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13 Setembro 2017

O Cerrado apresentou, nos últimos três anos, desmatamento a uma velocidade cinco vezes maior que da Amazônia, escrevem Isabel Figueiredo, assessora técnica do Instituto Sociedade, População e Natureza e Emmanuel Ponte, assessor de comunicação da Campanha Nacional em Defesa do Cerrado em artigo publicado por Brasil de Fato, 12-09-2017. 

Segundo eles, precisamos abrir os olhos para a devastação que está ocorrendo no coração do país e entender seu impacto no médio e longo prazo. Por isso há uma mobilização no sentido de incluir o Cerrado, e o bioma vizinho, a Caatinga, como patrimônios nacionais na Constituição Brasileira. Se o ritmo de destruição do Cerrado continuar, ficaremos sem água no Cerrado e fora dele.

O Cerrado é hoje considerado a última fronteira agrícola do país. Foto: Pedro Ventura/Agência Brasília

Eis o artigo.

A Constituição brasileira reconheceu alguns dos nossos biomas como essenciais para a nossa sobrevivência como sociedade. A Amazônia, a Mata Atlântica, a Serra do Mar, o Pantanal Mato-Grossense e a Zona Costeira foram considerados patrimônios nacionais, um status simbólico que amplia a percepção sobre a importância desses biomas e estimula maior cuidado ao fazermos uso de seus recursos naturais.

Recentemente, Michel Temer, em um ato de negação dessa importância, extinguiu uma área de reserva na Amazônia para abrir espaço a mais exploração mineral. Um fato que nos surpreendeu, dado o consenso nacional sobre a necessidade de estancar o desmatamento daquela região. Dezenas de organizações e milhares de pessoas têm se mobilizado contra a medida do presidente. Mas, há um outro bioma, tão essencial para a sobrevivência do ser humano quanto a Amazônia, que permanece praticamente invisível aos olhos dos brasileiros: o Cerrado.

A opinião pública sobre a importância das florestas tropicais vem sendo construída há bastante tempo. Não à toa: são belas, exuberantes, biodiversas e importantes para a regulação do clima na Terra; ninguém ousa dizer o contrário. Já o Cerrado, aquela vegetação aberta e baixa, com árvores retorcidas, que esconde sua grandiosidade embaixo da terra com suas raízes profundas, é desvalorizado pela opinião pública. Outros biomas não-florestais, como o Pampa e a Caatinga, também sofrem essa discriminação. Tal invisibilidade tem contribuído para que o Cerrado venha apresentando, nos últimos três anos, desmatamento a uma velocidade cinco vezes maior que da Amazônia, restando hoje apenas cerca de metade de sua área original, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente.

O Cerrado é hoje considerado a última fronteira agrícola do país. É para onde o agronegócio tem se voltado uma vez que a opinião pública se mostra menos preocupada com a nossa savana do que com a Amazônia. E ele é o principal responsável pelo desmatamento no Cerrado. Mas quais são as reais consequências desse desmatamento?

A mudança no ciclo da água é a primeira delas. Diversas regiões do Brasil passaram por gravíssimas crises hídricas nos últimos anos. Muito se fala sobre escassez de chuvas, mas pouco se fala sobre os efeitos causados pelo desmatamento do Cerrado. Sem a cobertura de vegetação do Cerrado, o regime de evapotranspiração e infiltração de água são alterados, comprometendo o reabastecimento dos mananciais e afetando a disponibilidade de chuvas. O bioma é responsável por abrigar e abastecer três das principais bacias hidrográficas do país - Tocantins-Araguaia, São Francisco e Paraná - e cobre os três maiores aquíferos que alimentam nosso continente: Guarani, Bambuí e Urucuia.

Outro resultado do desmatamento do Cerrado é a destruição do elo entre os biomas brasileiros. O Cerrado ocupa a região central do país, está presente em doze estados e se comunica com outros quatro biomas, o Pantanal, a Caatinga, a Mata Atlântica e a Amazônia. O Cerrado também é importante por possuir espécies com diversas adaptações genéticas à sazonalidade marcada do bioma. Estratégias desenvolvidas ao longo da evolução permitem que a vegetação suporte a abundância de água em épocas de chuva, e a escassez de água por longos períodos nos meses de seca, quando estas plantas precisam fazer uso de suas longas raízes para penetrarem nas camadas mais profundas do solo, alcançando água. As características que conferem ao Cerrado a resistência à seca se tornam mais importantes em um cenário de mudanças climáticas, como o que estamos vivendo.

Muitos desmerecem o papel do Cerrado na fixação de carbono, mas trata-se de um equívoco. Grande parte da biomassa do Cerrado não é visível como a das florestas tropicais, pois está abaixo do solo. Além disso, há uma enorme quantidade de carbono armazenada no solo do Cerrado. Entendendo isso, o governo brasileiro, durante a COP15 em Copenhague, se comprometeu com metas voluntárias de redução de emissões de carbono por meio da redução do desmatamento do Cerrado. No entanto, pouco tem sido feito para que essas metas sejam atingidas. Pelo contrário, nos últimos anos, com incentivos do governo, imensas áreas de Cerrado tem sido convertidas em monoculturas, aumentando muito as emissões brasileiras, causando escassez d’água, ameaças à biodiversidade e às comunidades locais. Por que aceitamos essa contradição?

Precisamos entender que a natureza é um sistema complexo e interligado e que precisamos de todos os biomas. Precisamos abrir os olhos para a devastação que está ocorrendo no coração do país e entender seu impacto no médio e longo prazo. Por isso há uma mobilização no sentido de incluir o Cerrado, e o bioma vizinho, a Caatinga, como patrimônios nacionais na Constituição Brasileira. Se o ritmo de destruição do Cerrado continuar, ficaremos sem água no Cerrado e fora dele.

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