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14 Fevereiro 2018

Ele vendeu dois milhões de cópias em um único mês apenas nos Estados Unidos. Provocou uma rixa entre Donald Trump e sua alma inimiga, Steve Bannon. Forneceu uma “arma fumegante”, ou prova do crime, talvez, para a investigação do Russiagate sobre a colusão Trump-Putin (foi Bannon que definiu como “traição” uma reunião secreta entre os russos, o filho e o genro do candidato republicano, dentro da Trump Tower). Mais muitos outros detalhes desconcertantes sobre o homem mais poderoso do mundo e os julgamentos ferozes que são feitos sobre ele por seus supostos amigos, conselheiros, colaboradores. Tudo isso está em “Fogo e fúria”, e desculpem se é pouco.

A reportagem é de Federico Rampini, publicada no jornal La Repubblica, 11-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O ensaio-revela-tudo sobre a Casa Branca está sendo publicado agora na Itália, depois de ter abalado os Estados Unidos. Ele foi definido como The House of Cards da era trumpiana, já que a série de televisão original foi superada pela realidade.

(Foto: Divulgação)

Michael Wolff é um velho conhecido para mim. Eu escrevo isso por transparência, mas, acima de tudo, para dar o sentido de uma parábola histórica vertiginosa comprimida em cerca de 20 meses. A última vez que nos vimos por um longo tempo foi durante a convenção democrata na Filadélfia, no verão de 2016. Nem ele, na época, podia prever o curso dos eventos; muito menos a improvável simbiose que o colaria a Trump; nem a chuva de royalties que faria dele um autor mais próximo da categoria de Dan Brown do que dos repórteres.

Eu o encontro para esta entrevista exclusiva em sua casa, a poucos quarteirões da redação da La Repubblica, no Hotel Village.

Eis a entrevista.

Que estouro! A primeira pergunta é obrigatória. Surpreso?

Claro. Eu esperava que o livro provocasse reações, mas o que aconteceu depois da sua publicação é inédito. Evidentemente, ele satisfaz uma enorme necessidade de entender esse personagem. Talvez não mude os julgamentos que já haviam se formado sobre ele, mas, ao lê-lo, tem-se a impressão de estar lá dentro.

Justamente: lá dentro. O que diabos veio à mente de Trump? Como ele pôde deixar você entrar na Casa Branca, transitar pelos corredores durante meses, enfiar o nariz, reunir confidências e, depois, esvaziar a bolsa? Ingenuidade? Inexperiência? Inconsciência?

Tudo isso e mais. A total desorganização desta Casa Branca pesou, e também a minha personalidade. Eu não sou o clássico jornalista político. Sou um velho escritor de revistas. Não lido com conteúdos, programas de governo. Sentei-me lá dentro e fiquei escutando. Sem um objetivo específico, de verdade. Não me interessava escrever sobre política. Eu queria absorver os cheiros. E eu gostava de falar com aquelas pessoas. Elas procuravam alguém para desafogar.

A figura de Bannon é central no livro, assim como foi durante toda a campanha eleitoral de Trump. Agora, esse personagem demoníaco, simpatizante da extrema direita racista e supremacista, realmente saiu de cena para sempre? Depois do choque do livro, a ruptura com o presidente é total?

O que aconteceu com Bannon é a consequência de uma série de erros de cálculo. Ele pensava que poderia fazer com que o candidato extremista Roy Moore vencesse na eleição senatorial do Alabama em dezembro (ao contrário, Moore foi derrotado por um democrata). Bannon teria se saído como um “fazedor de reis”, aquele que coroa os vencedores, e Trump, que havia se desvinculado da operação, teria sido o perdedor. Bannon já havia decidido romper com Trump, porque estava convencido de que esse presidente não era suficientemente fiel à sua agenda. Agora, para ele, eu vejo diversos cenário. Ele poderia até voltar para a Casa Branca, porque, na realidade, é provável que Trump precise. Ou Bannon pode destruir Trump, em uma batalha pelo controle da direita radical. Ou, enfim, poderia se dedicar a construir uma Internacional Populista, que ele considera outra missão histórica sua.

Tendo que resumir o impacto mais forte de “Fogo e fúria”: é a prova definitiva, eu diria quase cientifica, de que Trump não está apto a ser presidente. E então? O próximo capítulo a ser escrito, logicamente, qual seria? O impeachment? Ou sua interdição-substituição orquestrada por todos os outros membros do governo usando a 25ª emenda da Constituição, aquela que foi pensada, na realidade, para um presidente incapaz de entender e de querer depois de um ataque?

O fato de ele não estar apto à presidência era evidente ainda antes. A novidade do meu livro está em demonstrar que aqueles que trabalham com ele, para ele, também pensam isso. Aqueles dos quais ele depende para governar. Sobre os cenários, eu concordo com Bannon, que os divide em três probabilidades iguais: um terço da probabilidade para o impeachment, um terço para a 25ª emenda, um terço de probabilidade de que ele sobreviva até o fim do seu mandato, caminhando aos tropeços. Nenhuma probabilidade de ser reeleito para um segundo mandato. A verdadeira batalha daqui até 2020 é esta: entre aqueles que querem mantê-la e aqueles que querem tirá-lo. Será sangrenta.

Em parte, isso pode depender da investigação sobre o Russiagate, para a qual “Fogo e fúria” dá um novo material ao superprocurador Robert Mueller.

Sim, Mueller está se concentrando na reunião na Trump Tower da qual eu falo no livro e no comunicado com o qual a Casa Branca tentou defender Donald Jr. Eu prevejo que Mueller irá incriminar tanto o filho quanto o primeiro genro, Jared Kushner. Sobre o presidente, eu acho que Mueller publicará um relatório que o acusa de obstrução da justiça (crime de impeachment) e deixará que o Congresso tire as consequências. Assim, as eleições legislativas de novembro se tornarão um referendo pró ou contra o impeachment.

O caos na Casa Branca continuou mesmo depois da nomeação do general John Kelly como chefe de gabinete. Ele deveria trazer ordem e disciplina, mas agora ele também está com problemas.

O caos vem diretamente de Trump. E hoje ainda mais, porque esta Casa Branca está se esvaziando a golpes de demissões: dois conselheiros de alto escalão são Stephen Miller, a quem Bannon chamava de “meu datilógrafo”, e a ex-modelo Hope Hicks, de 29 anos.

Lido no resto do mundo, “Fogo e fúria” é inquietante pelos tremendos golpes contra o mito americano. Onde foi parar a liberal-democracia que muitas vezes consideramos como exemplar? Onde estão aquelas instituições republicanas que deviam impedir a deriva do Baixo Império?

O tema é exatamente esse. Trata-se de ver se as nossas instituições republicanas podem sobreviver a Trump, se podem gerir e conter o fenômeno Trump. Desde o primeiro momento, ele desafiou as instituições, as regras, a justiça. Tomou de assalto aquele que ele chama de governo permanente, que inclui o poder judiciário e o FBI. Mas era isso que estava em jogo desde a campanha eleitoral: “nós, povo” contra o establishment, o Estado. Ele quer despedaçar as instituições. Eu acredito que as instituições vão despedaçar ele. Mas certamente essa é uma batalha que terá um vencedor e um perdedor. E o resto do mundo vai assistir ao show, fascinado e atônito.

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