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14 Novembro 2017

O livro de um sacerdote nigeriano revela o papel dos papas na prática da escravidão até 1839. “Os papas abusaram da Bíblia para lucrar com o comércio de escravos". Estas palavras não são ditas por algum autor de Thriller Trash a base de escândalos do Vaticano, mas por um historiador sério que sobre o tema desfruta de dupla legitimação. É nigeriano (portanto, parte em causa) e, principalmente, é um padre católico. Chama-se Pius Adiele Onyemechi e exerce há 20 anos seu ministério na Alemanha, na região de Baden-Württemberg.

A reportagem é de Rita Monaldi e Francesco Sorti, publicada por La Stampa, 12-11-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

A sua pesquisa inovadora The Popes, the Catholic Church and the Transatlantic Enslavement of Black Africans 1418-1839 (p. XVI / 590, € 98 Olms, 2017), que entre os historiadores já desperta discussões, derruba o velho dogma segundo o qual o papado ficou basicamente alheio ao maior massacre de todos os tempos: o tráfico de escravos. Uma tragédia secular que - como relembra o grande escritor dinamarquês Thorkild Hansen em sua clássica trilogia sobre a escravidão – disseminou mais de 80 milhões de mortes.

Uma surpresa

Justamente nesses meses a prestigiada Academia de Ciências de Mainz concluiu um colossal projeto de pesquisa sobre a história da escravidão que durou 65 anos, com a colaboração de pesquisadores de primeira linha como o sociólogo de Harvard Orlando Patterson (ele próprio descendente de escravos) e o historiador da antiguidade Winfried Schmitz. Quase a selar o projeto chegou o livro de dom Onyemechi: uma radiografia minuciosa do papel dos papas no comércio de escravos na África do XV ao XIX séculos, a era de ouro do comércio escravista. Pela primeira vez, ao som de datas, fatos e nomes, dom Onyemechi aponta o dedo sobre responsabilidades morais e materiais, dando início a um acerto de contas com o passado no exato momento em que a Igreja de Roma, na sua tradição secular de apoiar os mais fracos, apela para a solidariedade para com os migrantes. Como o próprio autor resume, os resultados "muito surpreendentes" que vieram à luz "afundam um dedo nas feridas desse capítulo sombrio da História e da vida da Igreja católica".

“A Igreja”, explica o religioso “abusou da passagem bíblica contida no capítulo 9 do Gênesis”, em que se afirma que todos os povos da terra são descendentes dos filhos de Noé: Sem, Cam e Jafé. Depois do dilúvio, Cam revelou a seus irmãos ter visto seu pai deitado bêbado e nu. Noé amaldiçoou Cam, juntamente com todos os seus descendentes, condenando-os a se tornarem servos de Sem e de Jafé. A Igreja então afirmou que os africanos seriam descendentes de Cam. Pio IX, ainda em 1873, iria convidar todos os crentes a rezar para que fosse retirada a maldição de Noé jogada sobre a África.

Documentos desaparecidos

Em nosso romance Imprimatur divulgamos o caso de Inocêncio XI Odescalchi (1676-1689), que era dono de escravos, tinha negócios com mercadores de escravos e subjugava os presos em correntes nas galés pontifícias. Os documentos que provam isso, publicados em 1887, em seguida, misteriosamente, desapareceram. Claro que, no século XVII, os direitos humanos modernos ainda estavam por vir, mas depois o papa Odescalchi foi beatificado em 1956, e indicado para a canonização em 2002.

Onyemechi desenterrou milhares de contradições desse tipo. O comércio de escravos originalmente visava a China, Rússia, Armênia e Pérsia; mercados internacionais eram realizados em Marselha, Pisa, Veneza, Gênova e Barcelona e Verdun. Com o tempo tais rotas desapareceram, exceto aquelas africanas. Por que isso? Teria sido a Igreja que desempenhou o papel decisivo, recomendando a soberanos e imperadores "preferir" escravos africanos. Fizeram isso bispos e até papas como Paulo V.

A justificação provinha não só da Bíblia, mas também de Aristóteles, para o qual alguns povos eram simplesmente "escravos por natureza". Uma visão depois retomada por São Tomás e pela influente faculdade teológica de Salamanca, nos séculos XV e XVI. Padres da Igreja, como Basílio de Cesareia, Santo Ambrósio, Gregório de Nissa, João Crisóstomo e o próprio Santo Agostinho, ao contrário, justificavam a escravidão como resultado do pecado original.

O Portugal

Em meados do século XV, o português Nicolau V concedeu ao seu país de origem o direito de evangelizar, conquistar e deportar "em escravidão perpétua", os africanos, selados como inimigos do cristianismo junto com os sarracenos (que na verdade eram bem mais perigosos e massacravam, estes sim, os reinos cristãos). Os sucessores Calisto III, Sisto IV, Leão X e Alexandre VI nada fizeram além de confirmar e ampliar os direitos concedidos a Portugal. Outros papas (Paulo III, Gregório XIV, Urbano VIII, Bento XIV) em suas Bulas oficiais declaravam-se contra a escravidão dos índios norte-americanos, mas não contra aquela dos africanos.

Da escravidão, a Igreja teve um retorno econômico concreto. Foram extremamente ativos os missionários portugueses e especialmente os jesuítas, que compravam escravos para empregá-los em suas plantações no Brasil e no Maryland. Ou os revendiam com seu navio negreiro "privado", que transportava a mercadoria humana do Congo, Luanda e São Tomé para o Brasil. Dom Onyemechi cita o contrato com o qual, em 1838, o Provincial dos Jesuítas do Maryland, Thomas Mulledy, vendeu 272 escravos africanos. Preço: 115.000 dólares a "peça". A evangelização consistia principalmente em batizar às pressas escravos antes de embarcá-los. Aliás, todo o mecanismo garantia que eles fossem mantidos bem longe da palavra de Cristo. Os lucros eram reinvestidos em novas campanhas de agressão e deportação.

Reconhecimento tardio

"Apenas em 1839, a Igreja reconheceu os africanos como seres humanos como todos os outros", relembra o historiador de origem nigeriana. Isso foi sancionado em uma Bula de Gregório XVI, na verdade um pouco tardia: o comércio de escravos já tinha sido abolido em quase todos os países entre 1807 e 1818 e os Ingleses já tinham tomado distância desde o final do século XVIII. Dom Onyemechi trabalhou em fontes originais nos arquivos secretos do Vaticano e de Lisboa (para decifrar os manuscritos lusitanos aprendeu a partir do zero o português) e propiciou uma contribuição duradoura (realizada com rotina teutônica todos os dias das 3 às 8 da manhã) na busca da verdade histórica. Em Roma não deve causar desagrado, em vista da atenção do papa Francisco - ele também um jesuíta - com os povos da África.

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