Novo documento papal sobre liturgia: quem esteve envolvido e o que isso nos diz. Artigo de Massimo Faggioli

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14 Setembro 2017

Magnum Principium deve ser lido no contexto da história recente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e as recorrentes tensões entre o Papa Francisco e o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação e o crítico mais visível deste pontificado dentro da Cúria Romana.”

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por America, 12-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Magnum Principium é um dos principais documentos do pontificado de Francisco. Por essa razão, merece uma análise que não seja apenas do contexto histórico-teológico – nem apenas do ponto de vista das suas possíveis consequências para os textos litúrgicos em inglês –, mas também uma análise do contexto institucional em que foi decidido e publicado.

O estabelecimento das conferências episcopais nacionais, às quais a carta apostólica devolve autoridade em matéria de traduções dos textos litúrgicos, foi a reforma institucional mais importante e efetiva do Concílio Vaticano II.

Mesmo antes do “Decreto sobre o Múnus Pastoral dos Bispos na Igreja” (1965) do Concílio, que ordenava a criação das conferências episcopais nacionais em todas as nações, a “Constituição sobre a Sagrada Liturgia”, aprovada em dezembro de 1963, baseava-se nessa nova (embora certamente presente em diferentes formas nos primeiros séculos do cristianismo) estrutura de governo da Igreja Católica. Isso fazia parte da visão mais ampla dos Padres conciliares sobre uma nova relação entre Roma e as Igrejas locais. Nesse sentido, Francisco aborda a questão das traduções dos textos litúrgicos no contexto da sua visão sobre a Igreja e o papel da Cúria Romana.

Magnum Principium também dá continuidade a um padrão que provou ser um dos elementos mais interessantes deste pontificado. Os esforços de Francisco para reformar a Cúria Romana e descentralizar o governo da Igreja Católica Romana tenderam a ignorar e evadir o papel das Congregações da Cúria Romana. Por exemplo, Magnum Principium foi emitido pelo papa motu proprio (“por sua própria iniciativa”), não como uma instrução da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos ou como um documento conjunto de mais de uma Congregação.

Também é notável que Magnum Principium foi publicado durante uma viagem papal ao exterior. Ele foi publicado no dia em que Francisco estava em Medellín, Colômbia, onde ocorreu o evento fundacional para a Igreja pós-Vaticano II na América Latina: a conferência continental do Celam (o conselho dos bispos católicos da América Latina) em 1968. Se foi coincidência, foi uma coincidência muito interessante.

O documento também deve ser lido no contexto da história recente da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e as recorrentes tensões entre o Papa Francisco e o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação e o crítico mais visível deste pontificado dentro da Cúria Romana.

É difícil imaginar um grande papel do cardeal Sarah, que foi nomeado prefeito por Francisco em novembro de 2014, na elaboração desse texto. O prefeito não é mencionado, e o comentário oficial que acompanha a publicação de Magnum Principium não tem a assinatura dele, mas sim a do secretário da Congregação, o arcebispo Arthur Roche (nomeado por Bento XVI em junho de 2012 para substituir o arcebispo Joseph Augustine Di Noia, que foi nomeado vice-presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei” por Bento XVI). O arcebispo Roche foi presidente da Comissão Internacional sobre o Inglês na Liturgia (ICEL, na sigla em inglês) entre 2003 e 2012, quando a comissão supervisionou a nova tradução inglesa da missa.

Na carta apostólica, Francisco diz ter se baseado em uma comissão de bispos e especialistas. Não conhecemos os nomes dos membros, mas, em outubro de 2016, a Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos passaram por uma grande mudança de pessoal, com a nomeação de 27 novos membros. Entre eles, estava o ex-liturgista de São João Paulo II, o arcebispo Piero Marini. Entre os que foram removidos das duas Congregações, estavam os cardeais Angelo Scola (Milão), Angelo Bagnasco (Gênova) e Peter Erdo (Esztergom-Budapeste).

Talvez o mais importante, porém, foram as saídas destes quatro cardeais: George Pell (Secretaria para a Economia), Raymond Burke (Cavaleiros de Malta), Marc Ouellet (Congregação para os Bispos) e Malcolm Ranjith (Colombo, Sri Lanka). Os novos nomeados incluíam o cardeal Parolin, o secretário de Estado vaticano; e um novo cardeal que compartilha muito a eclesiologia de Francisco, John Atcherley Dew, arcebispo de Wellington, Nova Zelândia.

A tensão entre o papa e o cardeal Sarah é particularmente interessante porque parece ser, em parte, o resultado da recente ênfase de Francisco na liturgia. Em julho de 2016, Francisco respondeu, através de um comunicado incomum da Sala de Imprensa da Santa Sé, às declarações do cardeal Sarah que atribuíam ao papa um endosso à “reforma da reforma litúrgica”.

Em novembro de 2016, a revista La Civiltà Cattolica publicou um artigo destacando a visão positiva de Francisco sobre a reforma litúrgica do Vaticano II, como expressada no prefácio de um volume das suas homilias recentemente publicado em italiano.

E, em janeiro de 2017, vazaram notícias em Roma segundo as quais Francisco criou uma comissão para revisar a Liturgiam Authenticam, a instrução emitida em 2001 pela Congregação para o Culto Divino sobre as traduções litúrgicas.

Finalmente, em 24 de agosto de 2017, em um discurso aos liturgistas italianos em Roma, o próprio Francisco falou sobre a reforma litúrgica do Vaticano II como “irreversível”. Esses recentes desdobramentos proporcionam mais contexto para o Magnum Principium.

Embora alguns vejam nesse documento um endosso de uma eclesiologia mais “localista” como parte do esforço de descentralização de Francisco, Magnum Principium também pode ser visto como a resposta de Francisco à questão das traduções dos textos litúrgicos no mundo de língua inglesa nessa última década. “A triste saga da falha tradução inglesa do Missal Romano III”, como disse o Pe. Michael Ryan em um artigo na revista America, é uma parte fundamental do contexto.

É importante lembrar que a nova tradução inglesa do Missal foi mais uma operação liderada pelos Estados Unidos do que por Roma, com importantes prelados estadunidenses assumindo a iniciativa de mudar a ICEL e o papel do Vaticano no processo das traduções litúrgicas, como indicou John Baldovin, SJ.

Outros grupos linguísticos resistiram à nova onda de revisões das traduções litúrgicas no papado de Bento XVI – até mesmo alguns não conhecidos pela sua hostilidade ao Vaticano e ao papado. Por exemplo, em 2012, a Conferência Episcopal Italiana rejeitou, com uma maioria esmagadora, a mudança na tradução de “pro multis” na liturgia de “por todos” para “por muitos”.

Com Magnum Principium, Francisco está restaurando a confiança entre Roma e as conferências episcopais nacionais, mas, ao mesmo tempo, reafirmando o papel de Roma como garantia institucional da trajetória da reforma litúrgica do Vaticano II. Essa combinação de uma abordagem de cima para baixo (o papel do papado) e de baixo para cima (as conferências episcopais) tem sido típica na história da reforma litúrgica desde o Vaticano II, particularmente durante o pontificado de Paulo VI.

Finalmente, Magnum Principium diz algo sobre o estilo de governo de Francisco. Essa carta apostólica é mais uma prova de que Francisco está governando a Igreja Católica com quase nenhuma dependência da Cúria e, em alguns casos, está trabalhando em desacordo com figuras de destaque na Cúria. É claro que Francisco tem em mente um papel de continuidade para a Cúria Romana na Igreja. Em um recente livro-entrevista em francês com o sociólogo Dominique Wolton, Francisco rejeita a ideia de abolir a Cúria. Ao mesmo tempo, ele está usando a Cúria de uma maneira muito diferente em relação aos seus antecessores.

Tudo isso está ocorrendo exatamente enquanto um plano abrangente para a reforma da Cúria Romana está se aproximando do seu estágio final, como anunciou o secretário do Conselho dos Cardeais do papa, Dom Marcello Semeraro, em uma entrevista à Rádio Vaticano apenas algumas horas antes de Francisco voltar da Colômbia.

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