O grão de trigo que morre e dá fruto

Revista ihu on-line

A fagocitose do capital e as possibilidades de uma economia que faz viver e não mata

Edição: 537

Leia mais

Juventudes. Protagonismos, transformações e futuro

Edição: 536

Leia mais

No Brasil das reformas, retrocessos no mundo do trabalho

Edição: 535

Leia mais

Mais Lidos

  • “O problema da esquerda é que está fechada em sua sociologia e nas grandes cidades”. Entrevista com Christophe Guilluy

    LER MAIS
  • Estudo sobre orçamento escancara obsessão de Bolsonaro por cortes em áreas sociais

    LER MAIS
  • Mas Francisco está sozinho, como diz Marco Politi? Um valioso livro de análise do pontificado. De qualquer forma, Francisco deu início a um novo curso na Igreja

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

16 Março 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 5º Domingo da Quaresma, 18 de março (Jo 12, 20-33). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

De acordo com o quarto Evangelho, Jesus, com o sinal da ressurreição de Lázaro, desencadeia a oposição dos sacerdotes do templo e dos fariseus, que decidem que ele deve morrer (cf. Jo 11, 1-54). Justamente Caifás, o sumo sacerdote no cargo, afirma que a morte de Jesus é uma coisa boa: “É melhor um só homem morrer pelo povo” (Jo 11, 50). Palavra subjetivamente homicida de Caifás, mas objetivamente profética, porque a morte de Jesus é dar a vida pelos outros, por toda a humanidade.

Jesus, portanto, ao se aproximar a festa da Páscoa, entra em Jerusalém em meio aos gritos que o proclamam como Aquele que vem em nome do Senhor e Rei de Israel (cf. Jo 12, 12-14), mas esse seu sucesso junto ao povo desperta a constatação dos fariseus: “Todo mundo (ho kósmos) vai atrás de Jesus, segue-o!” (Jo 12, 19). Agora, a decisão de condenar Jesus à morte foi tomada, e ele sente que o círculo dos inimigos se estreita ao seu redor, e que aquela Páscoa será a sua “hora” tantas vezes anunciada. Por outro lado, a afirmação dos fariseus encontra uma clara ilustração no pedido de alguns dos presentes em Jerusalém para a festa: alguns gregos, isto é, pertencentes aos gentios, não circuncidados e, portanto, pagãos. Eles querem conhecer Jesus, porque ouviram falar dele como mestre de autoridade e profeta capaz de operar sinais.

Então, eles se aproximam de um dos seus discípulos, Filipe (proveniente de Betsaida da Galileia, cidade habitada por muitos gregos, assim como seu nome é grego), e lhe pedem: “Queremos ver Jesus”. Mas isso não era algo fácil, porque encontrar pagãos, impuros, por parte de um rabino, não estava de acordo com a Lei e não respeitava as regras de pureza. Filipe, hesitante, vai informar isso a André, o primeiro chamado ao seguimento (cf. Jo 1, 37-40); depois, juntos, os dois decidem apresentar a demanda a Jesus. E como ele responde? O quarto Evangelho não diz, mas testemunha algumas palavras decisivas, uma verdadeira profecia que Jesus faz sobre aquela hora, a hora da sua paixão e morte, revelada como glorificação.

Acima de tudo, Jesus diz que o pedido para o ver por parte dos pagãos é sinal e anúncio da hora que finalmente chegou, a hora em que o Filho do homem é glorificado por Deus. No início do Evangelho, em Caná, Jesus havia dito à sua mãe: “Minha hora ainda não chegou” (Jo 2, 4), e, em seguida, inúmeras outras vezes essa hora privilegiada é evocada como hora próxima, mas que ainda não chegou (cf. Jo 4, 21-23; 5, 25; 7, 30; 8, 20). Agora, diante desse pedido, Jesus compreende e, portanto, anuncia que sua morte será fecundo, fonte de vida inaudita: a sua glória será glória de Deus. Para expressar isso, Jesus recorre ao relato do grão de trigo que, para se multiplicar e dar fruto, deve cair na terra e depois apodrecer, morrer, caso contrário, permanece estéril e sozinho. Aceitando apodrecer e morrer, o grão multiplica sua vida e, portanto, atravessa a morte e chega à ressurreição.

Sim, parece paradoxal, mas – como Jesus esclarece – “quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”, porque o apego à vida é o que impede de pôr a própria vida a serviço dos outros. Para Jesus, a verdadeira morte não é a física, aquela que os homens podem provocar, mas é precisamente a recusa de gastar e dar vida pelos outros, o fechamento estéril sobre si mesmo; ao contrário, a verdadeira vida é o ápice de um processo de doação de si.

A história do grão de trigo é a história de Jesus, mas também a do seu servo, que, justamente seguindo Jesus, conhecerá a paixão e a morte assim como seu Senhor, mas também a ressurreição e a vida para sempre. Não é só Jesus que será glorificado pelo Pai, mas também o discípulo, o servo que, seguindo o seu Senhor, se torna seu amigo. A esse respeito, com grande fé, um Padre do deserto chegava a afirmar com ousadia: “Jesus e eu vivemos juntos!”.

O que, então, Jesus promete aos pagãos para ver? Sua paixão, morte e ressurreição, seu abaixamento e sua glorificação, a cruz como revelação do amor vivido até o fim, até o extremo (cf. Jo 13, 1). A cada discípulo, proveniente de Israel ou dos gentios, no visível é dado ver o invisível; seguindo Jesus com perseverança, aonde quer que ele vá, é dado contemplar na sua morte ignominiosa a glória de quem dá a vida por amor.

De acordo com o quarto Evangelho, aqui é antecipada aquela convocação dos gentios, aquela reunião que acontecerá quando Jesus for elevado na cruz. Os profetas haviam anunciado a participação dos gentios na revelação feita a Israel, e esta hora está prestes a chegar, porque Jesus oferece a sua vida “para reunir os filhos de Deus que estavam dispersos” (Jo 11, 52).

João abre aqui uma lacuna sobre os sentimentos vividos por Jesus. Assim como os evangelistas sinóticos relatam a angústia de Jesus no Getsêmani (cf. Mc 14, 32-42 e par.), na hora que precede a sua captura, aqui também lemos sua confissão: “Agora sinto-me angustiado”. Sim, diante da sua morte, Jesus ficou perturbado, como já havia se perturbado e chorado diante da morte do amigo Lázaro (cf. Jo 11, 33-35). Mas essa angústia muito humana não se torna uma pedra de tropeço posta no seu caminho: Jesus é tentado, mas vence radicalmente a tentação com a adesão à vontade do Pai. De maneira diferente da narrativa presente nos sinóticos, mas profundamente em harmonia com ela, Jesus não quis se salvar daquela hora, nem ficar isento dela, mas permaneceu sempre fiel à sua missão de cumprir a vontade do Pai no caminho da humilhação, da pobreza, da mansidão e não através da violência, do poder, da dominação. Compreendemos, portanto, sua oração: “Pai, glorifica teu Nome”, isto é: “Pai, mostra que tu e eu, juntos, realizamos em mim a mesma vontade”.

Em resposta a tais palavras, eis uma voz do céu, a voz do Pai que testemunha o reconhecimento de Jesus como Filho amado, que revelou a glória de Deus em toda a sua vida e a revelará novamente na sua “hora”. De acordo com a inteligente interpretação da Carta aos Hebreus, Jesus, “nos dias de sua vida terrestre, dirigiu preces e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que era capaz de salvá-lo da morte. E foi atendido, por causa de sua entrega a Deus (eulábeia)” (Hb 5, 7). Essa submissão não é a rendição a um destino implacável, mas sim a adesão aos sentimentos do Pai, sentimentos de amor pelo mundo até lhe dar seu Filho unigênito (cf. Jo 3, 16).

Eis que, então, Jesus pode gritar com convicção: “É agora o julgamento deste mundo. Agora o chefe deste mundo vai ser expulso, e eu, quando for elevado da terra”, como a serpente levantada por Moisés (cf. Nm 21, 4-9; Jo 3, 14), “atrairei todos a mim”. A “hora” finalmente chegou, a hora de Jesus, mas também aquela em que o mundo, com sua estrutura malvada, é julgado, e assim o príncipe deste mundo, o príncipe das trevas, o inimigo de Deus e da humanidade, é expulso.

Esse grito de Jesus é um grito de vitória: na luta entre o príncipe das trevas e o Filho de Deus, este último é vencedor e, elevado da terra sobre a cruz, atrai todos a si. Sim, justamente na cruz, no alto, Jesus será o vencedor do inimigo, o diabo, o pai da mentira, e, portanto, vencedor sobre o mundo de trevas que se opõe a Deus: sobre a cruz, revelou-se plenamente a glória de Deus e de Jesus.

Da cruz, “Jesus, o Nazareno, o Rei dos judeus” (Jo 19, 19) – título escrito em hebraico, grego e latim, as línguas de toda a oikouméne (cf. Jo 19, 20) – atrairá todos a si, judeus e gregos, que verão aquele que transpassaram e baterão em seus peitos (cf. Zc 12, 10; Lc 23, 48; Jo 19, 37 Ap 1, 7). Todo olho o verá, e aqueles que, vendo-o, aderirem a ele crendo no seu amor, serão salvos e conhecerão a vida eterna. Eis a verdadeira resposta para aqueles que queriam, e ainda hoje querem, “ver Jesus”.

Essa é a boa notícia da página de hoje do Evangelho, boa notícia especialmente para aqueles discípulos e aquelas discípulas que conhecem a dinâmica de cair na terra, do “apodrecer” no sofrimento, na solidão e no escondimento.

Em algumas horas de vida, parece que todo o seguimento se reduz apenas à paixão e à desolação, ao abandono e à negação por parte dos outros, mas, então, mais do que nunca, é preciso olhar para a imagem do grão de trigo que nos foi entregue por Jesus; mais do que nunca, é preciso renovar o fôlego da fé, para dizer: “Jesus e eu vivemos juntos!”.

Leia mais

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

O grão de trigo que morre e dá fruto - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV
Fechar

Deixe seu Comentário

profile picture
ASAV