Um ''milagre Francisco'' no catolicismo francês?

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14 Fevereiro 2018

É apropriado perguntar, depois da leitura de alguns livros publicados recentemente sobre o catolicismo na França: e se houver um “milagre Francisco” no catolicismo francês?

A reportagem é de Isabelle de Gaulmyn, publicada no sítio La Croix International, 11-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Tomemos François Huguenin, um autor que escreveu muito sobre o catolicismo de direita, especialista na Action Française e que admitiu ser muito mais “próximo de Bento XVI” do que do Papa Francisco.

Seu último livro, Le pari chrétien [A aposta cristã] (Ed. Tallandier), é um raciocínio argumentado, aprofundado e também luminoso em favor do papa atual. E também um apelo a um novo modo de ser católico na França.

Sobre a imigração e sobre o imperativo de acolher o estrangeiro, o autor afirma que “o não por princípio aos imigrantes está absolutamente em contradição com o texto, letra e espírito bíblicos”. E remete todos os detratores do Papa Francisco, os defensores de uma identidade cristã a ser preservada e os nostálgicos da cristandade do passado às máximas evangélicas.

Do mesmo modo, era conhecido o compromisso de Patrice de Plunkett com a ecologia. Mas a trajetória desse católico, que passou por algum tempo para o lado dos tradicionalistas, ex-diretor da Figaro Magazine, é significativa. O título do seu livro já é um programa inteiro: Cathos, ne devenons pas a secte [Católicos, não nos tornemos uma seita] (Ed. Salvator).

É o que François Huguenin também diz, mas de uma forma diferente: “É importante não absolutizar uma espécie de non possumus que condenaria os cristãos a não serem mais sujeitos ativos no seu mundo, a se fecharem na crítica estéril, a se separarem dos seus irmãos em humanidade”.

Na realidade, a sequência dolorosa vivida recentemente pelo catolicismo francês obriga a reconsiderar a questão da sua presença na sociedade. Algo sobre o qual tanto um quanto o outro se concentram.

A oposição ao casamento para todos, que mostrou aos católicos que sua antropologia não era mais aceita pela maioria dos franceses, o impasse de uma encarnação política do catolicismo no [movimento político] Sens commun, o apoio infeliz a François Fillon, depois a hostilidade irracional para com Emmanuel Macron são as várias etapas de tal experiência.

No fim, resta apenas o gosto amargo de uma batalha perdida e da violência que marcou o confronto dentro da Igreja. François Huguenin se preocupa com essa deriva de uma parte desses católicos rumo a uma extrema direita intransigente, que se coloca voluntariamente fora de um sistema impopular. “Como a direita também os decepcionou, por que não ir (mais uma vez) à ultradireita que se atreve a levantar as bandeiras identitárias?”, pergunta-se Patrice de Plunkett. Uma evolução que, aliás, foi bem descrita por Jérôme Fourquet em seu livro A la droite de Dieu [À direita de Deus] (Ed. Cerf).

Existe uma espécie de “tradição” francesa, herança da Action Française, que afirma que uma parte do catolicismo sempre manteve com a República uma relação de intransigência e de rejeição. “Os cristãos adquiriram o hábito de confundir a afirmação de sua fé com o exercício do poder”, escreveu François Huguenin.

Uma corrente que viu o Papa Francisco como a vítima designada e derramou nas redes sociais, como mostra Patrice de Plunkett, um rio de ódio contra o atual bispo de Roma. Mas é precisamente a partir do Papa Francisco, da sua pregação, que nossos dois autores optaram por rever a relação entre o catolicismo e o âmbito político.

Eles levaram a sério, com o risco de chocar seu campo, as afirmações do atual papa: sua crítica à economia e aos mercados, suas injunções para colocar em primeiro lugar os pobres, os migrantes, os mais fracos abalam, provocam, mas também despertam.

Se o levarmos a sério, o Papa Francisco traça uma perspectiva para os cristãos e para sua ação na sociedade, dizem os dois autores, com esta frase-chave do pontificado: “Tudo está interligado”. Não é possível ser exigente no plano da ética moral, contrário ao aborto e rejeitar o direito à habitação e aos bens primários aos migrantes, aos necessitados e aprovar o liberalismo impiedoso que escava, todos os dias, abismos de desigualdade.

Tudo está interligado. Esses autores não se tornaram perigosos “esquerdistas”, mas simplesmente tiraram as conclusões, para os católicos franceses, de uma forma de profetismo vindo de Roma e baseado no Evangelho. Desse modo, recusam-se a ver o próprio Evangelho instrumentalizado pela política, em uma busca impossível de um reino cristão.

Esses autores estão preocupados com as derivas de uma certa direita católica, mas seus livros e o sucesso que encontram, demonstram que tal deriva diz respeito apenas a uma minoria que assumiu o poder nas redes sociais, mas não entre os bancos da igreja.

A partir desse ponto de vista, suas reflexões são um convite a sair da interminável guerra ideológica entre dois catolicismos – o de esquerda e o de direita – que devastam a Igreja há muito tempo. Ambos convidam a um diálogo pacífico dentro da Igreja, na diversidade de seus componentes, em torno dos verdadeiros desafios do século XXI. Talvez seja um “milagre Francisco” para a Igreja francesa...

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