''Foi assim que eu deixei que desligassem as minhas máquinas.'' Entrevista com Alberto Maggi, teólogo italiano

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23 Novembro 2017

“Eu estava internado no hospital por dissecção aórtica. Eu não sabia muito bem que doença era. Liguei o iPad e li que tinha uma alta possibilidade de morte. Falei com os médicos antes da operação cirúrgica que eu devia fazer em breve. Eu fui claro: se eu ficasse paraplégico, eu queria viver, mas, se eu incorresse em danos cerebrais permanentes, como era altamente provável, não, deviam me deixar morrer. Eu também falei com o meu coirmão, Ricardo, e lhe disse para fazer com que as minhas vontades fossem, em tudo e por tudo, cumpridas. ‘Por favor – eu lhe disse –, se isso acontecer, me ajuda a desligar’.”

A reportagem é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 17-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

É o que afirma o padre Alberto Maggi, sacerdote e teólogo, refinado biblista, frei da Ordem dos Servos de Maria, que reuniu em um livro – Chi non muore si rivede. Il mio viaggio di fede e allegria tra il dolore e la vita [Quem não morre aparece. A minha viagem de fé e alegria entre a dor e a vida] – a sua experiência “a um passo da morte”.

Eis a entrevista.

Você não tinha medo de acabar com tudo?

Absolutamente não. Eu disse aos médicos: “Não se preocupem. Se eu morrer durante a operação, é apenas a minha parte biológica que vai se deteriorar. A minha alma, ao contrário, continuará vivendo para sempre. Eu dei disposições também para o funeral: depois da missa no convento, ninguém deveria acompanhar o caixão ao cemitério. O meu corpo, por sua vez, devia ser entregue às pompas fúnebres enquanto todos os presentes deveriam permanecer no convento para festejar não o pobre Alberto, mas o “bem-aventurado” Alberto. Eu recordava a todos o Apocalipse, o texto de João, para o qual a morte é uma bem-aventurança.

A vida não é sagrada?

Este é o ponto: quem é sagrado, a vida ou o ser humano? Se sagrada for a vida, deve-se defendê-la ao extremo, mesmo quando se torna obstinação. Mas, se sagrado for o ser humano, deve-se reconhecer a ele a sua dignidade, e, em alguns casos, também se pode ajudá-lo a ir embora serenamente.

Porém, às vezes, mesmo aqueles que assinam para acabar com tudo ou declaram publicamente as suas intenções nesse sentido, depois se arrependem.

É verdade. De fato, o paciente sempre deve ser ouvido, porque nem todos, quando se encontra a um passo da morte, estão prontos para ir embora. Eles não veem a morte como um novo início, mas como um fim, e têm medo, querem ficar. E esse sentimento deles também deve ser respeitado. Eu tenho em mente casos diferentes. Recordo, particularmente, um amigo médico que teve esclerose lateral amiotrófica. Ele estava em coma. Parecia que não tinha possibilidade de acordar. Ou o deixavam morrer sob sedação, ou aplicavam nele uma traqueostomia para lhe permitir respirar. Os familiares me pediram uma opinião. Eu lhes disse que, sem dúvida, ele não teria desejado a traqueostomia. Em vez disso, incrivelmente, ele acordou e foi ele que a pediu aos médicos. Ele seguiu em frente entre sofrimentos atrozes, uma perna amputada, uma bolsa para a alimentação. Lá, eu entendi que nada é óbvio nesse campo, e que o paciente sempre deve ser ouvido.

Lembra-se de outros casos?

Um caso diferente foi o de Max Fanelli, também ele afetado pela esclerose lateral amiotrófica. Fui encontrá-lo. Apenas um olho dele funcionava, com o qual ele usava um maquinário para se comunicar. O olho tinha acabado de ter uma inflamação: “Em breve, eu não poderei mais me comunicar. O meu corpo se tornará um sarcófago”, ele me disse. Algo enlouquecedor. Ele lutou até o fim por uma lei que não desse continuidade, para quem se encontra em condições extremas, aos tratamentos inúteis.

O que as palavras de Francisco dizem?

Falam da sua paixão pela humanidade. O papa prefere o ser humano à doutrina. Ele não quer levar as pessoas a Deus – caso contrário, haveria a necessidade de leis, de normas –, mas sim levar Deus às pessoas. E ele quer fazer isso, justamente, não com uma doutrina, mas com uma carícia, com uma linguagem que todos possam entender. Uma carícia é entendida por todos, até mesmo pelos chamados “distantes”. Jesus foi a ternura de Deus para os agredidos da humanidade. Ele sabia bem que até mesmo aqueles que eram abandonados deviam ser acariciados e, desse modo, lhes dava a possibilidade de renascer.

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