Bento, o peregrino e aquele gesto simples, sinal de força e humildade

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08 Fevereiro 2018

A carta, “Urgente em mãos”, chegou nessa terça-feira de manhã na sede romana do Corriere, vinda do “Monastero Mater Ecclesiae, V-120 – Città del Vaticano”: o eremitério dentro dos Sagrados Muros, para onde o Papa Emérito Bento XVI se retirou desde que renunciou, há exatamente cinco anos.

O comentário é de Massimo Franco, publicado no jornal Corriere della Sera, 07-02-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Mas parecia ter chegado de outro mundo, muito mais distante do que os poucos quilômetros que marcam a distância física daquele lugar. Talvez porque o envelope continha um cartãozinho dobrado e, dentro, outro envelope selado, com uma mensagem de nove linhas.

Mas, acima de tudo, porque transmitia palavras fortes, verdadeiras, não formais: um gesto de requintada atenção para com aqueles que, ultimamente, perguntavam cada vez mais frequentemente como estava o “Papa Bento”; como ele vivia aquilo que ele mesmo chama, no texto, de “este último período da minha vida”.

Há alguns dias, através de um canal reservado, tínhamos dirigido a pergunta a ele, confiando em receber uma resposta. Depois de cinco anos em que ele praticamente desapareceu do horizonte público, encontrando-se com poucos amigos e até diminuindo os seus passeios pelos jardins vaticanos, ajudando-se com um andador, talvez ele pensava ter sido esquecido.

Ele não sabia que sua figura permanece muito presente, com a sugestão epocal de um período em que convivem “dois papas”, expressão não exatamente ortodoxa, mas habitual. De fato, o mistério dos seus dias sem eco público, com imagens desfocadas e aparições cada vez mais raras em algumas cerimônias às quais ele era convidado por Francisco, afiaram e, ao mesmo tempo, agigantaram o seu perfil.

Bento “existe”, paira sem querer. Ou, melhor, talvez esteja enraizado na memória da opinião pública, precisamente porque tentou se dissolver em um limbo existencial para deixar toda a cena ao sucessor: aquele cardeal Jorge Mario Bergoglio “que tem a caligrafia menor do que a minha”, observou Joseph Ratzinger uma vez.

Mas a dele, à caneta, no fim da carta, já é minúscula: quase se encolhe junto com suas energias físicas, evidenciando a dificuldade até para escrever. Contam que, em particular, ele diz isso com um toque de tristeza: não consegue mais dedicar tempo suficiente para construir aqueles textos de grande refinamento teológico que traçaram durante anos o caminho da Igreja Católica.

No entanto, ele aceita sua fragilidade. Nas suas palavras, que são um agradecimento e, ao mesmo tempo, quase uma despedida, capta-se mais do que uma referência a isso.

Aquela referência à “lenta diminuição das forças físicas”, a confissão de estar “interiormente em peregrinação para Casa”, com o C maiúsculo, e o “agradecimento” aos “tantos leitores” do Corriere que continuam perguntando dele: são poucas palavras medidas, mas que transmitem uma grande profundidade.

Talvez, na admiração e em um pouco de nostalgia por Bento XVI que se sente, aqui e acolá, em alguns setores do mundo católico, pode-se adivinhar o trauma não totalmente digerido da sua renúncia, no dia 11 de fevereiro de 2013: uma reviravolta epocal.

Mas há também o reconhecimento de uma conduta exemplar entre ele e o Papa Francisco nesses cinco anos. Uma convivência não regulada por nenhuma lei; confiada apenas ao caráter desses dois personagens tão diferentes, apesar de uma ênfase, às vezes um pouco oficial, da continuidade entre seus pontificados.

Não era óbvio que “dois papas” no Vaticano conseguissem manter uma personalidade tão distinta, sem, por isso, se sobreporem ou, pior, transmitir mensagens de divisão. Se, por acaso, houvesse diferenças, elas permaneceram como um segredo guardado entre eles: como se ambos soubessem que o importante é tentar manter unida uma Igreja sacudida por milhares de tensões.

É um sinal de força espiritual e de humildade, que sublima quando, dirigido àqueles que continuam se interessando por ele, saúda com um tom quase familiar: “Só posso agradecer”.

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