Jesus no deserto, constantemente tentado

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16 Fevereiro 2018

Publicamos aqui o comentário do monge italiano Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, sobre o Evangelho deste 1º Domingo da Quaresma, 18 de fevereiro (Mc 1, 12-15). A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

O Evangelho deste primeiro domingo da Quaresma é curto: quatro versículos, embora, na realidade, vou me concentrar quase que exclusivamente nos dois primeiros, tendo comentado os versículos 14-15 há poucos domingos (3º Domingo do Tempo Comum).

Os versículos 12-13 são muito intensos, capazes de nos comunicar o essencial sobre as tentações de Jesus, mesmo que, no nosso imaginário, está impressa e, portanto, memorizada por nós a narração mais dramática e mais precisa dos Evangelhos segundo Mateus e Lucas (Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13).

Então, concentremo-nos no relato de Marcos. Jesus foi batizado no rio Jordão por João, seu mestre, e, ao sair da água, viu os céus se abrirem, o Espírito de Deus descer sobre ele com a doçura de uma pomba (cf. Mc 1, 9-10) e, acima de tudo, ouviu uma declaração dirigida a ele apenas. Do céu, de fato, do lugar onde Deus mora, chega-lhe uma voz que proclama: “Tu és o meu Filho amado; em ti encontro o meu agrado” (Mc 1, 11; cf. Sl 2, 7; Gn 22, 2; Is 42, 1). É a voz do Pai, que lhe confirma seu amor e sua identidade de Filho amado; é a voz que o habilita, com a força do Espírito, “companheiro inseparável de Cristo” (Basílio de Cesareia), à missão pública entre os filhos de Israel.

Mas, assim que isso aconteceu, “imediatamente” (euthýs) o Espírito que desceu sobre ele o leva para onde os céus não estão abertos, mas sim fechados; leva-o, literalmente “expulsa-o para o deserto”, onde está presente, mais do que nunca, o diabo, Satanás, aquele que põe à prova, cuja missão é dividir e separar, sobretudo de Deus. Satanás é um dos nomes dados a esse poder maligno que aparece desde o início da criação (a serpente: cf. Gn 3, 1) e que, nos textos de Qumran, é aquele que conduz na batalha os “filhos das trevas” contra os “filhos da luz”, aquele que se opõe ao Messias de Deus.

Jesus entra, assim, em uma zona de sombra, entra na prova, porque o deserto é terra de prova, de tentação. O deserto tinha sido isso por 40 anos para Israel, “batizado” e saído das águas do Mar Vermelho; tinha sido isso por 40 dias para Moisés e para Elias; tinha sido isso para aqueles que tinham ido ao deserto para preparar um caminho para o Senhor (cf. Is 40, 3), combatendo como “filhos da luz” contra o demônio e sua escuridão; tinha sido isso para João Batista. Jesus, portanto, está caminhando nos rastros deixados pelos enviados de Deus e, desse modo, sabe que deve se preparar para aquela que será a prova, a luta cotidiana, até a morte.

Naquele deserto de Judá, ao lado do Mar Morto, entre aquelas rochas áridas, Jesus “habitou durante 40 dias, continuamente tentado por Satanás”. Sua luta é corpo a corpo, da qual ninguém é espectador; é uma luta interior pela qual ele deve aprender a obediência do Filho – “aprendeu a obediência com as coisas que sofreu” (Hb 5, 8), lê inteligentemente o autor da Carta aos Hebreus – e vencer o tentador que se opõe à vinda do Reino do modo que Deus quer e que Jesus deve assumir e tornar próprio, até se revestir dele.

São dias de luta em que Jesus amarra o príncipe dos demônios, amarra aquele que é “o forte” (Mc 3, 27), porque – como anunciara o Batista – “o mais forte” (Mc 1, 7) é precisamente Jesus, que expulsará os demônios, libertando homens e mulheres da alienação demoníaca.

Marcos não nos diz nada de preciso sobre as tentações sofridas por Jesus, aquelas que os outros evangelistas, em uma espécie de midrash, narrarão como luta contra as três libidines do eros, da riqueza e do poder, em suma, lutar contra uma manifestação mundana, prepotente e arrogante do Reino.

Essa descrição deliberadamente tão genérica de Marcos é uma indicação para discernir quantas vezes durante sua missão Jesus ainda será tentado. De fato, ele será instado a utilizar seu poder divino para impor de modo triunfal o reino de Deus, quando lhe pedirão um sinal, um milagre impressionante do céu (cf. Mc 8, 11); depois, ele será tentado na hora da agonia no Getsêmani (cf. Mc 14, 32-42) e ainda ao longo de toda a paixão, até a cruz (cf. Mc 15, 29-32).

Jesus permanecerá sempre fiel à sua missão como enviado do Pai, como justo em um mundo injusto, ao preço de nunca responder à violência com a violência e de dar sua vida até o fim.

Aqui, o evangelista mais antigo enfatiza que Jesus é constantemente tentado, durante 40 dias, sem jamais ceder a uma visão triunfalista da vinda do Reino. Plenamente submisso ao Pai, criatura entre as criaturas não humanas do deserto (rochas, pedras, arbustos, répteis, aves, animais selvagens), Jesus está em profunda comunhão com toda a criação. Está como que colocado no centro dela, é o verdadeiro Adão como Deus o quis, capaz de viver reconciliado e em paz com todas as criaturas e com toda a terra.

Jesus aparece como o homem manso, harmonioso, reconciliado com o céu e a terra, de modo a inaugurar a era messiânica profetizada por Isaías: “O lobo será hóspede do cordeiro, a pantera se deitará ao lado do cabrito; o bezerro e o leãozinho pastarão juntos (...) o leão comerá capim como o boi. O bebê brincará no buraco da cobra venenosa, a criancinha enfiará a mão no esconderijo da serpente” (Is 11, 6-8).

Na criação marcada pelo reino de Deus, animais e anjos, terra e céu, baixo e alto, terrestre e sobre-humano estão reconciliados e, portanto, em harmonia com a humanidade, com o novo Adão: é uma aliança de paz cósmica. Sim, é o Reino messiânico prometido por Deus a toda a terra, que certamente virá. Jesus o inaugura no deserto; por isso, logo depois, pode proclamar: “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo”.

Mas é preciso lembrar que essa “harmonia” e essa “paz” têm um alto preço: o preço da kénosis, do esvaziamento e do abaixamento daquele que “tinha a condição de Deus e esvaziou-se a si mesmo (heautòn ekénosen)”, tornando-se homem e despojando-se de suas prerrogativas divinas, em vez de mantê-las zelosamente para si mesmo e de considerá-las como um privilégio (cf. Fl 2, 6-7).

Precisamente nessa profunda humilhação, que é testemunho da sua tentação verdadeira (não um teatrinho exemplar para nós!), Jesus faz a paz entre céu e terra, de modo que as criaturas do céu, os anjos, no deserto, se aproximam dele e o servem. Reconhecem-no como Deus na carne de um homem: Jesus de Nazaré, o filho de Maria.

Jesus, amado na plenitude do amor do Pai que lhe foi declarado na hora do batismo e acompanhado pelo Espírito Santo, já está operando como vencedor sobre Satanás, sobre o mal, sobre a doença, sobre a morte. É o Messias vindouro que traz a vida; portanto, basta segui-lo, acolhendo seu convite urgente que resume em si mesmo todo o Evangelho que acaba de começar: “Convertei-vos e crede no Evangelho!”.

Assim, Jesus proclama que o tempo se cumpriu, e que o reino de Deus já está próximo: é uma realidade possível, que os homens e as mulheres podem acolher, deixando que Deus reine sobre eles. Os poderes alienantes dos ídolos, cujo príncipe é Satanás, podem ser vencidos, porque Jesus os venceu no deserto e, depois, ao longo de toda sua vida humana.

Diante do dom do reino de Deus, portanto, é preciso “se converter”, como pede o tempo quaresmal: trata-se de mudar de mentalidade, de reorientar a própria vida à luz do “Evangelho”, que “é poder de Deus” (Rm 1, 16). E o cristão, tentado como Jesus no deserto deste mundo, não poderá mais se sentir sozinho nessa batalha.

Como sugerem os Salmos, ele poderá rezar: “Na minha luta, és tu que lutas” (Sl 42, 1; 118, 154) e, com a graça do Senhor, será vencedor sobre o próprio demônio. Nós, monges, não esquecemos que os nossos Padres do século IV escolhiam justamente o deserto para lutar contra Satanás. Narra-se, por exemplo, que Antônio, exausto após a longa luta contra as tentações, perguntou: “Mas onde tu estavas, Senhor?”. E ouviu Jesus responder: “Eu estava ao teu lado para lutar a tua batalha!”.

A tentação, a prova ritma a nossa vida: se não houvesse a tentação, haveria a indiferença! Mas cabe a nós combate-la e vencê-la com a ajuda da graça, rezando ao Pai: “Não nos abandones na tentação, mas livra-nos do mal” (Mt 6, 13).

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