A minha Igreja, entre Martini e Bergoglio. Entrevista com Bartolomeo Sorge

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10 Fevereiro 2018

Os anos de vida são quase 89. O padre jesuíta Bartolomeo Sorge, ex-diretor da revista La Civiltà Cattolica, ex-artífice da primavera de Palermo que abalou a sociedade mafiosa, o maior especialista em doutrina social da Igreja (foi recém-publicado, pela editora Queriniana, Brevi lezioni di dottrina sociale [Breves lições de doutrina social]), em crédito com a hierarquia (corriam os anos 1970 quando se desfez sua nomeação como patriarca de Veneza, ferindo sua fama de progressista), desembarcou em Gallarate, no Aloisianum, cidadela filosófica jesuítica. Seu quarto monacal é adjacente àquele em que Carlo Maria Martini transcorreu seus últimos dias.

A reportagem é de Bruno Quaranta, publicada no jornal La Stampa, 09-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Desde quando existia sua relação com Martini?

Eu o conheci nos anos 1960, em Roma. Um encontro mais aprofundado ocorreu em 1975, na 32ª Congregação Geral (uma espécie de Parlamento dos jesuítas), convocada para adequar as constituições da Companhia ao Concílio. Bergoglio também estava lá. Eu aperfeiçoei o entendimento com Martini no congresso sobre “Evangelização e promoção humana”, em 1976. Principais temas: a justiça e o compromisso político dos católicos.

O legado de Martini?

Seu problema: nutrir-se apenas da Palavra de Deus, querer ver os problemas com os olhos de Deus, que não são os do direito canônico.

Martini considerava que a Igreja estava atrasada em 200 anos...

Ele sonhava com uma Igreja jovem, próxima dos pobres, livre do poder, atenta às mulheres. Se entenderá que não se tratava de um sonho dele, mas sim de uma profecia que se tornou realidade, que está se tornando realidade com Francisco.

Martini convidava a se perguntar “se as pessoas ainda escutam os conselhos da Igreja em matéria sexual”. Quarenta anos atrás, a controversa encíclica de Montini, Humanae vitae. Como o senhor a considera?

No plano pastoral, inadequada, a pastoral subordinada à doutrina. Uma linha derrubada por Francisco: o sábado é feito para homem, e não vice-versa.

Da Humanae vitae à nova temporada, a exortação apostólica Amoris laetitia, em que não se exclui a comunhão aos divorciados em segunda união.

Não se trata de desvalorizar a doutrina, mas de afirmar – é um ponto central do Concílio – o primado da consciência. A Igreja pode formar as consciências, não as substituir. Não se vive necessariamente em pecado pelo fato de que uma norma não seja observada objetivamente.

Sobre a Amoris laetitia, alguns cardeais manifestaram graves “dubia”...

Por que se admirar com isso? O que me intrigaria seria um aplauso universal. Superar, tentar superar, como está acontecendo, costumes, observâncias, mentalidades de séculos é árduo.

Um encontro com o Papa Francisco?

No ano passado. Quando foi publicado o número 4.000 da Civiltà Cattolica. De mil em mil, a cada 44 anos. Quem levou o número 3.000 ao papa, então Montini, fui eu, na qualidade de diretor. “Sou um sobrevivente”, assim me apresentei a Francisco.

Como o senhor avalia Paulo VI?

No século XX, o maior papa, como santidade de vida e como modernidade de pensamento. Um pontificado crucificado. Repleto de obstáculos. Ele teve o mérito de salvaguardar o Concílio, de não apagar a sarça ardente que ele é. Uma Igreja, a dele, no mundo, mas não invadida pelo mundo. A escolha religiosa como bússola.

João Paulo II não foi assim.

Não foi assim. Como sensibilidade cultural, ele estava nos antípodas de Montini. Ele, militante contra o comunismo. Entendia a Igreja como uma força social. Considerava que países como a Polônia e a Itália deviam tudo à Igreja. E que, portanto, cabia à Igreja arrasar o Estado. Para triunfar, a unidade política dos católicos.

Católicos e política. Em que ponto estamos?

Com a crise das ideologias, declinou também o partido católico. Francisco deseja uma boa política. Para construí-la, homens e mulheres de fortes ideais e de sólido profissionalismo. Evitando os encastelamentos, indo por todas as ruas. Modelando, pouco a pouco, uma sociedade de “livres e fortes” – de memória sturziana [de Luigi Sturzo, 1871-1959, padre e político italiano] –, que não eram os católicos, que não são os católicos.

O Partido Democrático nasceu com a intenção de harmonizar a inspiração católica, a inspiração socialista e outras ideologias seculares. Um projeto que encalhou, não acha?

Sim, é claro, e o que pesou muito foram o caráter e a forma mentis de Matteo Renzi. Mas o projeto não deve ser descartado.

Os católicos na política. Quarenta anos atrás, o assassinato de Aldo Moro, arauto do catolicismo democrático. Sua lição?

Sua intuição: projetar no futuro os ideais cristãos traduzidos secularmente. Uma profecia.

A Igreja não está excessivamente ancorada no aqui e agora, cada vez menos transcendental?

Não, a Igreja não pode esquecer seu depositum. E não o esquece. Da Páscoa da ressurreição ao dia de finados, certamente é possível refletir sobre as coisas últimas. E, de todos os modos, a vida eterna não começa com a morte, começa com a nossa vida. Justiça, pobreza, sofrimento. Foram questões muito negligenciados no passado.

O convite de Francisco, “voltar ao Evangelho”, não ofusca a teologia?

A teologia é necessária. É a mente humana que se interroga sobre Deus. Mas há uma diferença profunda que Francisco esclarece. Por um lado, o Ocidente, a teologia como sistema lógico e racional, São Tomás e a Escolástica. Por outro, a América Latina, onde, vice-versa, livramo-nos das superestruturas, onde se põe o Evangelho em debate com as situações concretas, tentando entender o que fazer. Com todo o respeito àqueles que, em Roma, em vista da Conferência de Puebla, em 1979, me alertava contra figuras como Helder Câmara e Romero, rotulados como comunistas. Eu os conheci, eram dois santos, autênticos teólogos da libertação, isto é, teologia que liberta, subtraída de qualquer hipoteca ideológica, limpidamente evangélica.

* * *

Quem sabe, um dia, o telefone tocará na cela do padre Sorge. Do outro lado da linha, ele, Francisco, que lhe comunica a vontade de criá-lo cardeal. Unicuique suum.

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