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11 Fevereiro 2018

Os moradores da Vila do Bajo Flores dizem que o filho político do Papa acostumou-se a dormir ouvindo tiroteios e que mais de uma vez, desde que mora na Vila 1-11-14, há dez anos, acordou com um cadáver perto da porta de sua casa ou de sua Paróquia Santa Maria Mãe do Povo, onde está enterrado Ricardo Ricciardelli, companheiro do padre Carlos Mugica e um ícone do movimento dos padres terceiromundistas.

A reportagem é de Laura Di Marco, publicada por La Nación, 09-02-2018. A tradução é de André Langer.

Baixinho, com boa formação em teologia, crítico do capitalismo, Gustavo Carrara é reflexo de uma parte do inescrutável pensamento do papa. Condói-se com os dardos lançados contra Francisco pela dinâmica da divisão, mas também o ferem as facadas dialéticas de intelectuais como Sebreli, que, em seu último livro, acusa os apóstolos bergoglistas de romantizarem a vida nas vilas com o suposto objetivo de ancorá-las definitivamente na pobreza.

“Está tudo distorcido. É uma perspectiva míope, e é uma pena porque estão perdendo um líder”, diz o sacerdote que, no final do ano, foi feito por Francisco o primeiro bispo vileiro, uma designação com forte impacto político.

Aos 44 anos, este bispo heterodoxo, cuja referência intelectual é a Teologia do Povo, é uma mistura de estrela de rock da 1-11-14 e pai simbólico. Uma fotografia, que foi vista durante a cerimônia em que foi ordenado bispo auxiliar de Mario Poli, pouco antes do Natal, mostra quando os moradores do Bajo Flores o carregaram sobre os ombros na catedral de Buenos Aires. Francisco viu tudo do Vaticano, onde provavelmente se lembrou da primeira coisa que disse ao seu afilhado no dia da sua própria eleição: “Não sei se Deus quis que eu fosse papa, mas pelo menos permitiu. Estou em paz”.

Carrara é fruto da mutação ideológica de Francisco e compartilha com ele muitas leituras. Essa mudança é curiosa. Na década de 1970, Bergoglio não comungava com a Teologia da Libertação, com a qual Mugica se sentia em casa. Era uma teologia que analisava a realidade com categorias marxistas. No entanto, com o passar dos anos foi reivindicando sua figura e abaixando a temperatura daquelas visões extremas. A Teologia do Povo, remixada por Bergoglio, é uma versão light da Teologia da Libertação. Carrara explica-o da seguinte maneira: “É claro que a sabedoria não reside apenas nos intelectuais. Em1974, por exemplo, a Argentina tinha 4% de pobres e hoje temos 30%. Evidentemente, essa situação não é o resultado de decisões tomadas pelos mais pobres, mas pelos mais preparados”. A corrente tem suas próprias referências locais, como Lucio Gera e Rafael Tello.

Aqueles que conhecem os meandros da Igreja definem-no como filoperonista, embora essa atribuição não seja assumida explicitamente por ele, como acontece, pelo contrário, com outros bispos. Ele está longe de um perfil combativo como o de Jorge Lugones, bispo de Lomas de Zamora, que potencialmente poderia apoiar uma frente de oposição junto com os movimentos sociais e a CGT. Carrara e Lugones foram feitos bispos quase ao mesmo tempo, embora Francisco tenha colocado o lomense à frente da Pastoral Social. O bispo vileiro, ao contrário, é uma versão mais equilibrada de todo esse universo. Um universo que inclui o polêmico Juan Grabois.

A existência de uma Teologia do Povo sugere a configuração de um antipovo. Mas quem seria esse antipovo? Macri, Piñera? A incógnita permanece: por que Francisco, durante a sua viagem ao Chile, limitou-se a sobrevoar sua pátria? “Ele sobrevoa sobre tantos países e... não desce em todos eles”, reflete o bispo, em uma enunciação bergogliana. No fundo, ele sabe, no entanto, que a greta política seja, talvez, o principal obstáculo para a visita de Francisco à Argentina. O que aconteceria se uma parte da sociedade vaiasse o Papa em sua própria terra?

“Aqui (na vila) não existe esquerda ou direita; existe vontade de ter água, luz, viver melhor”, dirá aquele que sai para questionar Sebreli, autor de Deus em seu labirinto, onde critica duramente o papel da Igreja católica. O que mais parece afetar Carrara é a qualificação de conservadores populares ou, pior, de falsos progressistas. “Se eu quisesse manter os mais fracos na pobreza para manter minha ‘clientela’, digamos, por que teria uma escola de ensino fundamental e de ensino médio na vila? Por que assinaríamos convênios para que os jovens estudem na universidade?”

Ele parece conceber a Igreja – ou, pelo menos, seu setor, que nem sempre se sintoniza com a hierarquia tradicional – como um dique de contenção das desigualdades do capitalismo. Assim como o Papa, é leitor do filósofo argentino Rodolfo Kusch, esquecido e depois resgatado pelo kirchnerismo. Autor de vários livros sobre a Argentina profunda, Kusch mergulhou no DNA do pensamento indígena e latino-americano. Outra filósofa favorita é a espanhola Adela Cortina, autora de Aporofobia, a rejeição do pobre, livro que atualmente está lendo.

O seu posicionamento traduz-se em questionamentos: “Quem se ocupa das pessoas que não tiveram oportunidades, os ‘descartáveis’? O que você faz com um adolescente de 14 anos que tem sua vida hipotecada porque não comeu bem e esse déficit o limita intelectualmente? O que você faz com outro que consumiu ‘paco’ [droga refinada altamente viciante] e vai precisar de pelo menos 10 anos para se recuperar? Você deve ficar ao lado deles e acompanhá-los. Isso é ser conservador? De acordo com ele, o que falta é uma presença inteligente do Estado”.

E a proximidade do Papa com Milagro Sala? E o encontro com figuras polêmicas do kirchnerismo, dirigentes que grande parte da sociedade associa à corrupção? “Talvez Milagro Sala tenha começado com uma boa origem: há um sistema que, às vezes, corrompe os dirigentes. Talvez seja culpada, talvez inocente. É uma questão para se pensar”. Carrara refugia-se em um profundo silêncio e parece resgatar uma conclusão final: “Quem gosta de carros de luxo não deve se envolver com um movimento social, porque pode bastardear causas nobres. Não se pode servir a Deus e ao dinheiro”.

Os abusos sexuais na Igreja são outro karma. Francisco é atacado não apenas por ter apoiado o bispo Juan Barros no Chile, acusado de acobertar os abusos de outro sacerdote, mas também pela nomeação de vários bispos suspeitos. Carrara diz que o Papa está arrependido por aquela defesa cega e que agora está com dúvidas e procura ouvir as vítimas. A prova, sugere, é o envio ao Chile do arcebispo maltês Charles Scicluna, uma espécie de “007” do Vaticano para os casos de pedofilia.

Há aqueles que encontram uma conexão entre a repressão sexual a que o celibato obriga e os casos de abuso. Carrara irrita-se em silêncio com essa associação. Um sacerdote é fruto desta sociedade, deduz. Exemplifica com Hollywood, um contexto hipersexualizado que coloca em evidência que os “comportamentos inadequados” não ocorrem apenas quando a genitalidade está proibida.

Nos círculos de Carrara há uma máxima que diz: quando alguém se encontra com Bergoglio, sai com a sensação de que foi compreendido. Francisco parece penetrar profundamente na mente de seu interlocutor, mas seu interlocutor nunca conseguirá penetrar na dele: “Nunca tente saber o que pensa um jesuíta”, traduz o bispo, no austero escritório da Vila do Bajo Flores, onde mal tem um velho ventilador de pé para mitigar o sufocante calor de fevereiro.

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