Eleições chilenas. O que virá depois da política de transição? Entrevista especial com Rodrigo Karmy

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Por: Patricia Fachin | 05 Dezembro 2017

O tema comum que dominou as eleições presidenciais chilenas, que ocorreram no dia 19-11-2017, foi a constatação de que é preciso uma “outra fase na política chilena, diz o filósofo Rodrigo Karmy à IHU On-Line, ao comentar o processo eleitoral e o resultado final do primeiro turno. “Desde Piñera, que clama por uma ‘segunda transição’, passando por Guillier, que oferece um ‘aprofundamento’ das reformas de Bachelet, a Sánchez que, a partir da Frente Ampla - FA, instala a necessidade de uma sociedade de ‘direitos sociais’”, ou seja, “todos os candidatos assumiram que esse jogo de poder, essa forma de governo, essa ‘razão de Estado’ singular instalada desde o final dos anos 80 já não funciona mais”, afirma. Apesar do discurso de renovação que fundamentou os pronunciamentos políticos na última eleição, Karmy pontua que duas questões ainda devem ser respondidas: “Que forças abriram essa possibilidade?” e “O que vem depois da política de ‘transição’?”.

O resultado do primeiro turno e a nova disputa entre Alejandro Guillier e Sebastián Piñera, na avaliação do filósofo chileno, podem ser explicados pelo “apelo” à classe média feito pelos candidatos. “O termo ‘classe média’ funciona no Chile como um operador de despolitização. Como tal, é um termo absolutamente vazio que pode ser apropriável por todos os setores. A contar dos setores mais precarizados pelo trabalho aos mais acomodados, todos afirmam ser ‘classe média’”. Por conta disso, frisa, “esquerdas e direitas disputam a fórmula ‘classe média’ porque sabem que tal palavra produz efeitos de subjetivação. A esta luz, diria que não votaram para Piñera apenas os ‘ricos’, mas especialmente muita gente pertencente a estratos mais baixos, porque enxergam nele uma espécie de ‘eu ideal’, para o qual aspirar. Que os ‘pobres’ votem na direita não é algo estranho, tanto no Chile ou em qualquer outro lugar no mundo. Anos de repressão e expulsão das esquerdas dos estratos populares fizeram o trabalho ser fundamental para inserir ali não a ‘revolução’ proletária, mas a ‘salvação’ evangélica, tornando as populações marginais ou medianamente marginais em sujeitos de empreendimento econômico”.

No segundo turno, que ocorre no dia 17-12-2017, Karmy lembra que os dois candidatos “serão pressionados a responder à pergunta sobre como governar após a transição. Piñera já deu uma resposta a esta pergunta: é necessário resgatar o legado de Aylwin, voltar-se para a ‘reconciliação’ entre os chilenos e inaugurar o que chamou de ‘segunda transição’. Para Guillier, não se trata de resgatar o passado mítico, mas de ‘aprofundar’ as reformas implementadas por Bachelet (aproveitando que Bachelet recuperou a popularidade), por exemplo, a ‘gratuidade na educação’ (mas ‘gratuidade’ no sentido neoliberal, ou seja, tornando o estado uma espécie de banco que cobra e paga essa educação através de recibos). Ou seja, ambos os programas, poderíamos dizer, são ‘neoliberais’”.

Apesar da derrota da Frente Ampla, Karmy destaca que o partido foi “um ator decisivo nestas eleições”, porque os votos recebidos pelo partido o elevam “ao patamar de força essencial no interior da correlação de potências da política chilena”. E dispara: “A derrota eleitoral da FA (já que não passou para o segundo turno) foi, no entanto, um triunfo político, dado que a sua percentagem foi surpreendente”.

Karmy também analisa como a situação dos Mapuche foi debatida nas eleições e menciona que, embora o tema tenha entrado na pauta eleitoral, “nenhum candidato — inclusive Artés, que supostamente foi o mais esquerdista — mencionou que o problema do Estado chileno com o povo Mapuche é de natureza ‘colonial’”.

Rodrigo Karmy | Foto: João Flores da Cunha - IHU

Rodrigo Karmy Bolton é doutor em Filosofia pela Universidade do Chile, onde leciona e é pesquisador do Centro de Estudos Árabes da Faculdade de Filosofia e Humanidades. É autor de Políticas de la interrupción. Ensayos sobre Giorgio Agamben (Santiago de Chile: Editorial Escaparate, 2011), Políticas de la excarnación. Para una genealogía teológica de la biopolítica (Buenos Aires: UNIPE: Editorial Universitaria, 2013) e Escritos bárbaros. Ensayos sobre razón imperial y mundo árabe contemporaneo (Santiago de Chile: LOM Ediciones, 2016).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Quais foram as principais pautas discutidas entre os candidatos eleitorais e os aspectos mais marcantes do processo de eleição chileno?

Rodrigo Karmy - Penso que uma das coisas que marcaram esta eleição - embora seja uma tendência generalizada já há bastante tempo - é o total devoramento da discussão política pelo aparelho midiático. Não só porque os jornalistas assumem o lugar inquisitorial (suposta e implicitamente falando em nome do "povo"), mas porque, comumente, os slogans usados pelos candidatos, em geral, são completamente vazios ou - o que tem o mesmo resultado - funcionam como "clichês", lugares comuns que, se não encapsulam a discussão, neutralizam-na. Tanto é assim que dois dos principais candidatos (Guillier e Sánchez) foram figuras dos meios de comunicação antes de entrar na arena política. No entanto, os clichês nunca conseguirão saturar tudo o que pretendem. Há algo neles que lhes escapa. Acredito que todos os candidatos partem da premissa básica de que é preciso uma "outra fase" na política chilena. Desde Piñera, que clama por uma "segunda transição", passando por Guillier, que oferece um "aprofundamento" das reformas de Bachelet, a Sánchez que, a partir da Frente Ampla - FA, instala a necessidade de uma sociedade de "direitos sociais".

Fica insinuado que um dos assuntos que convocam essa discussão está na pergunta: o que vem depois da política de "transição"? Uma questão interessante, tenham uma boa ou uma má percepção desse fantasma chamado "transição", todos os candidatos assumiram que esse jogo de poder, essa forma de governo, essa "razão de Estado" singular instalada desde o final dos anos 80 já não funciona mais. A questão fundamental é perguntar: de que maneira essa outra fase na política se tornou algo pensável? Que forças abriram essa possibilidade? Acredito que é aqui onde os chamados movimentos sociais desencadeados entre os anos de 2006 e 2011 têm muito a dizer. Foram eles que, com suas marchas, seus grafites, suas múltiplas vozes, moveram as principais forças políticas para o que lhes era impensável, o reduto que estava esquecido ao preço de estabelecerem um pacto oligárquico que permitiu que os "democratas" se livrassem de Pinochet, paradoxal e freudianamente, devorando-o e, portanto, identificando-se com ele. Os "movimentos sociais", a singularização da potência popular, abriram essas possibilidades.

O fim da razão de Estado

E se hoje a eleição presidencial chilena assume que tal "razão de Estado" já não funciona mais, é precisamente por causa desse pequeno deslocamento que mudou os limites do imaginável. O sintoma mais impressionante de que essa outra fase já começou é o colapso de um dos partidos políticos mais importantes da história recente do Chile: os democratas-cristãos. Com apenas 5% dos votos, hoje o partido Democracia Cristã - DC se soma incondicionalmente à candidatura de Guillier e desencadeia inúmeras renúncias de vários de seus líderes. A DC foi um partido golpista - como se sabe - que logo liderou o processo de "restauração da democracia", sob a ideia "pastoral" da "reconciliação", na figura do presidente Patricio Aylwin. O declínio da DC - fenômeno observado há bastante tempo e que nesta eleição acabou por ser desencadeado - é o declínio da "transição" como "razão de Estado" e, portanto, a abertura a esta "outra fase na política", ao qual me referia.

IHU On-Line - Como você interpreta o resultado da eleição presidencial, considerando que Piñera obteve 37% dos votos e Guillier, 23%?

Rodrigo Karmy - Acredito que Piñera receberá apoio da grande votação da direita. Em termos históricos, a direita política sempre foi "minoria". Por isso, teve que se apoiar em outros poderes, como as forças armadas, a imprensa ou a aliança com outros partidos políticos (por exemplo, com a DC, antes do golpe de 1973) para dominar um reduto que jamais foi capaz de dominar totalmente. A política no Chile é das esquerdas, nunca de direitas, se preferirmos. Por isso, Piñera recebe 37% e José Antonio Kast - o candidato fascista propriamente dito - 8%. E 37% mais 8% lhe dá 45%, o que não é suficiente para ganhar a presidência. Enquanto isso, Guillier conseguiu 23%, porque as forças da Nova Maioria - NM estavam divididas e, além disso, porque as forças de esquerda estavam divididas (o que não é a mesma coisa).

Votos à esquerda

Explico-me: a Nova Maioria é uma estranha coalizão - se esse nome ainda couber - na qual supostamente convergia a um amplo espectro que ia dos democratas-cristãos até o Partido Comunista. Mas os democratas-cristãos decidiram por uma candidatura separada (Carolina Goic) que conseguiu 5%. Por outro lado, Guillier conseguiu 23% (o que soma 28%) e, em seguida, Marco Enríquez-Ominami (ex-Partido Socialista) obteve 5% (o que soma 33%). Ou seja, o eleitorado tradicional da Nova Maioria leva 33%. Mas, uma vez que há desencantos brutais de muitos que votaram em Bachelet na última eleição presidencial, muitos desses votos foram para a Frente Ampla e o Concertación (Coalizão de Partidos pela Democracia), outro grupo que nunca votou, acabou votando na FA desta vez, pois viu nela uma alternativa. Assim, as forças de esquerda podem chegar a somar até 43%, o que ainda não alcança o resultado de Piñera. No entanto, sobrevive um fator silencioso, mas absolutamente decisivo: a abstenção, que nesta eleição chegou a mais ou menos 53%. Como é possível notar, a abstenção é altíssima. E, parece-me que isso não se deve simplesmente pelo fato de o voto ser voluntário, mas porque o sistema político cristalizado no modelo de estado subsidiário - com seu sistema de economia neoliberal e sua Constituição política feita sob medida para Pinochet - perdeu qualquer tipo de legitimidade para os cidadãos. Acredito que, nesse sentido, devemos dizer que entre as forças que Piñera soma e as que Guillier pode eventualmente somar (dentro da FA há distintas posições sobre isso) haveria um empate técnico.

Por isso, tudo será resolvido na capacidade de um ou outro candidato mobilizarem aqueles que se abstiveram no primeiro turno. Há uma vantagem para Guillier, pois podemos pensar que há um grande número de pessoas que se abstiveram que possuem um posicionamento de esquerda, e que poderiam ser capitalizadas por Guillier. Da mesma forma, Piñera não pode subir mais, ou melhor, é muito difícil que ele suba a partir do grupo de abstenção. Por isso que a eleição no Chile se encontra em um momento indefinível, onde, por um lado, Piñera pretende estabelecer a "segunda transição" e Guillier, ainda sem um slogan totalmente claro, aprofundar as reformas de Bachelet.

IHU On-Line - Na última entrevista que você nos concedeu, disse que o mais interessante no processo eleitoral chileno seria observar como seria constituída a Frente Ampla, que iria para a sua primeira disputa eleitoral. Que balanço você faz da atuação da Frente Ampla no processo dessa eleição?

Rodrigo Karmy - Assim é. Acredito que, se houve um ator decisivo nestas eleições, foi a Frente Ampla, cujo resultado eleitoral superou amplamente todas as expectativas anunciadas pelas pesquisas de opinião e "guardiões intelectuais" da "velha ordem". Esse número (20%) dá visibilidade à Frente Ampla e a eleva ao patamar de força essencial no interior da correlação de potências da política chilena. Gostaria de dizer que, de maneira transversal à coalizão de direitas e da Nova Maioria - ou seja, as figuras políticas mais importantes do pacto oligárquico, que essa transição à "razão de Estado" acabou por estabelecer -, esta força emergente foi praticamente infantilizada com a mesma intensidade: pois era "populista" - novo termo da direita global para esmagar as vozes que estimulam a possibilidade de interromper as injustiças corporativas e financeiras ao qual nosso continente está submetido -, era típico da geração "millenial", que nada mais era do que um grupo de adolescentes elitistas, que eram "maximalistas", entre outras coisas.

No entanto, entre a NM e a FA tem ocorrido um verdadeiro empate técnico que nenhuma pesquisa ou intelectual da "velha ordem" pôde prever e que coloca a FA em uma posição chave para possíveis mudanças. Tanto é assim, que a FA tem conseguido definir uma agenda: por exemplo, no que diz respeito à educação gratuita - slogan proposto pelos primeiros movimentos sociais e posteriormente apoiado pela FA - ou ao "perdão" das dívidas de Crédito com Aval do Estado (mecanismo subsidiário pelo qual os governos do outrora partido Concertación ampliaram a cobertura educacional ao preço do fortalecimento bancário, com uma taxa de juros de 6% para os estudantes), assim como também o "não mais AFP" (Administrador de Fundos de Pensão, entidades previdenciárias privadas que funcionam como um nó fundamental do capital financeiro do Chile e que dá aos chilenos uma taxa de aposentadoria miserável, privilegiando uma enorme renda diária aos grandes empresários cujos recursos são aplicados em diferentes paraísos fiscais) e, com isto, tem obrigado os demais atores a responder. Dessa forma, a derrota eleitoral da FA (já que não passou para o segundo turno) foi, no entanto, um triunfo político, dado que a sua percentagem foi surpreendente.

IHU On-Line - Os movimentos sociais participaram do debate eleitoral? Como?

Rodrigo Karmy - Eu diria que esses movimentos participaram da abertura de um "outro momento na política", mas não tenho certeza do quão inseridos eles podem estar na política eleitoral. Em todo caso, na FA, muitos de seus dirigentes políticos foram líderes estudantis ou sociais. De qualquer maneira, as temáticas que começaram a ser debatidas foram visibilizadas através dos chamados "movimentos sociais". Agora, gostaria de fazer um reparo nessa designação, porque ao adjetivar-lhes como "sociais", eles são colocados em uma bandeja para intelectuais da "velha ordem", que dizem que tais movimentos não têm ação política, reduzindo-os ao que a ciência política chama de "grupos pressão". Prefiro denominá-los de "movimentos populares", no sentido de formas de articulação de uma política acéfala (sem dirigentes unívocos, descentralizada e múltipla) que passam pela implementação da imaginação com a qual as formas de poder são desativadas.

Movimentos populares

Os movimentos populares talvez podem ser vistos como cristalizações particulares de uma potência popular que, em seu caráter acéfalo, pode se singularizar e, assim, tornar-se múltiplas formas de vida. Penso que, pelo menos no Chile, a noção de "movimento social" acabou por fazer dessas entidades sinônimo de "grupos de pressão", despolitizando-os. Em qualquer caso, é preciso ver que diversas propostas dos movimentos populares foram tomadas especialmente pelos candidatos, creio eu, para que muitas destas pudessem ser neutralizadas. Por isso, parece-me tão bom que a FA tenha conseguido essa votação, porque isso lhe permite tornar-se um ator fundamental e, acima de tudo, visibilizar o um terço da esquerda que há muito tempo esteve invisível. É necessário entender que, no Chile, a esquerda histórica ganhou esse lugar de um terço quando foi liderada por Allende. Mas a ditadura e a consequente transição obrigaram este um terço a morrer, basicamente devido à rigidez do sistema eleitoral binomial que forçava a articulação de grandes blocos, e onde o Partido Comunista, que poderia obter uma votação de 5% ou 7%, acabava votando pela Coalizão de Partidos pela Democracia (Concertación).

Hoje, a Nova Maioria é tal porque integra o Partido Comunista - PC, mas ao contrário do que os cálculos que pensavam que a coalizão poderia crescer e a conexão com a sociedade se revitalizar com a integração do PC, parece-me que acabou funcionando exatamente ao revés. Por esse motivo que a Frente Ampla capitaliza um eleitorado de esquerdas que representa um terço que não era visibilizado na Nova Maioria, especialmente quando esta faz reformas muito menores e estabelece a suposta "gratuidade", sem tocar no mecanismo neoliberal dos recibos; no fundo, sem tocar na matriz subsidiária do Estado.

IHU On-Line - Já é possível estimar que parte do eleitorado votou em Piñera e quem votou em Guillier?

Anos de repressão e expulsão das esquerdas dos estratos populares fizeram o trabalho ser fundamental para inserir ali não a "revolução" proletária, mas a "salvação" evangélica, tornando as populações marginais em sujeitos de empreendimento econômico

Rodrigo Karmy - Antes de responder a essa pergunta, creio ser importante referir-me ao apelo feito por alguns candidatos, especialmente Piñera, a um "sujeito social" específico: a "classe média". O termo "classe média" funciona no Chile como um operador de despolitização. Como tal, é um termo absolutamente vazio que pode ser apropriável por todos os setores. A contar dos setores mais precarizados pelo trabalho aos mais acomodados, todos afirmam ser "classe média". "Classe média" funciona como um operador que neutraliza as diferenças sociais, elimina-as, impede sua visibilidade, normalizando assim uma vida social atravessada por conflitos. Apelar à "classe média" significa inventar, nesse mesmo apelo, um espectro que não existe previamente ao próprio ato de enunciação e, com isso, subjetivar os diferentes setores abismalmente divididos em classes e despedaçados por uma desigualdade brutal, efeito de políticas neoliberais, em um corpus imaginariamente homogêneo em que os conflitos são despolitizados e todos parecem assumir a impressão "valorativa" de "Deus, família e propriedade".

As esquerdas tendem a apelar à "classe média" em favor do fortalecimento das Pequenas e Médias Empresas – PME; a direita, na defesa dos valores de tal classe. Esquerdas e direitas disputam a fórmula "classe média" porque sabem que tal palavra produz efeitos de subjetivação. A esta luz, diria que não votaram para Piñera apenas os "ricos", mas especialmente muita gente pertencente a estratos mais baixos, porque enxergam nele uma espécie de "eu ideal" para o qual aspirar. Que os "pobres" votem na direita não é algo estranho, tanto no Chile ou em qualquer outro lugar no mundo. Anos de repressão e expulsão das esquerdas dos estratos populares fizeram o trabalho ser fundamental para inserir ali não a "revolução" proletária, mas a "salvação" evangélica, tornando as populações marginais ou medianamente marginais em sujeitos de empreendimento econômico.

IHU On-Line - Qual é o significado de uma disputa entre Sebastián Piñera e Alejandro Guillier no segundo turno?

Rodrigo Karmy - Além dos respectivos "programas", parece-me que ambos serão pressionados a responder à pergunta sobre como governar após a transição? Piñera já deu uma resposta a esta pergunta: é necessário resgatar o legado de Aylwin, voltar-se para a "reconciliação" entre os chilenos e inaugurar o que chamou de "segunda transição". Para Guillier não se trata de resgatar o passado mítico, mas de "aprofundar" as reformas implementadas por Bachelet (aproveitando que Bachelet recuperou a popularidade), por exemplo, a "gratuidade na educação" (mas "gratuidade" no sentido neoliberal, ou seja, tornando o estado uma espécie de banco que cobra e paga essa educação através de recibos). Ou seja, ambos os programas, poderíamos dizer, são "neoliberais". O primeiro, um neoliberalismo de direitas, o segundo, um neoliberalismo de esquerdas, mas ambos se referem ao mesmo regime de verdade. Creio que a FA tem podido dobrar, em partes, esse regime. Mas ainda falta muito.

IHU On-Line - Como os demais candidatos devem se posicionar em relação à disputa do segundo turno? A tendência é apoiarem Piñera ou Guillier?

Rodrigo Karmy - Acredito que o eleitorado dos diferentes candidatos de esquerda - salvo exceções como o eleitorado duro de Artés - terminarão apoiando Guillier, se é que este último radicalizará seu programa e deixará para trás certas lógicas neoliberais - coisa que me parece muito difícil, embora não seja impossível. Mas os democratas-cristãos já disseram que apoiarão Guillier (e, portanto, teoricamente este assumirá os 5% da candidata do DC), assim como Marco Enríquez-Ominami, que daria outros 5% (é preciso ver o que acontecerá com o eleitorado da FA, como eu disse) e Piñera obterá mais 8% dos votos de Juan Antonio Kast, o candidato fascista. Os atores estão enxergando que esta será uma eleição decisiva, porque, segundo afirmam os discursos, ou as reformas serão aprofundadas (por Guillier) ou se instalará um governo conservador de maior ajuste estrutural (Piñera).

IHU On-Line - Quais são os fatores sociais, econômicos ou políticos que poderiam favorecer o retorno de Piñera à frente da presidência ou favorecer a eleição de Guillier neste momento?

Rodrigo Karmy - Além do "teatro" empresarial que continua a ameaçar o apocalipse caso Guillier se eleja, o Chile não está enfrentando nenhuma crise econômica. O Chile está enfrentando uma enorme crise política que desafia a matriz subsidiária do Estado, instalada durante a ditadura. Se a ditadura tentou salvar seu legado na "transição" para a democracia, hoje, tal "transição" está totalmente esgotada. Porque tal "transição" não foi nada mais do que a implementação de um pacto oligárquico de uma elite que vinha a se reencontrar após a ditadura. Mas tal pacto implicou em acordos cupulares, silêncios cúmplices para com os militares, conservação da Constituição política de 1980 e, portanto, um aprofundamento do modelo neoliberal implementado desde o início dos anos 80. Trata-se de uma crise política geral. Das instituições, de suas leis e de suas formas organizacionais mínimas.

Eu diria que esta crise não foi, no entanto, resultado de algo exterior ao próprio sistema, mas algo imanente a ele, que começa a flutuar com toda a sua violência uma vez que os movimentos populares começam a quebrar o domínio do possível traçado pela "transição". A esta luz, creio que o Chile se encontra em uma encruzilhada que não será resolvida nestas eleições e que tampouco será reduzida temporariamente neste momento. Uma encruzilhada que não começou em uma determinada data, mas que foi primeiro sendo composta de maneira silenciosa, depois de maneira expressiva, com altos e baixos, com erros e acertos, que não passaram pelos critérios dos partidos políticos tradicionais, mas que fluíram a seu modo, deixando os guardiões da ordem "fora de jogo".

Segundo turno

Enquanto encruzilhada, acho que a eleição entre Piñera e Guillier está radicalmente em aberto e tudo o que acontecer - dado que cada "êxito" também faz parte do simulacro espetacular com o qual tem sido caracterizada toda esta eleição - pode favorecer um ou outro. De qualquer maneira, eu conversava a respeito disso outro dia com um colega da universidade, sobre a estranheza das eleições no Chile. Por enquanto a América Latina se encontra englobada nas direitas mais brutais, no Chile pode ser que a direita perca. Em qualquer caso, creio que quem vier a ganhar tenderá a restaurar algum pacto oligárquico para a "segunda fase" que o neoliberalismo experimenta.

Se Piñera chega a ganhar, seu segundo governo será muito diferente do primeiro, porque ele terá muito apoio internacional e isso trará muita dificuldade para existirem formas de oposição internas. Com Trump nos EUA, Temer no Brasil e Macri na Argentina, Piñera seria o último elo de uma cadeia orientada para uma conjuração total das resistências à segunda fase neoliberal. E, ao contrário: o triunfo da Guillier será igualmente "pírrico" porque, de acordo com a composição do parlamento e a falta de alianças regionais, fará deste um governo paralisado. Embora possa prometer muitas coisas programáticas à FA, creio que acabará rearticulando o pacto oligárquico da segunda fase. Por isso, a relação da FA com Guillier deve tentar "forçar" a NM a ir além de seus próprios limites, a fim de instalar reformas antineoliberais. Mas é a FA e não a NM que poderá dar garantias de que algo assim possa acontecer.

IHU On-Line - A situação dos Mapuche da região da Araucanía, que reivindicam uma compensação pelos danos causados ao seu povo, ao seu patrimônio territorial e cultural, e a disputa envolvendo o povo indígena pelo direito ancestral às terras onde está a companhia italiana Benetton, na Argentina, foram tema das eleições presidenciais?

Rodrigo Karmy - Eu diria que sim, mas em um sentido que tornou possível esquecer o que havia para discutir. Porque nenhum candidato - inclusive Artés, que supostamente foi o mais esquerdista - mencionou que o problema do Estado chileno com o povo Mapuche é de natureza "colonial". Penso que formulá-lo assim reestruturaria a discussão que, durante os debates presidenciais, foi reduzida apenas a se as ações de alguns de seus grupos poderiam ou não ser catalogadas como "terroristas". E então, o discurso jurídico e econômico (a suposta "pobreza" da região) saturaram o campo do possível, sem poder expor a questão de fundo em que a chamada "Araucanía" (um nome já colonizador dado pelos espanhóis) vive um processo de colonização que começou com a conquista espanhola e sua vocação evangelizadora, mas que se agravou com o período de "pacificação" (assim a história oficial lhe chama), na qual as tropas chilenas arrasaram a população Mapuche, a fim de impor a "civilização" de então, e que hoje atualiza sua marcha com grandes empresas florestais que devastam os bosques e as terras para exportar matéria-prima dispensável.

A questão Mapuche arrasta três períodos consigo: a evangelização, a civilização e a neoliberalização. E então, apenas um par de candidatos apontaram que o que está em jogo em Wallmapu é o "modelo de desenvolvimento" e o conflito com as grandes empresas florestais, mas a discussão foi deslocada rapidamente para a questão do "terrorismo". Já sabemos que o termo "terrorismo" é crucial em nosso tempo, pois produz efeitos de normalização discursiva, da mesma forma em que podemos contemplar nos dolorosos debates presidenciais.

IHU On-Line - Outro tema polêmico envolvendo o Estado chileno e os Mapuche diz respeito exatamente à detenção de alguns indígenas que foram enquadrados segundo a lei antiterrorismo. Qual é a situação dos indígenas nesse caso?

Rodrigo Karmy - Entre o Ministério Público e o governo foi articulada uma simulação baseada em algumas redes sociais de dois líderes Mapuche que, depois, os tribunais de justiça absolveram. No Chile, os Mapuche são presos políticos. Com a independência dos governos momentâneos - de esquerdas ou de direitas - a questão Mapuche continua sendo crucial e acredito que, no contexto da presença das grandes empresas florestais na região, isso seguirá assim ou pior. E o problema é que as comunidades Mapuche têm, permanentemente, a aplicação de medidas de exceção. Acredito que um governo que pretenda abordar o tema com astúcia teria de partir argumentando que o Estado do Chile manteve uma política colonial para com os Mapuche. E, nessa linha, que uma resolução não passaria simplesmente por um reconhecimento "cultural" - uma política identitarista tão nefasta e tão cúmplice do neoliberalismo -, mas por tornar o Estado do Chile um Estado plurinacional que implicaria em uma devolução de terras, mas também uma autonomia jurídica para as comunidades em relação ao poder central. Qualquer outra aposta que não seja política, manterá o status quo, e a situação Mapuche e da região irá piorar.

O texto de Marx Sobre a Questão Judaica pode ser revigorante para analisar o problema que enfrentamos: diante da tese de Bauer que tendia ao reconhecimento e à "emancipação política" dos judeus, Marx impugnava qualquer política de reconhecimento e defendia a "emancipação humana" em geral. Assim, no caso dos Mapuche, acho essencial entender que é necessário "viver juntos", mas na atual condição política e econômica do país, não estamos "vivendo juntos", porque forçamos as comunidades Mapuche a um modelo econômico predador e a um Estado que não faz mais do que ser o agente da repressão. Pelo contrário, deveríamos mudar esses dois pilares que funcionam como pivôs do Estado do Chile: o neoliberalismo econômico e o autoritarismo político. E isso não só em relação à "questão Mapuche", mas quanto à "questão chilena" em geral.

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