''Conheci seis papas e tive duas namoradas. Nós, monges, somos peritos em ateísmo.'' Entrevista com Enzo Bianchi

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20 Dezembro 2017

Enzo Bianchi é um homem pequeno e verdadeiro. Ele se define como “terrigno”, “terrestre”. É rápido, nervoso, propenso ao essencial. Encontramo-nos em Bose, na comunidade que ele fundou em 8 de dezembro de 1965 e que, hoje, conta com 55 irmãos e 35 irmãs, incluindo as “fraternidades” de Assis, Cellole, Civitella San Paolo e Ostuni. Fala claro, simples. E se ilumina com uma alegria quase infantil quando mostra no iPhone os frutos da sua horta: salada canadense mesmo no inverno, pimentas pequenas e vermelhas no verão e um pé de tomate que cresceu na calçada em frente à sua “cela”, entre as beldroegas.

A reportagem é de Elvira Serra, publicada por Corriere della Sera, 19-12-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O senhor sempre acreditou cegamente em Deus?

Cegamente, nunca. A fé é fatigante, é uma luta, como diz São Paulo, não é uma paz. Na fé, vivem-se muitas dúvidas. Depois, o amor pelo Senhor Jesus Cristo vence a dúvida, e vamos em frente assim. Mas lembre-se de que o monge é um especialista em ateísmo.

Como é possível?

O monge sabe que cada homem tem o inferno dentro de si, tem regiões não evangelizadas, abismos que deve explorar. Os ateus sentem uma proximidade e uma simpatia pelos monges por causa da busca solitária profunda em que, às vezes, na escuridão, encontra-se a “nadidade” [nientità], que é nada de nada: sabe que vertigem isso pode dar?

Falemos sobre as mulheres. Quais foram as mais decisivas para o senhor?

Eu tenho uma dívida enorme para com a minha mãe, Angela. Ela quis fortemente o meu nascimento contra a opinião de toda a família, porque estava doente do coração e era asmática, e já não havia completado uma primeira gravidez. Meu pai me disse tantas vezes: “Entre você e ela, eu preferia ela”.

Uma imagem da sua mãe.

Diante de uma encruzilhada, quando me levava aos avós em Montabone: com os seus braços muito magros e frágeis, ela me levantava até a cruz e me dizia: “Abraça o Senhor”. Era a sua entrega extrema, eu tinha três ou quatro anos. Depois, lembro-me dela sentada perto dos fornos, enquanto cozinhava. Ela custava a ficar de pé por causa da doença: ela nos preparava batatas fritas quase todas as noites. Ela morreu em 17 de setembro de 1951, aos 32 anos, quando eu tinha oito. Um ano depois, no Galliera de Gênova, começaram a operar a estenose mitral, da qual ela padecia.

Outras mulheres?

Elvira, a professora, a quem eu chamava de Etta. E Norma, a carteira, chamada de Coco, porque usava Coccoina, a cola: eu pedia para ir até ela para colar papéis coloridos. Ambas muito crentes, muito diferentes, me mantiveram nos estudos e me permitiram viajar.

Namoradas?

Aos meus 20 anos, eu tive duas moças com quem houve um relacionamento de jovens namorados. Elas se casaram, ainda nos vemos quando vêm me encontrar em Bose.

Nenhuma, depois, fez o senhor vacilar na escolha monástica?

Não, depois que eu tomei a decisão, nunca mais tive tentações de deixar o celibato.

Mas, no passado, o senhor declarou que sentiu falta de um filho.

Sim, senti, às vezes, como uma nostalgia impossível.

Voltando atrás, adotaria um?

Não, na vida monástica, não existe um vínculo desse tipo. Para um filho, é preciso ter características paternas e assegurar-lhe uma mãe: não estaria na minha história e na minha verdade.

As mulheres são importantes em Bose?

Desde o início, somos uma comunidade de homens e mulheres, e isso se deve a Maritè, Maria Teresa, a primeira irmã.

Em janeiro, vocês escolheram um prior homem.

É sempre possível que, em uma próxima eleição, seja eleita uma mulher: não há absolutamente nenhum impedimento. As hierarquias permanecem paralelas: o irmão prior não tem jurisdição direta sobre as irmãs, que respondem à responsável delas. O mesmo valeria ao contrário.

Dizem que as irmãs são mais sacrificadas do que os irmãos, começando pelo vestuário.

Isso não é verdade. Os trabalhos manuais são compartilhados e o mesmo vale para os compromissos intelectuais. Talvez haja quem tenha ciúmes e gostaria de ter, em outras comunidades, a liberdade que existe em Bose. Sobre o vestuário, a única regra é se vestir de modo simples e com cores escuras. Cada um escolhe sozinho.

Qual é a oração que mais ressoa para o senhor?

'Senhor Jesus Cristo, tem misericórdia de mim'. Não tenho tantas coisas a dizer ao Senhor...

Qual trecho do Evangelho o senhor mais gosta?

Aquele que eu peço que seja lido no meu funeral e é o capítulo de João 21. Jesus pergunta a Pedro: “Simão, você me ama mais do que a todas as suas coisas?”. Atenção, traduzem “me ama mais do que a todos os outros”, mas seria vergonhoso se Jesus colocasse Pedro em concorrência com os outros discípulos. Aqui existem dois verbos, agapao, “te amo”, e fileo, “gosto de ti”. Pedro responde sempre “gosto de ti”. Eu farei o mesmo quando me pedirem a conta.

Por que não “te amo”?

Porque nós não conhecemos o amor até o fim. Só podemos dizer a Jesus: “tento gostar de ti”. Pedro sabia que havia negado Jesus três vezes, e como eu posso dizer que nunca o neguei?

Quando?

Jesus diz: tive fome e não me deram de comer; tive sede e não me deram de beber; estava doente e não foram me ver. Esses são os pecados de omissão, e eu não posso dizer que não os cometi. São aqueles que mais me queimam a língua quando eu anuncio o Evangelho, porque digo aos outros aquilo que nem sempre consegui fazer na vida.

O senhor disse que somos mais propensos a dar 50 euros às vítimas de terremoto do que a gastar 10 euros para hospedá-las em casa. Vocês, em Bose, as hospedaram?

Vítimas de terremoto, não, mas, há anos, hospedamos alguns migrantes. É claro, não enviamos SMS com um ou cinco euros, mas financiamos projetos na África e bolsas de estudo no Oriente Médio. Continuo convencido de que, no dia em que a Igreja organizou a caridade, a partir do século IV, o preceito do amor ao próximo se enfraqueceu. Recentemente, escrevi que os párocos não deveriam mais organizar jantares para os pobres no Natal, mas pedir que cada família chame um para a própria mesa. Meu pai, socialista, não crente, nunca fez caridade a um pobre na porta, sempre o fez sentar à nossa mesa, mesmo que estivesse esfarrapado, fedorento e descalço.

Onde gostaria de ser sepultado?

Em um lugar discreto, sem que haja memória demais de mim. Na realidade, há 20 anos, houve um acordo com o Cemitério dos Servos de Maria, em Monte Senario, perto de Florença. Mas, hoje, tenho mais dúvidas. Desejo um lugar mais simples e comum.

O senhor escreveu dezenas de livros. Um acima de todos?

Dois. Pregare la parola [Rezar a palavra], de 1974: fez com que se descobrisse a lectio divina. E Il pane di ieri [O pão de ontem], um livro de sabedoria humana, publicado em 2008.

Agora, em que está trabalhando?

Em um texto sobre a velhice, que será publicado em meados do ano que vem, com a editora Il Mulino, onde eu anoto o que me parece necessário para vivê-la com alegria.

Quais sinais observa sobre si mesmo?

Muitos. O primeiro é o ouvido: há três anos, no mar, os meus amigos falavam comigo e, como eu não entendia, me diziam: “Mas você está ficando surdo?”. O outro é a visão: há dois meses, trago sempre os óculos comigo, antes era só para dirigir. E, depois, outra coisa: na minha cela, para ir para a cama, eu tenho que subir uma escada. No ano passado, fiz com que pusessem corrimãos...

Qual é o presente material que o senhor mais gosta?

As pessoas me dão produtos para comer, que eu compartilho com os outros. Ou rosas.

Rosas?

Sim, brancas ou vermelhas são as que eu prefiro. Eu não gosto tanto das rosas pálidas.

O senhor conheceu seis papas. Que recordação tem deles?

Pio XII foi o papa da admiração de um menino: aos nove anos, eu estive com ele e lhe levei uma garrafinha de vinho de Monferrato. Eu havia sido premiado por causa do conhecimento do Evangelho com outras crianças de todas as regiões.

Papa João XXIII?

Graças a ele e ao Concílio, existe Bose.

Paulo VI.

Eu o amei pela sua fineza espiritual, a cultura, a capacidade de sentir a modernidade e também pelo seu sofrimento.

João Paulo I.

Foi um meteoro, nada a dizer.

João Paulo II.

Por um lado, eu o amava pela abertura à humanidade e às religiões; por outro, parece-me que, às vezes, ele tinha uma interpretação restritiva do Concílio Vaticano II.

Bento XVI.

Para mim, um grande teólogo e um querido amigo que eu conheço desde 1976. Nomeou-me perito em dois sínodos: foi um gesto de eleição e de confiança para comigo, do qual sempre lhe serei grato.

E agora o Papa Francisco.

Parece-me que ele trouxe à Igreja uma primavera, uma abertura, um clima de liberdade e uma atenção aos pobres, dos quais eu me alegro.

Qual é o dia de São Enzo?

Não existe. A minha mãe me batizou como Giovanni. Meu pai, que não queria o nome de um santo, me registrou na comuna como Enzo.

O senhor se candidata a se tornar o primeiro santo com esse nome?

Isso não só não vai acontecer, como também eu não tenho nenhum desejo. Continuo crítico sobre os critérios com os quais se fazem os santos, muitas vezes por contingências históricas: nem sempre vejo razões de exemplaridade.

Mas a sua vida é exemplar!

Não, de verdade. E eu não lhe digo isso por humildade. Sou uma pessoa muito pé no chão. Nunca tive tentações em relação às alturas.

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