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23 Janeiro 2018

Da visita do Papa Francisco ao Chile e ao Peru restará uma foto construída pelos meios de comunicação: o suposto encobrimento de um bispo suspeito por acobertar pedofilia. Ao mesmo tempo, Francisco é o único capaz de reunir multidões de pessoas. Qual é a razão disso?

O artigo é de Emilce Cuda, doutora em Teologia, UCA, pesquisadora da UNAJ, UBA e UCA e coordenadora regional da Clacso, publicado por Página/12, 22-01-2018. A tradução é de Henrique Denis Lucas.

Diz o tango "Qué falta que me hacés": "Se visse a ternura/ que tenho para te dar./ Sou capaz de fazer um mundo e te dar depois./ E então se eu te encontrar / seremos novamente, / desesperadamente / os dois para os dois".

Para Francisco, Deus é isso, quem cria um mundo, por pura ternura, para dá-lo depois; e também é capaz de sustentá-lo isso na boa vida. Um tango. A linguagem do símbolo, advindo da sabedoria popular, sem metafísica - como diz o poeta Fernando Pessoa -, capaz de tornar presente o todo na parte; capaz de unir a diferença sem aniquilá-la. Daí vem a relação; a lógica justa de um para o outro, o amor. Gritar um nome apaixonado.

Por analogia, pode pensar-se que o senhor é quem cria um mundo e pode sustentá-lo. Se por economia entende-se uma promessa de amor sustentada e sustentável, então observa-se que não será qualquer um a poder ocupar o lugar do senhor. Um deus é quem cria um mundo com a palavra, mas depois o sustenta com os feitos. Tanto na teologia, quanto na política e no amor, sabe-se por experiência que criar mundos é uma tarefa sedutora que qualquer um pode fazer, mas sustentá-los na boa vida só é uma capacidade de um verdadeiro senhor, que, por assim sê-lo, será reconhecido, entronado e elogiado por seu povo, que em assembleia pública lhe dirá: Laudato si, meu senhor!

Desta forma, a economia sustentável só pode ser obra de um senhor verdadeiro e providente, o oposto do falso deus que fundamenta o atual modo relacional, a de uma "cultura da morte", de acordo com o Documento de Aparecida e a de uma "economia que mata", de acordo com Evangelii Gadium. Para Francisco, o deus criador do mundo dos últimos dois séculos, ou seja, o deus-dinheiro, não é um deus verdadeiro. Esta posição social, teológico-política, gera tensão.

Diante da evidência de uma economia que mata, o Papa fala de injustiça social, mas lhe respondem com moral sexual. Longe de ser um diálogo de surdos, ele próprio se explica. Tanto em sua Exortação Apostólica Evangelii Gadium, quanto em sua Encíclica Laudato si, Francisco responsabiliza o sistema de relações econômicas assimétricas atuais por gerar uma "cultura do descarte". Curiosamente, o sistema lhe responde com uma acusação sobre uma de suas exortações apostólicas, Amoris Laetitia, sobre moral sexual privada.

Sabe-se – como hoje explicam de Chantal Mouffe até Pierre Rosanvallon, para não mencionar os autores do passado como Carl Schmitt e até mesmo o próprio Homero - que ignorar a demanda social em troca da sinalização da falta de moral, é a maneira de ignorar no outro um adversário político para logo criminalizá-lo sob a égide da corrupção ou da heresia. Assim, a opinião pública adquire poder de polícia, apontando a falta de moral como um modo de inibição social. Sabendo disso – especialmente entre os papafóbicos, mas amigos do povo –, antes de contabilizar as falhas, poderia reconhecer-se em Francisco a capacidade de reunir nas ruas 2 milhões de jovens, algo que nenhum líder político atual e nem mesmo um rockstar é capaz de conseguir. Isso indica que (parafraseando o seu Discurso para os Sacerdotes e Religiosos no Chile) ser um Papa do Povo "está saindo caro".

O sucesso político é medido pela capacidade de representação. Se você considerar o número de pessoas que são representadas pelo Papa latino-americano no mundo, com sua legitimidade moral – religiosa e política –, transversal às fronteiras geográficas, sociais e ideológicas, dentro e fora do catolicismo, a crítica que seu discurso profético desperta não deveria ser surpresa. Ele não cai nas armadilhas do debate porque não se sente em débito. Por outro lado, ele escuta o necessitado e "Ao ver a multidão" (Mateus 5.1) encontra o gesto que lhe permite construir a ponte do diálogo com seu povo.

Um Pontífice que tem um discurso sobre igualdade e misericórdia com reconhecimento universal é uma presa nada depreciável para a polícia da linguagem. Se, além disso, critica o clericalismo e dá poder ao leigo dizendo que "eles não são empregados do clero", convoca os povos da região amazônica para organizarem-se e "se auto-definirem para nos mostrar sua identidade", denuncia o extrativismo, a poluição ambiental, os diferentes modos de imperialismo, a ocupação de terras para fins comerciais e diz que o termo "tráfico humano" é uma forma de encobrir a escravidão trabalhista e sexual: então, ele é um verdadeiro profeta urbano do século XXI.

Dentro do grupo da papafóbicos, aqueles que optaram pelos pobres parecem não estar suficientemente armados diante das tentações modernas que se manifestam nos discursos hegemônicos e se somam às fileiras da discórdia, fixando a atenção no que ele não disse. Mas Francisco diz. Ele fala com o povo. Ele não se dirige aos poderosos. Ele convoca os fracos para conversão, a perdoarem a si mesmos sobre as falhas que o sistema lhes gera para justificar sua exclusão, assim como as traições que a desolação pela derrota gera.

Francisco é um sinal dos tempos de que algumas pessoas omitem que sabem onde encontrar a falha, em honra à opinião pública. O poder moral pontifício sempre foi uma ameaça à soberania absoluta. A novidade é que o pontífice está com o povo. Somente em pregar a lógica da unidade na diferença, Francisco já é uma ameaça, e sua homilia no aeroporto de Temuco é uma aula de mestre. Portanto, o problema está no que ele diz e quem ele visita, porque com Francisco o discurso teológico deixou de ser apenas o relato da opção preferencial pelos pobres para tornar-se uma prática cultural da "opção radical pela vida", como disse no Chile, endossando as palavras de Gabriela Mistral.

Francisco não fala da pobreza, mas da riqueza como origem da desigualdade. De acordo com Thomas Piketty, 1% da população possuirá 90% da riqueza no século XXI. A concentração da riqueza alcançará no século XXI os níveis do século XIX. Mais uma vez estaremos diante de uma sociedade patrimonial, que rende uma alta concentração de capital e uma baixa produtividade. Embora a utilidade marginal, juntamente à educação, a formação e a tecnologia expliquem a evolução do capital geral de uma sociedade a longo prazo, a curto prazo o capital estará integrado no 1% da população. Para Piketty, "uma desigualdade tão extrema se sustenta não apenas com a eficácia de um aparelho repressivo, mas também com a eficácia de um dispositivo de justificação".

As normas sociais geram a aceitação tanto da pobreza quanto da riqueza. Nos sistemas de crenças sobre a contribuição das pessoas na produção e no crescimento do país é, de acordo com Piketty, onde é preciso intervir. Se o problema está nas crenças que sustentam a atual percepção da riqueza, trata-se então uma Teologia da Cultura, de uma conversão cultural no modo de justificação da desigualdade. Francisco estará fazendo isso? Será essa a razão pela qual não passa despercebido nem para o povo, nem para os meios de comunicação hegemônicos?

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