Neruda, Pinochet e os rumores de um homicídio

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02 Novembro 2017

“A discussão renovada sobre a morte de Neruda nos permite recordá-lo mais uma vez, vê-lo novamente como um profeta na luta contra a obscuridade, a condenação e o esquecimento. Assim como ontem, quando estava vivo, nosso Pablo continua, do para além da morte, enviando à humanidade uma mensagem de esperança, animando a batalha pela justiça e a liberdade nestes tempos nefastos”, escreve Ariel Dorfman, professor emérito de literatura da Universidade Duke (Carolina do Norte, Estados Unidos), em artigo publicado por Página/12, 01-11-2017. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Ainda posso recordar como fiquei impactado e o pesar que senti, naquele dia, ao ouvir que havia morrido Pablo Neruda, o maior poeta chileno e um dos pilares da literatura do século XX. Era o dia 23 de setembro de 1973. Duas semanas antes, o exército chileno havia perpetrado um golpe de Estado contra o presidente Salvador Allende e havia instalado uma ditadura que iria durar dezessete anos.

Temia por minha vida, como muitos outros intelectuais e defensores de Allende, e estava escondido em uma casa de segurança de Santiago, quando me chegou a notícia de que, além de perder nossa nação pelas mãos do fascismo, perdíamos também o maior escritor dessa terra, quando mais o necessitávamos.

Mesmo que houvesse motivos para duvidar de cada uma das palavras emitidas pela Junta, enquanto torturavam, assassinavam, perseguiam e exilavam os seguidores de Allende, jamais me ocorreu que foram tão estúpidos para assassinar o próprio Neruda.

Sabia que estava prostrado em cama e que padecia câncer de próstata. Parecia natural que o horror de ver destruída a democracia chilena e a pena pelas muitas mortes de seus camaradas do Partido Comunista e outras organizações de esquerda teriam acelerado seu decesso.

Ao longo dos anos, assim como a maioria dos chilenos, desestimulei os rumores de que um agente da ditadura havia envenenado Neruda, durante sua estadia na Clínica Santa Maria. Os depoimentos de amigos que estiveram ao seu lado, durante seus últimos dias e horas, reforçavam esse ceticismo. A viúva do poeta, Matilde Urrutia, disse-me que, com efeito, o câncer era a causa de sua morte, embora a abissal angústia de seu esposo diante do destino de nossa nação tivesse atestado o golpe final.

Sentia receio das histórias disparatadas que não podiam corroborar e que faziam mais mal que bem. De cara com incontáveis atrocidades reais e indiscutíveis, era inútil propor crimes que não pareciam ter fundamento e que podiam ser interpretados como propaganda.

Décadas mais tarde, no entanto, as acusações apresentadas à revista mexicana Proceso pelo antigo motorista de Neruda, Manuel Araya, que uma injeção letal havia sido dirigida ao poeta, horas antes de sua morte, levaram um juiz chileno a ordenar a exumação do corpo e a buscar ajuda de organizações forenses estrangeiras para determinar a verdadeira causa da morte. Agora, dezesseis especialistas anunciaram que Neruda morreu por uma infecção bacteriana e não de caquexia por câncer, como se assinalou fraudulentamente em seu atestado de óbito.

Ainda que não ofereceram provas de que houve crime, sua investigação provocou certa especulação. Em contraste com a inevitável circunspecção dos forenses, muitos chilenos – comentaristas, políticos e intelectuais, acompanhados por um dos sobrinhos de Neruda – dão por fato que se tratou de um assassinato.

Estas suposições renovadas são reforçadas pelo fato de que, alguns anos após a morte de Neruda, o ex-presidente Eduardo Frei Montalva morreu em circunstâncias suspeitas, no mesmo leito da clínica onde havia falecido o grande poeta.

Foram muitos anos de investigação, mas as cortes chilenas sentenciaram que Frei foi assassinado por um grupo de agentes da polícia secreta DINA. É fácil supor o porquê o mataram: ainda que, inicialmente, Frei tivesse apoiado a tomada de poder pelos militares, tinha se convertido em um valente líder da oposição ao general Augusto Pinochet.

Eliminá-lo era uma maneira de se desfazer de uma figura que poderia unir as pessoas e aqueles que queriam que a democracia fosse restaurada. Foi um motivo similar ao do assassinato, em Washington, de Orlando Letelier, o popular e carismático ministro de Relações Exteriores, durante o governo de Allende.

No entanto, matar Neruda segue parecendo não ter sentido. Por que os sequazes de Pinochet se arriscariam a assassinar um poeta que já estava morrendo, a um vencedor do Nobel reverenciado pelos chilenos de todos os tipos e filiações? Já não estava doente e fragilizado, a ponto de se exilar no México, onde logo morreria de qualquer modo?

Qualquer que tenha sido o motivo de sua morte, seu efeito foi impressionante. O funeral de Neruda, celebrado no dia 26 de setembro de 1973, tornou-se o primeiro ato de desafio público contra os novos governantes chilenos.

Cheios de valor, de cara com os soldados nas ruas e com o medo em seus corações, milhares de patriotas acompanharam o caixão de Neruda ao Cemitério Geral, para se despedir do poeta que havia contado a história de todos eles e a da América Latina em sua busca da libertação. Como poderiam não ter acompanhado, em sua viagem final, o corpo do poeta que havia celebrado o corpo humano em todos os seus desejos sensuais e sua mais profunda desesperança?

Essas pessoas haviam aprendido, por meio de seus versos, a como dar forma a seus sonhos e a como sonhar seu amor, sendo assim, desolados e furiosos, cantaram que seu bardo viveria neles para sempre. Prometeram que Allende, nosso presidente morto, não seria esquecido; juraram que o Chile não sucumbiria à tirania.

O significativo do evento não residiu apenas no simbolismo de que tantos homens, mulheres e inclusive crianças se colocaram em perigo para expressar sua necessidade de ser livres. Esse funeral também foi o protótipo da maneira pela qual a resistência finalmente venceria Pinochet nos duros anos que viriam, apoderando-se de qualquer espaço disponível, grande ou pequeno; empurrando os limites do permissível; declarando, com baionetas e balas na frente, que o silêncio não prevaleceria.

Nos versos mais famosos de seu Canto Geral, Neruda falou aos mortos anônimos da América Latina, quando escreveu: “Sobe para nascer comigo, irmão”, com o que pedia aos esquecidos e profanados pela história que renascessem. “Falai por minhas palavras e meu sangue”.

A discussão renovada sobre a morte de Neruda nos permite recordá-lo mais uma vez, vê-lo novamente como um profeta na luta contra a obscuridade, a condenação e o esquecimento. Assim como ontem, quando estava vivo, nosso Pablo continua, do para além da morte, enviando à humanidade uma mensagem de esperança, animando a batalha pela justiça e a liberdade nestes tempos nefastos.

Talvez demore muito tempo, mas os crimes do passado não se apagarão. Talvez demore muito tempo, nos diz a recordação de Neruda, mas haverá, finalmente, um ajuste de contas. Talvez demore muito tempo, nos diz a poesia de Neruda, mas é certo que as vítimas da história encontrarão uma maneira de nascer novamente.

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