessoas e convidando-as a se abrirem à graça também.

Daí o segundo evento: algumas semanas atrás, a Congregação para a Doutrina da Fé emitiu um breve tratado “sobre certos aspectos da salvação cristã”. Embora o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Dom Luis Ladaria, tenha falado do documento como uma contribuição aos debates em andamento desde a Dominus Iesus, de João Paulo II, em 2000, o primeiro parágrafo de Placuit Deo deixava claro que se tratava de aprofundar o ensino sobre a salvação “com referência particular aos ensinamentos do Papa Francisco”.

Seu tema também foi a graça e a forma como ela é excluída pelas versões contemporâneas das antigas heresias do gnosticismo e do pelagianismo, que Francisco, desde o início de seu pontificado, advertiu que infectam não apenas a cultura moderna, mas também a Igreja.

Tendo deixado que o documento da Congregação para a Doutrina da Fé fizesse o levantamento de pesado teológico antes do documento de hoje, o papa se voltou agora para nós em uma linguagem pastoral muito pessoal para abraçar a oferta de santidade e evitar as heresias que parecem ser santas, mas na realidade excluem a graça.

O que é singular na Gaudete et exsultate é como ela é tratada. Francisco não apenas nos convida a uma relação pessoal com Cristo, mas também nos mostra o caminho até lá – e inclui (como todos os bons mapas) os becos sem saídas que, no início, parecem enganosamente promissores. Seu objetivo, diz, é “fazer ressoar mais uma vez o chamado à santidade, procurando encarná-la no contexto atual”.

O “chamado universal à santidade” é uma ideia antiga, que foi muito impulsionada pelo Concílio Vaticano II e incentivada nos papados desde então. São João Paulo II, na Novo millennio ineunte, números 30 e 31, pediu que a Igreja incluísse uma “pedagogia da santidade” acima de tudo na arte da oração.

Mas, embora ele tenha clareza de que a Igreja tem tudo o que precisamos em nossa jornada para sermos santos, e até mesmo liste o menu das ajudas para a viagem, Francisco está enviando um convite direto a que pessoas abracem a santidade, em um tom que não é apenas conhecido, mas também positivamente familiar.

(Isso aparece ainda mais fortemente nas traduções latinas, nas quais ele emprega o vocativo singular informal “tu” em quase a metade de todos os parágrafos – uma escolha linguística deliberada por parte do papa que, naturalmente, se perde em inglês.)

E como a Placuit Deo lidou com todos os pontos específicos e as definições, o papa, na Gaudete et exsultate, pode dar o passo incomum de alertar os católicos contra certos tipos de mentalidades católicas que são um obstáculo para a salvação através de Jesus Cristo.

Embora vestidas com trajes católicos, as formas modernas de gnosticismo e pelagianismo, na prática, negam a Cristo (à graça) qualquer envolvimento contínuo no processo de conversão e de jornada rumo à santidade. Deus é reduzido a um distante provedor de códigos morais, e a salvação é alcançada, com força própria, por parte de um grupo de cristãos de elite iluminados ou detentores de força de vontade.

É neopelagiano, por exemplo, falar sobre a graça, mas depois confiná-la, na prática, a um dom único que vem de fora, na forma, digamos, de uma doutrina clara ou do perdão àquele que se arrependeu.

(A declaração anti-Amoris laetitia do sábado é um exemplo disso. Ela afirma que o perdão se fundamenta “no propósito do penitente de abandonar um modo de vida contrário aos mandamentos divinos”, sugerindo que o primeiro é sempre condicional ao segundo.)

A visão sobre a graça na Evangelii gaudium, na Amoris laetitia e, acima de tudo, agora na Gaudete et exsultate, é muito diferente. Francisco segue a firme visão agostiniana de que a graça é um dom interior constantemente disponível para nós na oração humilde quando nós inevitavelmente caímos e na qual Deus toma a iniciativa a fim de mudar as pessoas.

“Quando alguns deles” – os neopelagianos – se dirigem aos frágeis, dizendo-lhes que se pode tudo com a graça de Deus, basicamente costumam transmitir a ideia de que tudo se pode com a vontade humana, como se esta fosse algo puro, perfeito, onipotente, a que se acrescenta a graça”, escreve Francisco na Gaudete et exsultate.

De fato, diz ele, citando Santo Agostinho, as fraquezas humanas não são curadas de uma vez por todas pela graça, e a nossa santidade cresce em nossa humilde recepção da graça ao longo do tempo, passo a passo, dentro das restrições das nossas circunstâncias e forças.

Por outro lado, “a falta de um reconhecimento sincero, pesaroso e orante dos nossos limites é que impede a graça de atuar melhor em nós”, porque excluímos aquilo que achamos de que não precisamos.

A razão pela qual isso vai ao coração do programa do pontificado é que Deus salva a humanidade através da Encarnação – na realidade encarnada, concreta, humana – e não através de preceitos, leis e ideias complexas.

Francisco acredita que a ênfase da Igreja na verdade e nos preceitos morais, sem enfatizar a centralidade da graça, tornou o convite cristão proibitivo, até mesmo ameaçador, e essa é uma das razões pelas quais muitos pararam de dar ouvidos à Igreja.

Esse foi um problema que seu antecessor viu. Em uma citação que Francisco, na Evangelii gaudium, diz que nunca se cansa de repetir e que reaparece na Placuit Deo, Bento XVI diz na Deus caritas est que, “ao início do ser cristão, não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma Pessoa que dá à vida um novo horizonte e, desta forma, o rumo decisivo”.

O objetivo da Gaudete et exsultate é mostrar que esse encontro é que salva. A graça está sempre disponível àqueles que se voltam humildemente a Deus, vendo Sua misericórdia; e a tarefa da Igreja é prover o acesso a essa Graça, removendo obstáculos desnecessários.

Trata-se também de mostrar que a santidade envolve um voltar-se, e não um recuar, ao sofrimento, à pobreza e à necessidade.

Gaudete et exsultate identifica a estrada real – na verdade, a única estrada – para a salvação, que é claramente marcada pelo próprio Jesus nas Bem-aventuranças e em Mateus 25. O primeiro são as atitudes, ou sinais, de santidade em nossas atitudes, e o segundo são as maneiras pelas quais respondemos concretamente às necessidades humanas.

Todas estas também dizem respeito à graça. As nossas ações misericordiosas nos tornam mais receptivos à graça, e a graça nos torna mais sensíveis à necessidade e misericordiosos em resposta a ela. Assim, diz Francisco, a autenticidade da nossa oração pode ser julgada pela forma como ela muda a forma como agimos em relação aos pobres e como os vemos.

Por isso, um sinal de nossa santidade, diz ele, é “saudável e permanente insatisfação” em relação às injustiças do mundo. Ao invés de absolutizar uma área de preocupação ética e rejeitar outros tipos de engajamento social como algo político – ser fortemente antiaborto, digamos, mas considerar a preocupação com os migrantes como algo de esquerdistas, exemplos que o próprio papa cita no documento –, santidade significa ficar cada vez mais preocupado diante de toda afronta à dignidade humana.

Gaudete et exsultate é notavelmente curta: ela tem 177 parágrafos, comparados com os 325 da Amoris laetitia. Mas é indiscutivelmente seu documento mais direto e convincente até agora, porque chega diretamente ao coração do objetivo de seu pontificado de restaurar a centralidade da graça no convite da Igreja.

Por que isso, por que agora? Porque, depois de grandes esforços, não sem oposição, para abrir as portas da Igreja à graça, chegou a hora de convidar as pessoas a atravessá-las e de tranquilizá-las no sentido de que elas não precisam do próprio conhecimento ou da própria força para a jornada, mas apenas da fé na ajuda de Deus.

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