O complexo mundo de Panikkar

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12 Fevereiro 2018

“Todos querem me convencer a usar um computador (e-mail etc.). Eu resisto a ser engolido pela rede da rapidez, da conveniência, da comodidade e da eficiência que tem como contrapartida o abandono do ritmo humano. Rindo, eu digo que acho que possuo, sim, internet, mas não uso a externet”, escreveu Raimon Panikkar nos seus diários em 2005.

A reportagem é de Simone Paliaga, publicada no jornal Avvenire, 11-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

À época, ele se encontrava em Tavertet, no sopé dos Pirineus. Mesmo já com 87 anos de idade, Panikkar não renunciou a estar em relação com o mundo e com a vida, como testemunham os fragmentos dos diários reunidos em estreia mundial em L’acqua della goccia [A água da gota] (278 páginas), que chegará às livrarias italianas no próximo dia 15 de fevereiro, pela editora Jaca Book, que já está publicando a opera omnia do pensador catalão.

No entanto, trata-se de apenas uma primeira degustação do imenso corpus dos seus diários, que ele mesmo confiou aos cuidados de Milena Carrara Pavan. É difícil de definir quem é Panikkar. Nascido em Barcelona em 1918 de mãe catalã e católica e de pai indiano de religião hindu, nos arredores da guerra civil espanhola, em 1935, ele se refugiou na Alemanha, da qual se mudou, com uma rocambolesca viagem de bicicleta, em 1939, para completar seus estudos em Ciências na capital catalã e em Letras em Madri.

Em 1946, recebeu a ordenação sacerdotal e, no mesmo ano, obteve um doutorado na Complutense madrilenha. Oito anos depois, chegou a hora de outro doutorado, desta vez em Teologia, na Pontifícia Universidade Lateranense de Roma.

Aos 36 anos, para se reconciliar com a cultura do pai, chegou à Índia e fez uma memorável peregrinação às fontes do Ganges.

O encontro com a tradição filosófica indiana advaita, ou seja, da adualidade, fez amadurecer em Panikkar a consciência de poder se sentir ao mesmo tempo católico e hindu, consentindo, ao mesmo tempo, com a atração pelo budismo. Lá, trabalhou como pesquisador, enquadrado, porém, sob a diocese de Varanasi.

De 1966 a 1987, viajou frequentemente para os Estados Unidos, primeiro como professor visitante em Harvard e, depois, na Universidade da Califórnia, onde ocupou a cátedra de Filosofia Comparada da Religião.

No momento da aposentadoria, voltou para a Catalunha, onde levou uma vida ascética e animou o Vivarium, um centro inspirado no retiro homônimo do século VI liderado por Cassiodoro para favorecer a integração entre a fé cristã e a cultura clássica. A morte, que muitas vezes espreita entre as linhas dos diários nos últimos 15 anos de vida, chega em 26 de agosto de 2010. Um encontro ao qual Panikkar se aproximava há muito tempo, sem ansiedade, convencido de que a “preparação para a morte significa – anotava ele no seu diário no dia 2 de outubro de 1995 – viver a vida com intensidade e autenticidade, para não ter medo quando ela chegar. No lugar do akala mrtyu, haveria o kala mrtyu, a morte oportuna, libertadora, a vela que se apaga porque a cera já se consumiu”.

Dizer que os diários oferecem vislumbres sobre outro Panikkar seria um erro grosseiro, porque “todos os escritos de Panikkar – sublinha a curadora Milena Carrara Pavan – são autobiográficos. Todos representam não só um problema da sua mente, mas também a preocupação do seu coração e, mais ainda, o anseio real da sua existência inteira, que, em primeiro lugar, procurou esclarecer e analisar, estudando em profundidade, os problemas da vida humana”.

Porém, esses diários são mais do que um diário. “É um diário porque eu escrevo todos os dias, ou quase todos os dias; porém, são confissões e também uma autobiografia porque eu ponho a data nelas”, adverte o teólogo justamente nas frases iniciais de 1934.

Passam diante dos olhos do leitor os entrelaçamentos da sua longa vida. A fuga da Espanha inflamada pela guerra civil, o encontro com Josemaría Escrivá de Balaguer, assim como seu abandono do Opus Dei, os estudos de química, filosofia e teologia, a chegada ao Ganges e o impacto com as tradições hinduístas. Ele narra a sua frequentação com Bede Griffiths, monge beneditino inglês, sucessor de Henry Le Saux na direção espiritual de “Shantivanam”, um ashram cristão no sul da Índia, fundado por Jules Monchanin, promotor do diálogo inter-religioso entre catolicismo e hinduísmo, ou o encontro com o Dalai Lama em fuga do Tibete ocupado.

E também não se abstém da autocrítica quando fala do seu casamento e das suas relações atormentadas com a Igreja. Persuadido, no entanto, de “não ter a ‘sorte’ de poder escrever um diário como Eliade ou Guardini – magos da língua”, mesmo que, para ele, vida e pesquisa só têm sentido se estiverem entrelaçadas em um único abraço.

Portanto, a concepção cosmoteândrica e a meditação sobre a pericorese, que embebem a vida de Panikkar, certamente não podem ser consideradas estranhas ao ritmo da sua existência, onde tout se tient.

“Não posso negar – escreveu ele em 1980 – que sou um homo religiosus. A minha síntese deveria estar agora ao alcance das mãos. Fiz a experiência profana e vivi a vida secular. Gostaria, agora, de me retirar para um lugar sagrado e viver lá. Minha casa em Hot Springs é esplêndida, mas não é sagrada. É uma morada profana. Essa é a principal razão teórica para escolher o eremitério” na sua Catalunha natal.

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