Congresso sobre ''Amoris laetitia'' aponta para grandes mudanças

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11 Outubro 2017

Na última coluna, eu discuti alguns dos temas-chave do congresso da semana passada sobre a Amoris laetitia, no Boston College. Hoje, gostaria de explorar como a discussão e o próprio evento ilustraram alguns movimentos tectônicos na cultura da Igreja Católica e, também, alguns dos problemas pendentes.

A reportagem é de Michael Sean Winters, publicada por National Catholic Reporter, 10-10-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Uma das características mais marcantes do congresso foi o que não foi dito. A palavra “lei natural” não foi pronunciada uma única vez. Eu observei anteriormente que uma das coisas notáveis sobre a Amoris laetitia era a falta de referências à lei natural: ela é mencionada explicitamente uma única vez e aludida em outros três casos.

Essa é uma grande mudança na teologia católica. O Papa São João Paulo II incluía meditações profundas sobre as Escrituras como parte dos seus documentos magisteriais como a Familiaris consortio, mas, neles, permanecia uma forte dependência do pensamento da lei natural assim que ele se voltava para a análise das situações enfrentadas, especialmente a vida familiar. A ineficácia pastoral do pensamento da lei natural, suspeito eu, é a razão pela qual os seus enquadramentos estão sendo descartados.

Da mesma forma, a “teologia do corpo” recebeu apenas algumas menções e, cada vez, para apontar como ela é inadequada. No entanto, há seminários e pastorais universitárias que fazem dela o centro do seu ensinamento sobre ética sexual. Um dos principais desafios daqueles que estão engajados na formação é desenvolver alternativas autênticas e católicas.

Outra característica notável do congresso foi a proeminência dada às vozes leigas e femininas. Oito leigos, seis deles mulheres, fizeram apresentações. É claro, de que outro modo se poderia discutir a vida familiar sem essa contribuição? Mas, durante séculos, a teologia católica sobre a vida familiar provinha unicamente de clérigos homens e celibatários.

A verdade não depende do estado de vida daqueles que a discutem, com certeza, mas uma falta de conhecimento experimental certamente é um impedimento para a prática pastoral efetiva e levou à romantização da vida conjugal, sobre a qual a professora Natalia Imperatori-Lee falou.

Além disso, uma das apresentações, oferecida pela professora Meghan Clark, enfocou especificamente sobre como o texto da Amoris laetitia satisfaz ou não as necessidades das mulheres hoje. Ela aplaudiu o fato de que o Papa Francisco refutou especificamente a ideia de que os problemas que acompanham a vida familiar hoje são o resultado de esforços para emancipar as mulheres: “Alguns consideram que muitos dos problemas atuais ocorreram a partir da emancipação da mulher”, escreveu o papa no número 54. “Mas esse argumento não é válido, é falso, não é verdade! Trata-se de uma forma de machismo.”

Esse mesmo parágrafo se posiciona contra a violência contra as mulheres e práticas culturais abomináveis como a mutilação genital feminina. Clark aplaudiu o papa especificamente por dizer que o movimento das mulheres evidenciou a ação do Espírito.

Mas Clark defendeu que a questão das mulheres na Igreja continua sendo, como ela disse caritativamente, complicada. Ela observou que a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos retirou o seu apoio à lei Violence Against Women porque a legislação proposta incluía proteções para lésbicas e mulheres transgêneros. O fato de que o Centro de Controle de Doenças estima que um terço de todas as mulheres experimentam a violência em suas relações íntimas foi considerado menos importante para as lideranças da conferência do que o medo de estarem contaminados em sua pureza moral, ao se associarem a uma legislação que protege mulheres gays e transgêneros. Clark também observou astutamente a maneira como uma visão romantizada da vida familiar pode servir como mecanismo de controle clerical.

Isso leva a outra questão, que foi muito comentada no evento sobre a Amoris laetitia: onde está a Conferência dos Bispos dos Estados Unidos, a USCCB? Eles enviaram um funcionário ao evento, mas por que a USCCB não promoveu explorações similares sobre o documento, indicando as melhores mentes teológicas em várias regiões do país, promovendo a implementação da Amoris laetitia e iniciando a tarefa da conversão pastoral que ela fomenta? Outras conferências episcopais realizaram eventos semelhantes aos do Boston College. Por que a nossa [dos Estados Unidos] não?

Eu acho que todos sabemos a resposta: muitos bispos dos Estados Unidos veem todo esse pontificado como um mau tempo e eles só esperam que ele passe.

O arcebispo Charles Scicluna, de Malta, na sua apresentação, disse que o primeiro princípio teológico que estimulou a ele e ao seu colega em Malta a emitir as suas diretrizes para a implementação da Amoris laetitia foi “o princípio da colegialidade afetiva e da comunhão com o Santo Padre”. Será que todos os bispos deveriam operar com esse princípio? “A nossas diretrizes interpretam a Amoris laetitia através da lente de toda a tradição da Igreja”, continuou Scicluna. “A apresentação da doutrina cheia de frescor na Amoris laetitia não pode ser interpretada adequadamente sem levar em conta a mensagem central do Evangelho do amor misericordioso, as intuições teológicas de Tomás de Aquino, a renovação do Concílio Vaticano II, assim como os ensinamentos dos papas recentes. O quadro pastoral das nossas diretrizes reflete uma ‘continuidade hermenêutica’, e não uma ‘hermenêutica da ruptura’.”

A tarefa da conversão pastoral é especialmente urgente quando se trata da formação sacerdotal. Muitos comentaristas falaram sobre a divisão geracional e sobre quantos jovens padres veem o seu papel não no sentido de acompanhar pessoas, muito menos de facilitar o discernimento, mas de aplicar a lei. Eles ficam muito felizes em substituir a consciência da outra pessoa, em vez de formá-la.

A irmã franciscana Katarina Schuth abordou essa questão nas suas observações, e todo bispo e diretor vocacional que não busque conversar longamente com Schuth está envolvido em más práticas...

O fenômeno do clero mais jovem (e não apenas do clero) que resiste à conversão pastoral que o papa está pedindo não se limita aos Estados Unidos. Philippe Bordeyne, reitor do Institut Catholique de Paris, afirmou: “Devo confessar que há uma lacuna entre aqueles que aprovam que o papa mostre uma compreensão pastoral em relação a assuntos familiares, e aqueles que temem que o papa possa estar alimentando o relativismo ao admitir que muitas pessoas vivem em situações cinzentas, sem estarem privadas da graça de Deus. Na segunda categoria, há uma série de jovens católicos altamente comprometidos, que esperam do papa uma retórica do ideal, em vez de uma visão realista sobre a situação real das famílias”.

Mas a Amoris laetitia é quase exclusivamente útil no contexto das famílias dos Estados Unidos, como mencionou o cardeal Kevin Farrell. Falando sobre a polarização na Igreja dos Estados Unidos, o cardeal disse que a Amoris laetitia pode contribuir para uma cultura mais sadia nos Estados Unidos. “Por um lado, a nossa cultura tem se caracterizado como partidária e polarizada, desprovida de heróis e de ideais, em que o fato de ser consumido pelo ‘eu’ triunfa sobre o comunitário”, disse Farrell.

Ele continuou:

“Mas, por outro lado, na nossa cultura estadunidense, as pessoas se ajudam em inúmeras formas de caridade, e o termo ‘primeiros socorros’ é usado para venerar todos aqueles que arriscam a vida e os próprios membros pelos outros. Ser fiel à tradição católica em diálogo significa que precisamos ter algo a dizer e a defender. No que diz respeito ao matrimônio na nossa cultura, isso significa defender a fidelidade e os compromissos permanentes em uma cultura do ‘ficar’, em que os aplicativos de computador oferecem oportunidades de sexo casual sem compromissos. O diálogo também significa que ouvimos atentamente aquilo que a cultura está falando sobre os modos pelos quais o ensino católico tem sido distorcido. Isso também significa que argumentamos de forma responsável sobre como os católicos são ‘crentes e pertencentes’, ‘espirituais e religiosos’, respeitosos de todos, embora marcados por princípios em torno do núcleo das nossas crenças.”

O professor Richard Gaillardetz abordou as implicações eclesiológicas na sua apresentação. Ele postulou que a Amoris laetitia e os sínodos que levaram até ela mostram que “uma visão eclesial mais ampla está sendo posta em prática”, em que a sinodalidade é o leitmotiv organizacional, e o serviço é o método. Gaillardetz refletiu sobre o discurso do Papa Francisco no 50º aniversário da criação do Sínodo dos bispos, um aniversário celebrado durante o Sínodo de 2015.

“É impressionante que esteja ausente nos discursos papais qualquer retórica sacral em relação ao sacerdócio e ao ministério”, observou Gaillardetz. “Em vez disso, ouve-se um apelo aos ministros da Igreja, em todos os níveis da vida eclesial, a saírem e se encontrarem com as pessoas, atentos à sua fragilidade e a preocupações e percepções particulares.”

Gaillardetz observou que, no seu discurso comemorativo do Sínodo, a “escolha do papa de associar o caráter cristológico do ministério presbiteral e episcopal com o lava-pés de Jesus, em vez da sua associação mais típica com a instituição da Eucaristia, é sugestiva de uma trajetória bastante diferente para a reflexão teológica sobre o ministério ordenado”.

A sinodalidade não é uma mera reestruturação: ela requer uma Igreja que escuta e aprende, assim como ensina; de fato, uma Igreja capaz de ensinar porque escutou e aprendeu.

Essa imagem do Papa Francisco lavando os pés de uma mulher, que estava presa e não era católica, poderia servir como a imagem que melhor representa todo esse congresso. A Igreja deve estar a serviço das famílias e dos casamentos, mas também devemos deixar os nossos santuários e as nossas sacristias, e sair para encontrar aqueles que, nesse contexto, estão feridos, porque suas famílias estão despedaçadas ou são fontes de conflitos e de dor.

Nós saímos não porque somos um tipo de organização não governamental inclinada a ajudar as famílias. Saímos porque – para chamar a atenção para outra imagem que o então cardeal Jorge Bergoglio compartilhou com os seus coirmãos cardeais antes do conclave que o elegeu papa –, quando pensamos em Jesus batendo na porta, talvez ele esteja batendo para sair.

Esse congresso lançou aos presentes (e, espero, também àqueles que verão os vídeos ou lerão os documentos) a tarefa de abrir essa porta e deixar o Corpo de Cristo sair, caminhar pelas ruas e sujar os nossos pés e as nossas mãos, servindo ao povo de Deus, cujas experiências de vida familiar podem ser fontes de graça, somente se alguém as acompanhar, encorajá-las, ajudá-las a discernir como Deus já está agindo, até mesmo e especialmente em meio à dor e à fragilidade.

Os críticos estão obcecados com a discussão sobre os divorciados em segunda união. Isso não é nem a metade do problema.

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