Cardeal Piacenza: não aos padres que “ficam nos chats” enquanto ouvem confissões; “ato gravíssimo”

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07 Março 2018

São proibidos em qualquer confessionário telefones celulares, smartphones, tablets e qualquer outro dispositivo tecnológico que possa distrair o presbítero durante aquele que é um momento fundamental para a vida dos fiéis, especialmente dos jovens, e desvirtuar dessa maneira o sacramento. O cardeal Mauro Piacenza, penitenciário mor, não usa meias palavras na ‘lectio magistralis’ com a qual fez a abertura do 29º Curso sobre o Foro Interno que começou nesta segunda-feira, 05 de março, no Palácio da Chancelaria em Roma (e que vai até o dia 09 de março).

A reportagem é de Salvatores Cernuzio, publicada por Vatican Insider, 05-03-2018. A tradução é de André Langer.

“Temos notícias de alguns confessores que ‘ficam chateando nas redes sociais’ enquanto os penitentes fazem suas acusações. Este é um ato muito grave, que não hesito em definir como um ‘ateísmo prático’, e que demonstra a fragilidade da fé do confessor no evento sobrenatural de graça que está sendo vivido”, disse o cardeal. E acrescentou: “Não é raro, infelizmente, receber reclamações de fiéis escandalizados com a distração do confessor, que não presta atenção às suas palavras ou, inclusive, está fazendo outra coisa durante o diálogo. Sob este aspecto, permitam-me uma única indicação e que vale para todos: não se entra no confessionário com o telefone celular ligado, muito menos se deve usá-lo durante os colóquios sacramentais”.

A confissão é, acima de tudo, “escuta” (a 360 graus), além de “encontro” com Cristo, autêntico “espaço de liberdade”, ocasião para identificar a própria “vocação”. Portanto, uma ocasião para que todos os fiéis (especialmente os jovens) possam ver satisfeitas as “necessidades múltiplas e universais” de cada pessoa humana: “beleza, justiça, liberdade, verdade e amor”.

O confessor é chamado a reconhecer “‘a abertura do coração’ daqueles que se aproximam do sacramento da Reconciliação, sobretudo quando se trata de um jovem”, levando em consideração que “quem se aproxima realiza uma decisão livre e contracorrente”. Até meio século atrás, observou o penitenciário mor, era quase natural que as pessoas se aproximassem “disso que muitos definem como ‘o sacramento difícil’, por mero costume ou condicionamento do contexto”. Hoje, é “incontestável” que “não há nada que culturalmente convide à reconciliação sacramental”.

Com maior razão, pois, o confessor deve assumir uma “atitude de profunda ‘valorização do penitente’, o que significa valorizar não o seu pecado, certamente, mas o gesto de se aproximar do sacramento, para pedir perdão a Deus”.

Para fazer isso, devemos levar em consideração um pressuposto fundamental: “os sacramentos são uma ação de Cristo e da Igreja”, ressaltou Piacenza. Portanto, “não se pode pensar em reduzir os sacramentos à mera automanifestação da fé pessoal, como acontece em certas tendências atuais da especulação teológica”. Em particular, o sacramento da reconciliação, que apenas na aparência tem “como protagonistas o sacerdote e o fiel, mas que, na realidade, é um encontro do penitente com o próprio Cristo”. Essa consciência “plasma” o “traço humano do confessor” a uma maior caridade.

Nem sempre é fácil: muitas vezes, os penitentes chegam ao confessionário com “expressões inadequadas, às vezes até distorcidas ou pretensiosas”. No entanto, recomendou o cardeal, “a sabedoria do confessor deve saber ler” também nelas “o eco remoto do anseio de felicidade e realização, presente no coração de cada homem”. “A acusação dos pecados – explicou Piacenza – é, objetivamente, um momento de crise, de pôr em questão o próprio julgamento, as próprias expressões, as próprias obras (pensamentos, palavras, atos e omissões). Por isso, é indispensável pedir ao Espírito Santo a graça para que essa ‘crise’ se torne realmente um momento de crescimento, mediante o encontro com Cristo”.

Um encontro que é “capaz de reconstruir o nosso ser, destruído pelo pecado”. O penitente sabe disso, ou, no caso de não estar consciente, quando se aproxima da Reconciliação “pede ao Senhor para ser recriado, pede que sua vida seja transformada”. Por isso, está clara “a enorme e santa responsabilidade do sacerdote, em cada uma das confissões, para que cada um dos penitentes, para que o encontro com o Senhor nunca seja prejudicado”. Embora isso nunca implique “em renunciar à tarefa de ‘juiz e médico’”.

O penitenciário mor também esclarece outro ponto: “a dinâmica relacional, presente na celebração do Sacramento, tem em si mesma um valor vocacional”, entendendo por vocação não tanto “a decisão que o ‘eu’ toma, mas a livre decisão que Deus toma, estabelecendo a forma da relação que cada um vive com Ele”. Claro, pode haver “casos existenciais em que a conversão coincida com a vocação, mas – advertiu o cardeal – é sempre oportuno verificar que as duas realidades se distingam e que o fiel, sobretudo quando é jovem, não troque o entusiasmo pela nova vida em Cristo com um simples chamado”.

Em sua ‘lectio’, Piacenza também insistiu na dimensão “dialógica” da estrutura da Reconciliação. Diálogo que, por parte do penitente, se traduz no “delicadíssimo momento da acusação” dos próprios pecados; por parte do confessor, na escuta “do irmão mais fraco e mais pobre”; escuta “atenta, prudente, urgente, capaz de apreciar as nuances”; escuta “profunda e paterna do penitente”: este é “o primeiro passo desse ‘milagre da mudança’ que a confissão proporciona”. E “é fruto de uma grande autodisciplina”, disse o cardeal, pois, “deveria sempre se inserir generosamente em um horário normal de esforços semanais e precedido por alguns momentos de profundo recolhimento e oração, pedindo para se tornar verdadeiramente capaz de ouvir, com a consciência dramática da importância, às vezes determinante, da nossa mediação humana”.

Desta forma, pode-se animar o fiel a “confessar inclusive o que (errando, espera-se invencivelmente) não acreditava que fosse capaz de confessar”.

Para os jovens, a escuta é uma necessidade fundamental, insistiu o cardeal, considerando a “ausência” em nosso tempo de “figuras capazes de autêntica escuta”. “Os jovens – disse pensando no Sínodo de outubro –, com suas esperanças e desilusões, com seus desejos e suas contradições e seus medos, têm urgente necessidade de serem ouvidos, não apenas por seus próprios pares (admitindo que são capazes de ouvir) mas, acima de tudo, por verdadeiros adultos, autorizados, acolhedores, prudentes, capazes de uma visão unitária do mundo, do homem e da vida, capazes de ser para os jovens firmes pontos de referência, afetivamente significativos e existencialmente determinantes”. Adultos que “nunca escolhem no lugar dos jovens, mas que saibam indicar, de forma estável e razoável, a meta e o caminho para alcançá-los, apoiando-os no caminho, às vezes difícil, que cada um deve trilhar pessoalmente”.

O penitente, pois, especialmente quando se trata de um jovem, “tem o direito de ouvir, dos lábios do confessor, não as opiniões pessoais de um homem, por mais preparado cultural e teologicamente que esteja, mas somente e unicamente a Palavra de Deus”, “interpretada pelo autêntico magistério”, precisou Piacenza.

Na ‘lectio’, não podia faltar uma referência a São João Maria Vianney, o Santo Cura d’Ars, “grande e exemplar confessor”. “Deus nos perdoa, mesmo que saiba que continuaremos a pecar”, dizia o sacerdote. Não se trata de “justificar o pecado”, explicou o cardeal: esta afirmação “simples e profunda” nasce da “real constatação da fragilidade humana e da ferida do ‘pecado original’”, que afeta as faculdades superiores, como a inteligência (“que nem sempre conhece o verdadeiro”), a liberdade (“que nem sempre escolhe o bem”) e a vontade (“que nem sempre faz o bem”).

Assim, pois, a Confissão pode ser definida como “um espaço de liberdade, talvez o único e verdadeiro espaço de liberdade autêntica” que o homem tem, afirmou o penitenciário. “A liberdade, de fato, não é ‘ausência de vínculos’ ou de condicionamentos”, mas “certeza de ser amado incondicionalmente”. “Não há outro lugar, na terra, como a Reconciliação sacramental, em que é possível ter uma experiência similar: não apenas ser amado incondicionalmente, apesar do próprio pecado, mas também ver destruído o próprio pecado e ser amado plenamente, infinitamente”.

Neste horizonte de liberdade, “é possível intuir a vocação e escolher não segui-la”, como acontece no episódio evangélico do ‘jovem rico’. Jesus “não detém o seu interlocutor com mais razões persuasivas; ele continua a amá-lo, mas se rende humildemente às suas decisões”. O confessor é chamado a recolher-se nesta atitude, respeitando “as decisões do penitente”. Não significa, de modo algum, “compartilhar e ‘abençoar’”, mas “simplesmente aceitar não poder substituir a sua liberdade”. E este, ressaltou o cardeal, é “outro grande erro da cultura contemporânea”: pretender “não apenas que as aberrações sejam respeitadas, mas que sejam compartilhadas e abençoadas e que ninguém se permita a dizer o contrário, afirmar a existência, pelo menos, de uma alternativa real e possível. Somente o cristão consegue distinguir ainda adequadamente, por amor, o erro e quem erra”.

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