A biopolítica escrita no corpo

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08 Fevereiro 2018

O corpo é o protagonista em La salud inalcanzable. Biopolítica molecular y medicalización de la vida cotidiana (editora Eudeba), livro onde todas aquelas coisas que parecem inofensivas como o fitness ou a esperança depositada em um creme antienvelhecimento não são tanto assim. Porque são instrumentos detalhados de dispositivos que alimentam a vontade (esse lugar onde são exercidas as tecnologias do eu), presa a uma forma de controle. Uma forma que leva os sujeitos a se alistar em uma moral saudável.

Os doutores em ciências sociais Flavia Costa e Pablo Rodríguez são compiladores de textos sobre neurociências e estudos de casos. Assim identificam as matrizes contemporâneas da biopolítica, expressadas na exigência e em um ethos de felicidade como medicalização e beleza, mas também como um capital para conquistar o que se deseja.

As neurociências terão a ambição de apagar qualquer interpretação social. E a materialidade do corpo, como uma plataforma experimental sobrecarregada de sinais sobre a qual se realizarão os procedimentos de subjetivação, torna-se uma entidade similar ao ser.

A entrevista é de Alejandra Varela, publicada por Clarín-Revista Ñ, 06-02-2018. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

O livro demonstra como o paradigma cartesiano de separação entre corpo e alma foi substituído por uma preocupação quase exclusiva com o corpo. Deste modo, o estímulo a nos preocuparmos com a aparência não deveria ser lido como algo superficial, porque esse corpo explicaria o que somos?

Costa: Esse dualismo está sendo submetido a um aplanamento: os polos do espírito e a matéria, transcendente e imanente, estrutura profunda e manifestação de superfície, começam a se desdiferenciar de uma maneira bastante particular. Supor que nos substratos ínfimos do biológico, como nos genes, há uma espécie de “código da vida”, é um sinal disto. Neste marco, entende-se que a tarefa do cuidado de si se volta para o corpo. E implica, como você diz, uma dupla inquietação: em relação à dotação biológica, que é o mais íntimo, mas também o mais impessoal em nós mesmos; e em relação à aparência, do corpo que se apresenta diante dos outros. Os dois planos nos estimulam a assumir o controle e não nos deixar ser. Só que hoje coexistem diferentes opções entre as quais o sujeito deve saber escolher, e para as quais o mercado oferece vastos repertórios de bens e serviços: cuidados preventivos (testes genéticos, reserva de células-tronco em bancos), opções dietéticas, práticas fitness, combinação entre medicamento convencional e medicamentos alternativos ou complementares. A partir de diferentes discursos o sujeito é interpelado como um usuário de si prudente, que deve saber encontrar qual é o kit adequado.

Também existe a suposição de que estes critérios de normalização despolitizam e, na realidade, há uma politização de espaços que não são lidos como política.

Rodríguez: Um dos objetivos do livro e do projeto de pesquisa UBACyT era buscar ver dois fenômenos que estão relacionados: o avanço tecnocientífico em ciências biológicas e os modos de subjetivação que se relacionam com ele. Michel Foucault enxergou muito cedo, em 1978-79, o funcionamento da lógica neoliberal em termos de tecnologias de subjetivação. E a isto que você mencionava como uma forma política que não se identifica como tal, Foucault chama de normalização, inclusive criticando a si mesmo, porque disse que até aquele momento tendia a interpretar o processo como a adesão a uma norma fixa, quando na realidade o dado central é que a norma se desloca. Isso é o que permite o jogo incessante entre formas de saber e de subjetivação, e biopolítica é um nome possível para esse jogo.

Como esta normalização se realiza sempre a partir de noções positivas, que gerariam conquistas materiais e pessoais, o conflito fica no interior do sujeito, não se consideram as determinações sociais.

Rodríguez: No século XX, era comum supor que os problemas eram sociais e que havia uma reverberação subjetiva. Agora, ao contrário, ao se colocar o acento em que o indivíduo precisa ter todos os conhecimentos para solucionar seus próprios problemas, há uma exigência que não é possível ser cumprida, não só pela multiplicação de saberes aos quais seria necessário ter acesso, mas pelo fato de que se é 100% responsável por seus problemas. Esta pressão sobre o indivíduo se manifesta em um imperativo da saúde que é inalcançável, pois justamente a norma se desloca, e isto se demonstra pela quantidade de leis sobre saúde que foram aprovadas nos últimos anos. Acredito que a tendência na saúde pública é o deslocamento daquilo que se considera normal e anormal, pelo qual diferentes anomalias são catalogadas como enfermidades, gerando o que Foucault chamava de “economia política da medicina”. É o Estado, através destas leis, que garante essa economia política. Vejamos o exemplo da chamada “lei da obesidade”. Ser gordo supõe uma enfermidade em relação a um índice de massa corporal que, em alguns anos, mudará e gerará novos “gordos”. É uma fita sem fim.

Costa: Há algo que se enlaça com o que Walter Benjamin chamou de “capitalismo como religião”, uma religião de culto permanente, onde o eixo não é a salvação, mas, ao contrário, a dívida, ou a culpa: sempre se está em dívida, um pouco em falha. Diferentes dispositivos se assentam sobre esse operador muito eficaz, em confluência com a interpelação aos sujeitos como empresários de si e com a multiplicação da oferta de novos produtos para suprir as supostas carências. A timidez, por acaso, passa a ser entendida como um transtorno a ser corrigido, como se não pudesse ser aceita como parte da experiência do humano.

Como pensar o momento atual da biopolítica onde, ao mesmo tempo em que se observa este cuidado de si, de potencializar o capital humano, também existe uma ideia de vidas prescindíveis que são postas, como destacava Giorgio Agamben, em um estado de morte não punível?

Rodríguez: Na noção de biopolítica de Foucault, as políticas de administração da vida também são políticas de administração da morte. Trata-se de ações e não de noções e definem, ao mesmo tempo, o tipo de vida que se quer preservar e o que se deixa morrer. O aumento da população descartável vai de mãos dadas com o fato de que aqueles que permanecem do lado de dentro são os que devem ser atendidos em seu envelhecimento. Essa ideia está no livro, nos artigos de Paula Sibilia e Paula Rodríguez Zoya. Constrói-se a ideia de velhice como uma enfermidade a ser tratada e revertida, não como um fato biopolítico. Quando se toma o caso da Europa, há a população que vai envelhecendo e os excluídos que são os que não chegam a envelhecer e mantêm a taxa de natalidade crescente. Isto é um grande problema em nível biopolítico.

Costa: Em um marco biopolítico, os poderes exercem o direito de morte ou de abandono em nome da vitalidade do conjunto. Isso está nas primeiras formulações da tese, quando Foucault descreve a função histórica do racismo: justificar o exercício de matar em nome da vida. Não tanto no sentido pessoal, “minha” vida, mas que, segundo essa racionalidade, a morte do “inferior”, do “anormal”, beneficiaria a vida da espécie ou da raça, a tornaria mais sadia, pura. Uma vida “normal”, um país “normal”.

Também a biopolítica, em um dado momento, se torna uma forma de resistência. Digo isso pensando que o sujeito que adere a este imperativo de saúde e beleza nem sempre é dócil e pode usá-lo para outros fins.

Rodríguez: No final de A vontade de saber, Foucault expõe que em nome da vida são produzidas as formas de sujeição, mas, ao mesmo tempo, a reivindicação da vida está na base da luta. Para resistir não é necessário sair do dispositivo, porque é aí onde você precisa se instalar para lutar; caso contrário, não lutará contra nada. O dispositivo arma a trama, que inclui as lutas. Destaco isto para que não fique a impressão de que se trata somente da ofensiva de uma salutización generalizada (salutización é uma tradução certamente ruim da palavra em inglês healthism). Depende de cada estratégia dentro do dispositivo fazer uma reivindicação de algo relativo à saúde que não nos faça necessariamente “neoliberais”. Diante de um fato pontual, uma lei, uma medida de governo, é preciso se perguntar quem são os que se beneficiam, quem são os prejudicados e quem são os que ficam de fora.

Marx já destacava um processo de subjetivação da mercadoria, mas o que vemos hoje na publicidade é que aos produtos antienvelhecimento é conferido um valor que acaba se cumprindo no corpo como mercadoria e esse corpo é nossa identidade.

Rodríguez: Segundo a teoria do capital humano, você dá ao seu corpo um valor como mercadoria. Contudo, você é o responsável pelo cuidado de seu corpo. Em termos marxistas, esse corpo tem um valor de uso para você mesmo, mas ao dizer isto nos instalamos no maior triunfo da lógica do capital humano, porque resulta que a partir daí você começa a entender sua relação com o corpo em termos de investimentos. Seria possível pensar que, seguindo Marx, em algum momento, o capitalismo consistia em que nossa relação de sujeitos era mediada pela mercadoria, que nos coisificávamos ao mesmo tempo que os objetos se espiritualizavam. É disso que se tratava o famoso “fetichismo da mercadoria”. A ideia é que hoje toda esta lógica se processa no próprio corpo, pois somos mercadoria de nós mesmos, um mecanismo especular que não termina e que se transforma em uma normalização indefinida.

Costa: Essa ideia do homo economicus que otimiza seu próprio capital é, diz Foucault em o Nascimento da Biopolítica, a grade de inteligibilidade que se propõe sobre o comportamento de um indivíduo para poder governá-lo ou se governar. Pode-se adotar essa grade para o autogoverno: invisto em mim para me valorizar no mercado do prazer ou do trabalho; vejo-me como um capitalista que busca ser exitoso. Esta figura implica a totalidade do que somos? Claro que não. É, com tudo o que isso implica, a interface entre o indivíduo e o poder que se exerce sobre ele.

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