Papa Francisco conversa ao vivo com astronautas da Estação Espacial Internacional

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27 Outubro 2017

Às 15h da tarde dessa quinta-feira, 26 de outubro (hora de Roma), da Auletta da Sala Paulo VI, o Santo Padre Francisco se conectou ao vivo, em áudio e vídeo, com a tripulação da Missão 53, a bordo da Estação Espacial Internacional, em voo a 400 quilômetros da Terra.

A tripulação é composta por: Randolph Bresnik (Estados Unidos), comandante da NASA; Paolo Nespoli (Itália), engenheiro da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês); Mark T. Vande Hei (Estados Unidos), engenheiro da NASA; Joseph Acaba (Estados Unidos, de origem porto-riquenha), engenheiro da NASA; Sergey Ryazanskiy (Rússia), engenheiro; e Alexander Misurkin (Rússia), engenheiro.

Na Auletta, durante a conexão, estavam presentes o presidente da Agência Espacial Italiana (ASI), Roberto Battiston, e o diretor dos Programas de Observação da Terra da ESA, Josef Aschbacher.

O diálogo com a tripulação da Estação Espacial Internacional durou cerca de 25 minutos. O papa fez cinco perguntas aos astronautas, concluindo a conexão com uma saudação final.

A Sala de Imprensa da Santa Sé, 26-10-2017, publicou o texto da conversa entre o Santo Padre e os astronautas. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o diálogo.

Santo Padre – Good morning, you all! [Bom dia para todos!]

Paolo Nespoli – Sua Santidade, bom dia. Bem-vindo à Estação Espacial Internacional, entre nós, entre a tripulação da expedição 52 e 53.

Santo Padre – Bom dia... ou boa noite... porque, quando estamos no espaço, nunca se sabe! Caro Dr. Nespoli, caros astronautas, acho que aí na Estação Espacial os dias correm de um modo diferente, certo? Agradeço a vocês e aos que organizaram esta conexão, que me dá a possibilidade de lhes “encontrar” e de fazer algumas perguntas. Começo logo com a primeira pergunta.

A astronomia nos faz contemplar os horizontes ilimitados do universo e suscita em nós as perguntas: de onde viemos? Para onde vamos? Pergunto-lhe, Dr. Nespoli: à luz das suas experiências no espaço, qual é o seu pensamento sobre o lugar do homem no universo?

Paolo Nespoli – Santo Padre, essa é uma questão complexa. Eu me sinto como uma pessoa técnica, um engenheiro, sinto-me confortável entre as máquinas, entre os experimentos. Mas, quando se fala dessas coisas muito mais internas – “de onde viemos...?” – eu também fico perplexo. É um discurso muito delicado. Eu acho que o nosso objetivo aqui é conhecer o nosso ser, para preencher o conhecimento, entender aquilo que está ao nosso redor. E, entre outras coisas, é interessante, porque quanto mais conhecemos, mais nos damos conta de que conhecemos pouco. Eu gostaria muito que pessoas como o senhor, não só engenheiros, não só físicos, mas pessoas como o senhor – teólogos, filósofos, poetas, escritores... – pudessem vir aqui no espaço, e esse certamente será o futuro, eu gostaria que viessem aqui para explorar o que significa ter um ser humano no espaço.

Santo Padre – É verdade o que você diz. Nesta sala da qual eu estou falando com vocês, encontra-se – como vocês veem – uma tapeçaria artística inspirada no célebre verso com que Dante conclui a Divina Comédia: “L’amor che move il sole e l’altre stelle” [O amor que move o sol e as outras estrelas] (Paraíso XXXIII, 145). Pergunto-lhes: que sentido tem para vocês, vocês que são todos engenheiros e astronautas, como você disse bem, que sentido tem para vocês chamar de “amor” a força que move o universo?

Paolo Nespoli – Santo Padre, gostaria de dar a palavra ao meu colega russo Aleksandr Misurkin, que se dirigirá ao senhor em russo.

[Misurkin responde em russo]

Paolo Nespoli – Santo Padre, espero que não o tenhamos surpreendido com o russo: o senhor tem a possibilidade de ter uma tradução aí ou devemos sintetizá-lo nós, rapidamente?

Santo Padre – É melhor sintetizar rapidamente.

Paolo Nespoli – O colega Aleksandr deu uma resposta muito bonita em russo, que eu agora vou traduzir um pouco assim rapidamente. Ele se refere a um livro que está lendo nestes dias aqui em cima, para refletir, “O pequeno príncipe”, de Saint-Exupéry. Ele se refere à história que dá de bom grado – ou daria de bom grado – a própria vida para voltar e salvar plantas e animais sobre a Terra. E, substancialmente, o amor é essa força que dá a você a capacidade de dar a sua vida por outra pessoa.

Santo Padre – Eu gosto dessa resposta. É verdade, sem amor, não é possível dar a própria vida por outra pessoa. Isso é verdade. Vê-se que você entendeu a mensagem que tão poeticamente Saint-Exupéry explica e que vocês, russos, têm no sangue, na sua tradição tão humanista e tão religiosa. É bonito isso. Obrigado.

Esta é uma curiosidade. Dizem que as mulheres são curiosas, mas nós, homens, também somos curiosos! O que os motivou a se tornarem astronautas? O que mais lhes dá alegria no tempo que vocês passam na estação espacial?

Paolo Nespoli – Santo Padre, vou passar o microfone a dois colegas: o colega russo Sergey Ryazanskiy e o colega estadunidense Randy Bresnik.

[Ryazansky responde em inglês.]

Paolo Nespoli – Sergey disse que a inspiração dele foi o avô: o avô dele foi um dos primeiros pioneiros do espaço; ele trabalhou no satélite Sputnik, o primeiro satélite que voou sobre a Terra; foi um dos responsáveis pela construção do satélite. E ele se inspirou no avô, quis seguir as suas pegadas, porque, segundo ele, o espaço é interessante e bonito, mas também muito importante para nós como seres humanos.

[Bresnik responde em inglês.]

Paolo Nespoli [traduzindo] – O que eu vejo daqui é uma perspectiva incrível: é a possibilidade de ver a Terra um pouco com os olhos de Deus e de ver a beleza e a incredibilidade desse planeta.

[Bresnik continua em inglês.]

Paolo Nespoli [traduzindo] – Na nossa velocidade orbital de 10 quilômetros por segundo, nós vemos a Terra com olhos diferentes: vemos uma Terra sem fronteiras, vemos uma Terra onde a atmosfera é extremamente fina e lábil. E olhar para essa Terra desse modo nos permite pensar como seres humanos, em como todos devemos trabalhar juntos e colaborar para um futuro melhor.

Santo Padre – Nessa resposta, eu gostei muito do que vocês dois disseram. Você, o primeiro, foi às próprias raízes para explicar isso: foi ao avô. E você, que vem dos Estados Unidos, conseguiu entender que a Terra é frágil demais, é um momento que passa: 10 quilômetros por segundo, disse o Dr. Nespoli... É uma realidade muito frágil, sutil, a atmosfera, a ponto de poder ser destruída. E você foi justamente olhar com os olhos de Deus. O avô e Deus: as raízes e a nossa esperança, a nossa força. Nunca esquecer as raízes: me faz ouvir isso e ouvir isso de vocês! Obrigado.

Eu gostaria de lhes fazer outra pergunta: viajar no espaço modifica tantas coisas que se dão por descontado na vida cotidiana, por exemplo a ideia sobre “em cima” e “embaixo”. Pergunto-lhes: existe algo em particular que, ao viverem na Estação Espacial, os surpreendeu? E, ao contrário, há algo que o tocou precisamente porque encontrou confirmação também aí, em um contexto tão diferente?

Paolo Nespoli – Obrigado, Santo Padre, por essa pergunta. Deixarei a palavra ao colega estadunidense Mark Vande Hei.

[Vande Hei responde em inglês.]

Paolo Nespoli – Mark diz que o que o surpreendeu é que, no espaço, você pode encontrar coisas completamente diferentes que parecem as mesmas, mas não reconhecíveis. De vez em quando, eu me aproximo de algo a partir de um ângulo completamente diferente e, no início, fico um pouco confuso, porque não consigo entender onde estou, entender o que é. O que não mudou, por sua vez, é que aqui também, onde não há mais “em cima” e “embaixo”, para conseguir entender onde estou e me encontrar nessa situação, eu tenho que decidir onde está o “em cima” e onde está o “embaixo”. E, portanto, estabelecer o meu microcosmo, o meu microuniverso com os meus sentidos e os meus sistemas de referência.

Santo Padre – E essa é uma coisa propriamente humana: a capacidade de decidir, de decisão. A resposta me parece interessante, porque também vai às raízes humanas.

E agora, se vocês tiverem a cortesia de escutar, vou fazer outra pergunta. A nossa sociedade é muito individualista e, ao contrário, na vida, a colaboração é essencial. Penso em todo o trabalho que está por trás de um empreendimento como o de vocês. Podem me dar alguns exemplos significativos de colaboração entre vocês na Estação Espacial?

Paolo Nespoli – Santo Padre, uma ótima pergunta. Deixarei a pergunta ao colega estadunidense Joseph Acaba, que é de ascendência porto-riquenha.

Joseph Acaba – Santo Padre, es un gran honor hablar com Usted... [continua em inglês].

Paolo Nespoli – Joe lembrou que, para esta Estação, há uma cooperação entre diversas nações do mundo: estão os Estados Unidos, está a Rússia, o Japão, o Canadá, nove nações europeias... E ele lembrou como essas nações trabalham juntas para obter algo que está acima de cada uma delas. Mas uma das coisas importantes e interessantes que ele disse é o fato de que cada um de nós traz uma diversidade, e essas diversidades unidas fazem um conjunto muito maior do que a pessoa individual. E trabalhando assim, juntos, nesse espírito colaborativo para ir além, esse é o modo para nós, como seres humanos, de sair fora do mundo e continuar esta viagem no conhecimento.

Santo Padre – Vocês são um pequeno “Palácio de Vidro” [sede das Nações Unidas]! A totalidade é maior do que a soma das partes, e esse é o exemplo que vocês nos deram. Muito obrigado, caros amigos. Eu gostaria de dizer: caros irmãos, porque os sentimos como representantes de toda a família humana no grande projeto de pesquisa que é a Estação Espacial. Agradeço-lhes de coração por esta conversa, que me enriqueceu muito. Que o Senhor os abençoe, ao trabalho de vocês e às famílias de vocês. Eu lhes asseguro: rezarei por vocês; e vocês, por favor, rezem por mim. Obrigado!

Paolo Nespoli – Santo Padre, em nome de todos, quero lhe agradecer por ter estado conosco hoje, na Estação Espacial Internacional. Este é um lugar onde fazemos muita pesquisa, onde vamos buscar as coisas de todos os dias. Agradeço-lhe por ter estado conosco e ter nos levado mais alto e ter nos tirado desta mecanicidade cotidiana, por nos ter feito pensar em coisas maiores do que nós. Obrigado de novo!

Santo Padre – Obrigado a vocês!

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