Francisco sobre universidades eclesiásticas enraizadas no Concílio Vaticano II, mas, claramente, Francisco

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09 Fevereiro 2018

"Ver Francisco como uma ruptura clara do estilo de seus predecessores é inegável, mesmo em termos de pontos de referência teológica, mas e em termos de doutrina?", questiona Michael Sean Winters, em artigo publicado por National Catholic Reporter,07-02-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Eis o artigo.

Com a viagem papal ao Chile e ao Peru dominando as manchetes do Vaticano e o discurso sobre o Estado da União tendo capturado a atenção da nação, ficou fácil perder de vista o fato de que o Papa Francisco emitiu uma constituição apostólica na semana passada, Veritatis Gaudium (A alegria da Verdade), sobre o tema das universidades e faculdades eclesiásticas, ou seja, escolas que conferem grau pontifício. Os papas vêm e vão, mas os documentos tendem a ter um impacto duradouro, e esta não é uma exceção, pois atualiza a última constituição apostólica sobre o tema, Sapientia Christiana, emitida em 1979.

O mais óbvio sobre este texto é a consciência de estar baseado nos decretos do Concílio Vaticano II e no magistério dos papas anteriores, embora um estilo e perspectiva característicos de Francisco. O primeiro parágrafo diz o seguinte:

A alegria da verdade (Veritatis gaudium) é expressão do desejo ardente que traz inquieto o coração de cada ser humano enquanto não encontra, habita e partilha com todos a Luz de Deus. Efetivamente a verdade não é uma ideia abstrata, mas é Jesus, o Verbo de Deus, em quem está a Vida que é a Luz dos homens (cf. Jo 1, 4), o Filho de Deus que é, conjuntamente, o Filho do homem. Só Ele, «na própria revelação do mistério do Pai e do seu amor, revela o homem a si mesmo e descobre-lhe a sua vocação sublime».

Trata-se de uma citação não apenas do Concílio Vaticano II, mas da passagem mais citada pelo Papa São João Paulo II em seus muitos escritos, Gaudium et Spes (#22). E é o parágrafo mais importante para a teologia de Henri de Lubac e a escola de teologia Communio, que tanto influenciou o Papa Bento XVI.

Além de seu pedigree magistral e teológico, a afirmação é surpreendente por conta própria: para nós, católicos, e para nossa vida intelectual, não apenas nossa vida de oração, a verdade é uma pessoa, não um conceito, uma pessoa em particular na história, Jesus de Nazaré, Cristo, o Deus verdadeiro do Deus verdadeiro, que se tornou carne e, assim, nos revela humanos para nós mesmos. Devo ter lido GS #22 milhares de vezes, e ainda fico arrepiado.

O trecho, como deveria, também traz uma consciência do quão diferente deve ser o nosso modo cristão de olhar em relação à forma como uma pessoa secular o enxergaria. Há o velho ditado de que não uma maneira católica de fazer as coisas, ou que 2 + 2 = 4 em todas as religiões, mas, para o cristão, olhamos para toda a realidade de forma diferente porque a encarnação mudou nossa compreensão de nós mesmos, em nossa percepção, e da criação que percebemos. Exatamente como foi criado, olhamos o mundo e vemos dons, não dados. Também podemos, posteriormente, ver dados, mas primeiro temos de ver os dons.

No segundo capítulo do texto, vemos o quanto o Papa Francisco está, como já observei, disposto a reviver o patrimônio do abençoado Papa Paulo VI, com "Evangelii Nuntiandi e Populorum Progressio, e Redemptor Hominis, do Papa João Paulo II, emitidos apenas um mês antes da promulgação da Constituição Apostólica, são marcos no caminho rumo a estas diretivas do Concílio Vaticano II a Sapientia Christiana". Não é mera declaração de proveniência. Ele está ligando evangelização, doutrina social católica e soteriologia como blocos críticos de construção da educação eclesial católica, vendo-os como um todo integral, embora completamente diferente do integralismo pré-Vaticano II que procurou manter a Igreja separada do mundo. Quando escreve que "Populorum Progressio interpreta com visão profética a questão social como uma questão antropológica, que afeta o destino de toda a família humana", ele está chamando a atenção para uma interpretação-chave para todo o ensinamento pós-conciliar, que é por que é tão frustrante que a doutrina social católica permaneça o principal segredo da Igreja.

O toque pessoal de Francisco emerge na terceira seção, onde ele escreve: "constituem também uma espécie de providencial laboratório cultural onde a Igreja se exercita na interpretação performativa da realidade que brota do evento de Jesus Cristo e se nutre dos dons da Sabedoria e da Ciência, com que o Espírito Santo enriquece de várias formas o Povo de Deus: desde o sensus fidei fidelium ao magistério dos Pastores, desde o carisma dos profetas ao dos doutores e teólogos." É difícil imaginar o Papa São João Paulo II usando a expressão "providencial laboratório cultural" ou mencionando o sensus fidei fidelium juntamente com o magistério dos bispos!

Francisco estabelece quatro critérios para a renovação e o renascimento das faculdades eclesiásticas. Primeiro, "contemplação e a introdução espiritual, intelectual e existencial no coração do querigma, ou seja, da feliz notícia, sempre nova e fascinante, do Evangelho de Jesus, «que cada vez mais e melhor se vai fazendo carne» na vida da Igreja e da humanidade." O toque de Francisco é o lembrete de que Cristo "que cada vez mais e melhor se vai fazendo carne» na vida da Igreja e da humanidade", ainda que a centralidade do querigma seja muito reminiscente de todo o ensino magistral pós-Vaticano e do Concílio Vaticano II.

O segundo critério é puramente Francisco: "Segundo critério inspirador, intimamente coerente com o anterior e dele derivado, é o diálogo sem reservas: não como mera atitude tática, mas como exigência intrínseca para fazer experiência comunitária da Alegria da Verdade e aprofundar o seu significado e implicações práticas." Quantas vezes ouvimos os apologistas religiosos descreverem o diálogo precisamente nos termos táticos que o Papa Francisco aqui afirma que não apenas são insuficientes, mas um profilático evangélico, nos impedindo do fruto genuíno do diálogo? Confira o vídeo (em inglês) abaixo do bispo Robert Barron. Vá ao minuto 03:00 e veja um exemplo de "abordagem tática" e, depois, novamente, ao 06:50.

 

O terceiro critério poderia ter sido escrito pelo Papa emérito Bento XVI: "a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade exercidas com sabedoria e criatividade à luz da Revelação. O que qualifica a proposta acadêmica, formativa e de investigação do sistema dos estudos eclesiásticos, tanto a nível do conteúdo como do método, é o princípio vital e intelectual da unidade do saber na distinção e respeito pelas suas múltiplas, conexas e convergentes expressões." A necessidade de sintetizar todos os nossos esforços intelectuais "à luz da revelação" é, muitas vezes, o que falta no ensino superior, no qual se tem crédito — e é publicado — ao romper com uma síntese existente, não ao procurar sintetizar sua aprendizagem à luz da verdade que foi revelada.

"O quarto e último critério", escreve o Papa Francisco, "diz respeito à necessidade urgente de «criar rede» entre as várias instituições que, em todas as partes do mundo, cultivam e promovem os estudos eclesiásticos, ativando decididamente as oportunas sinergias também com as instituições acadêmicas dos diferentes países e com as que se inspiram nas várias tradições culturais e religiosas, dando vida simultaneamente a centros especializados de investigação com a finalidade de estudar os problemas de grandeza epocal que hoje investem a humanidade, chegando a propor pistas oportunas e realistas de resolução."

Concordo com ambas as partes. É mais do que notável o quão pouco nós, gringos, sabemos sobre a teologia do povo que formou a teologia do Papa Francisco. E a referência a "problemas de grandeza epocal que hoje investem a humanidade" refere-se às crises ambientais e culturais do nosso tempo. Pergunto-me quantos seminários têm se dedicado a ensinar sobre questões ambientais? Lendo esta seção, percebi, como nunca tinha percebido, a profunda influência de Bento XVI sobre Francisco.

O resto do documento estabelece normas gerais e específicas detalhando a primeira seção do documento visionário.

Lendo esta constituição, lembrei de uma coisa que tinha esquecido. Quando li Amoris Laetitia pela primeira vez, fiquei impressionado com o fato de que o Papa citou as declarações do patriarca ortodoxo, várias conferências episcopais e os relatórios dos sínodos, mais do que Exortações Apostólicas anteriores, mas também que Francisco fez questão de demonstrar como Amoris foi um desenvolvimento da doutrina do Concílio Vaticano II e de seus predecessores na cátedra de Pedro. Com toda a controvérsia, tinha esquecido este último ponto. Ver Francisco como uma ruptura clara do estilo de seus predecessores é inegável, mesmo em termos de pontos de referência teológica, mas e em termos de doutrina? Não. Ele, assim como eles, está trabalhando a partir da revelação, da tradição e dos decretos do Concílio Vaticano II. Uma ênfase pode alterar aqui, um novo tema ser introduzido ali, mas esta nova constituição prova ainda mais que Francisco não é nenhum radical. Ele é o sucessor de Pedro, assim como seus antecessores.

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