O Movimento de 1968 “aguilhão do século XX" visto pelo cardeal Martini

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20 Fevereiro 2018

Meio século depois daquele marco de virada epocal, ressurge a avaliação de Carlo Maria Martini: “A redescoberta da pobreza, da política e da coerência para alimentar uma Igreja do povo".

A reportagem é de Vincenzo Rosito, publicada por Avvenire, 14-02-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Antes mesmo de estabelecer o que restou do Movimento de 1968, é preciso situá-lo. Muito mais que uma mera referência temporal, 1968 não coincide apenas com os eventos que o caracterizaram, ou com o clima que agitava a época, apresenta-se sim como um tempo transcorrido nas ruas e nas fábricas, nas salas de aula universitárias e nas assembleias, um tempo discutido e vivido com um livro ou jornal nas mãos. Há um lugar privilegiado para localizar e entender melhor o que todas essas experiências representaram? Eu acredito que esse lugar seja a formação ou, melhor ainda, a pluralidade dos gestos e das instituições onde de forma amplamente compartilhada foram vivenciados os processos de formação.

Hoje, cinquenta anos depois, é correto falar que o Movimento de 1968 foi, em primeiro lugar, dos estudantes, e que tudo se consumiu principalmente nas universidades se essa “colocação” espacial e simbólica não comprimir o dinamismo daqueles eventos apenas no interior da própria instituição acadêmica. Na aliança sem precedentes entre protestos estudantis e protestos de trabalhadores até hoje pode se vislumbrar o desejo de uma humanidade indivisa, a postura de homens e mulheres no caminho como pessoas em formação, independentemente do seu status de nascimento, social, econômico ou profissional. A formação como uma bagagem vital da participação cívica e política, a formação como nutrição de uma consciência nos afetos e nas relações sociais: tudo isso não é legado do Movimento de 1968, mas saliências e avisos no universo simbólico daqueles anos, é uma intuição brilhante e coletiva que não parou de operar, apesar das muitas forças e poderes que desafiaram seu avanço.

Significativamente Carlo Maria Martini, refletindo sobre os traços culturais do Movimento de 1968, não falou de valores ou princípios, mas de aguilhões. Dessa forma, o exercício da memória torna-se experiência sensível, se não mesmo sensorial. A carne dos corpos individuais e coletivos continua a ser abalada e provocada pelo que é diferente e desconfortável. Os aguilhões da pobreza, da política e da coerência não têm a compactação de sistemas de valores, eles preservam a força e o dinamismo das provocações. Pobreza, política e coerência são chamarizes fincados nos corpos sociais que tornam o descarte e as saliências os locais de uma estabilidade irrequieta e paradoxal. Martini escreveu a esse respeito: "Naqueles anos, a preocupação com a pobreza era muito forte e deu origem a novas experiências, a novas comunidades, novos modos de vida; alguns falharam, mas o aguilhão era real e saudável". Depois, o aguilhão da política: "Ainda me lembro como era presente a percepção de que, mesmo fora de qualquer interesse político, estava-se operando uma escolha política. Um aguilhão dramático que obrigava a todos a fazer uma escolha. Obviamente, tal instância estava sendo levada aos limites, e fazia da política a única chave de interpretação possível.

Porém permitia sair de uma forma de cristianismo privado". E, finalmente, o aguilhão de coerência com o Evangelho, "que atingia diretamente o coração da vida eclesial. Nos movimentos de 1968 se buscava muito a coerência, a transparência, a autenticidade.

Nós nos perguntávamos: somos coerentes com o Evangelho? Estamos representando-o de forma transparente, autêntica? E percebíamos o nosso distanciamento e ao mesmo tempo a necessidade de entender o que significa interpretar o Evangelho na atualidade".

Exatamente 50 anos atrás, a urgência de uma formação crítica e participativa mostrou-se capaz de solavancos e reações em relação aos "discursos com garantia de verdade", expressão cara a Michel de Certeau. O desejo e a paixão pela humanidade em formação são particularmente vivos hoje em muitas iniciativas e discretas iniciativas sociais. A temporada eclesial atual não pode considerar-se alheia ao tríplice aguilhão de uma igreja "em estado de saída", por estar "em estado de formação": ainda hoje a preocupação com a pobreza é capaz de incutir sensibilidade e cuidado na redescoberta da dimensão popular da fé, em proximidade com os movimentos do povo e dos povos. O aguilhão da política, se devidamente reconhecido e promovido, pode levar a uma verdadeira virada ecológica, pode iniciar processos de conversão para a sociabilidade e cooperação, na libertadora renúncia à apropriação sem limites. A coerência com o Evangelho traz a roupagem da humildade e ela também é aguilhão e não apenas princípio, advertência para a renúncia a qualquer privilégio, orientação de uma Igreja finalmente liberta da obsessão de "preservar a própria glória, a própria 'dignidade' , a própria influência", palavras entregues por Francisco à Igreja italiana.

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