Placuit Deo e o magistério de Francisco: a salvação integral como dom e tarefa

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06 Março 2018

“A Carta Placuit Deo, aproxima o magistério de Francisco em sua intuição pastoral. Não tem razão aqueles que pensam que o Papa Francisco não fundamenta sua “autoridade magisterial numa teologia sólida”, como o fez publicamente o Cardeal Müller”, escreve Rogério Guimarães de Almeida Cunha, doutorando em Teologia Sistemática pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio.

Segundo ele, “a Congregação para a Doutrina da Fé, com esta Carta, aponta que a conversão pastoral e missionária da Igreja proposta e em desenvolvimento por Francisco, com a noção de uma “Igreja em saída” e a noção de salvação aí subjacente, estão, sim, muito bem fundamentadas, discernidas e em total sintonia com os sinais dos tempos”.

Eis o artigo.

Foi publicada no dia 22 de fevereiro de 2018, pela Congregação para a Doutrina da Fé, a Carta Placuit Deo, endereçada aos Bispos da Igreja católica, sobre alguns aspectos da salvação cristã.

Nesta Carta, a Congregação para a Doutrina da Fé se debruça sobre “alguns aspectos da salvação cristã” que encontram dificuldades em sua compreensão, vivência e comunicação, por causa das “transformações culturais” que estamos vivendo. Um dado particular é a “referência especial” ao magistério do Papa Francisco, que se soma a toda Tradição da Igreja – nota-se pelo conteúdo, também, a contribuição de teólogos que tratam da mesma temática –. Outro dado digno de nota é a introdução da Carta com uma citação central da Dei Verbum, dando o tom de toda a reflexão. A percepção e o profundo magistério teológico de Francisco, presentes, sobretudo, na Evangelii Gaudium e Laudato Si’, que dá seguimento à Igreja no espírito do Concílio Vaticano II, são propostas pela Congregação para a Doutrina da Fé para refletir e dialogar nesta atual mudança de época em suas transformações culturais.

A Placuit Deo aponta duas dificuldades atuais, mas que possuem raízes em duas heresias do passado: o pelagianismo, (neo-pelagianismo) entendido como um individualismo centrado no sujeito autônomo, e o gnosticismo, (neo-gnosticismo), que traz a “visão de uma salvação meramente interior, que talvez suscita uma forte convicção pessoal ou um sentimento intenso de estar unido a Deus, mas sem assumir, curar e renovar as nossas relações com os outros e com o mundo criado”. Sobre estas dificuldades vale a pena retomar os números 93 a 97 e 231 a 233 da Evangelii Gaudium, onde o Papa Francisco trata do “mundanismo espiritual” e de uma afirmação que faz pensar e avançar no que diz respeito à inculturação da fé e à compreensão da missão da Igreja: “A realidade é mais importante do que a ideia”.

Estas dificuldades atuais comunicam falsas esperanças da salvação, entendidas como esforço meramente humano e, por outro lado, uma esperança desencarnada, descompromissada, meramente informativa. A Carta enfrenta essas dificuldades apontando a salvação em Cristo como dom de Deus e como um assumir as relações que essa nova vida proporciona: relações novas com os outros humanos, a criação e o próprio Deus, em tensão para a comunhão plena da Trindade.

Para a fé cristã a salvação é integral. É dom. Neste sentido, a Carta lança mão das direções cristológicas (descendente e ascendente) em relação de integração e diálogo, como um caminho para superar o neo-pelagianismo e o neo-gnosticismo presentes nas atuais transformações culturais. Esta proposta não é uma novidade, uma vez que a comunidade teológica vem debatendo estas questões. Mas justamente aqui nos parece algo digno de nota, a acolhida, por parte da Congregação para a Doutrina da Fé, do magistério dos teólogos. Seria um seguimento da linha de Francisco, a sinodalidade? Nos parece que sim. Sobre esta integração das direções cristológicas, afirma a Congregação para a Doutrina da Fé: “Ele [Jesus] não se limitou a mostrar-nos o caminho para encontrar Deus, isto é, um caminho que poderemos percorrer por nós mesmos, obedecendo às suas palavras e imitando o seu exemplo. Cristo, todavia, para abrir-nos a porta da libertação, tornou-se Ele mesmo o caminho: ‘Eu sou o caminho’ (Jo 14,6). Além disso, esse caminho não é um percurso meramente interior, à margem das nossas relações com os outros e com o mundo criado. Pelo contrário, Jesus ofereceu-nos um ‘caminho novo e vivo que Ele abriu para nós através [...] da sua carne’ (Hb 10,20). Enfim, Cristo é Salvador porque Ele assumiu a nossa humanidade integral e viveu em plenitude a vida humana, em comunhão com o Pai e com os irmãos. A salvação consiste em incorporar-se nesta vida de Cristo, recebendo o seu Espírito (cf. 1 Jo 4,13). Assim, Ele tornou-se ‘em certo modo, o princípio de toda graça segundo a humanidade’. Ele é, ao mesmo tempo, o Salvador e a Salvação”.

Aqui entra a noção de Igreja Povo de Deus que o Concílio Vaticano II iluminou: uma comunidade de relações que se fundamentam nas relações trinitárias. Uma Igreja que indica que não somos ilhas, mas estamos em relação entre nós e com o mundo. E mais, aponta a corporalidade dessa fé: “nela tocamos a carne de Jesus, de maneira singular nos irmãos mais pobres e sofredores. Enfim, a mediação salvífica da Igreja, ‘sacramento universal de salvação’, assegura-nos que a salvação não consiste na autorrealização do indivíduo isolado, e, muito menos, na sua fusão interior com o divino, mas na incorporação em uma comunhão de pessoas, que participa na comunhão da Trindade”.

Em resumo, o texto aponta para necessidade de afirmar e professar a integralidade da salvação como um caminho para enfrentar as dificuldades que o neo-pelagianismo e neo-gnosticismo apresentam à fé cristã nos dias de hoje. É um texto positivo, ainda que outras questões possam ser levantadas, como por exemplo a questão do diálogo interreligioso, enfatizando o reinocentrismo, que a Carta acena em sua conclusão ao citar a Gaudium et spes, mas não aprofunda. O mesmo poderíamos dizer sobre a esperança cristã, que mereceria ser aprofundada, pois a esperança cristã dialoga com todas as esperanças que se atrevem a pensar e a agir na perspectiva de uma existência com sentido e a serviço dos vulneráveis, sobretudo nas situações de sofrimento. No entanto, a Carta aproxima o magistério de Francisco em sua intuição pastoral. Não tem razão aqueles que pensam que o Papa Francisco não fundamenta sua “autoridade magisterial numa teologia sólida”, como o fez publicamente o Cardeal Müller. A Congregação para a Doutrina da Fé, com esta Carta, aponta que a conversão pastoral e missionária da Igreja proposta e em desenvolvimento por Francisco, com a noção de uma “Igreja em saída” e a noção de salvação aí subjacente, estão, sim, muito bem fundamentadas, discernidas e em total sintonia com os sinais dos tempos.

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