"Agora que é papa, ele começou a sorrir de novo. Ele é outra pessoa", constata prima de Francisco

Revista ihu on-line

Renúncia suprema. O suicídio em debate

Edição: 515

Leia mais

Lutero e a Reforma – 500 anos depois. Um debate

Edição: 514

Leia mais

Bioética e o contexto hermenêutico da Biopolítica

Edição: 513

Leia mais

Mais Lidos

  • A quem interessa a onda de intolerância religiosa que sacode o Brasil?

    LER MAIS
  • Amplia-se a distância entre Francisco e a Igreja dos EUA: papa envia Parolin em missão

    LER MAIS
  • Por que 60% dos eleitores de Bolsonaro são jovens?

    LER MAIS

Newsletter IHU

Fique atualizado das Notícias do Dia, inscreva-se na newsletter do IHU


close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Enviar

13 Setembro 2017

Em vários aspectos, a Ir. Ana Rosa Sivori, missionária salesiana na Tailândia, é como inúmeras outras religiosas e sacerdotes missionários católicos em todo o mundo. A única diferença é que Sivori também é prima segunda do seu chefe – não da ordem nem da diocese local, mas da Igreja inteira, porque ela é parente do Papa Francisco e claramente compartilha grande parte do “sangue Bergoglio”.

A reportagem é de Claire Giangravè, publicada no sítio Crux, 12-09-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em uma pequena sala de uma escola feminina a apenas uma hora e meia de Bangkok, na Tailândia, a Ir. Ana Rosa Sivori olha pacientemente pela janela, com o som de crianças cantando canções religiosas do lado de fora e o zumbido do ar condicionado como trilha sonora.

Somente olhando atentamente é que é possível encontrar a impressionante semelhança entre Rosa e o seu famoso primo: o Papa Francisco.

“Ele é livre de preocupações”, diz Sivori, 75 anos, irmã superiora da Nareewut School, sobre o seu célebre parente papal. “Ele não tem medo de nada.”

Rosa e Jorge Mario Bergolio, agora Papa Francisco, têm o mesmo bisavô, e os seus pais são primos, tornando-os primos segundos. Assim como muitas famílias argentinas, porém, os parentes da família Bergoglio, por mais distantes que sejam, são muito próximos.

“Somos uma família muito unida”, disse Sivori ao Crux, acrescentando que, especialmente com os membros mais velhos da família, Francisco “sempre foi muito, muito fraterno, muito próximo”.

Antes da sua eleição como papa, Francisco celebrou a missa de funeral para a mãe de Rosa, quando ela morreu. Assim que a saúde do pai dela começou a falhar, Francisco frequentemente o visitou até a sua morte e também celebrou o seu funeral.

“Meu pai costumava dizer que não há nenhum homem no mundo como Jorge”, disse Sivori.

Mas Francisco não estava apenas presente nos momentos de tristeza e necessidade. Ele também celebrou o casamento da irmã de Rosa.

Cerca de 30 membros da família Bergoglio viajaram para Roma quando o Papa João Paulo II o tornou cardeal, em fevereiro de 2001. Nenhum deles esperava que, na segunda vez que se encontrariam em Roma, seria para o primeiro dia de Francisco como papa.

“Eu estava realmente convencida de que ele não seria escolhido”, disse Sivori, que, durante o conclave de 2013, estava em missão na região nordeste da Tailândia. Mas, assim que ele foi eleito, ela imediatamente sentiu que o papado lhe caía bem.

“Ele disse que sentiu uma grande paz cair sobre ele, e, desde aquele dia, essa paz nunca o abandonou”, disse.

Há uma intensidade silenciosa em Sivori, fortemente reminiscente do seu primo, na maneira como ela fala e nas suas súbitas explosões de ação. Rosa, assim como Francisco, não é uma pessoa que consegue ficar parada.

Enquanto estudava em uma escola dirigida pelas irmãs salesianas em Buenos Aires, Sivori gostava de fazer festa e de visitar as casas dos seus amigos, mais do que longos sermões e ritos. Aos 15 anos, no Dia do Lírio na Argentina, uma festa em homenagem à Virgem Maria, ela tomou a súbita decisão de se tornar freira para a alegria e a felicidade de seus pais.

Ela sentiu um chamado a ser missionária, o mesmo chamado repetido muitas vezes por Francisco durante os discursos dominicais do Ângelus – que, como jovem jesuíta, sonhava em servir, ele mesmo, como missionário na Ásia –, e, em 1965, voou para a Tailândia, onde ela ficaria por 51 anos, trabalhando como professora de moral e catequista.

“Depois do meu encontro com a madre superiora, eu tive que ir e olhar onde estava a Tailândia no mapa”, lembrou Sivori, rindo.

Os primos também compartilham uma dedicação especial ao voto de pobreza. Francisco é conhecido por usar um simples par de sapatos pretos e por preferir as suas calças usuais da Argentina à calça alternativa dos alfaiates italianos.

“Eu sou muito austera comigo mesma. Para mim, a pobreza está na vanguarda de ser cristão. Nesse sentido, somos parecidos”, disse Sivori. “Eu tenho este par de sapatos”, acrescentou ela, apontando para as suas sandálias pretas desgastadas.

“Mesmo que não sejam bonitas, elas são confortáveis”, disse.

Sivori descreve o seu primo como uma pessoa muito “coerente”, que não se importa com as aparências.

“Ele diz o que tem a dizer, e o que ele diz, ele vive”, afirmou.

O papa decidiu romper com a tradição quando optou por residir na Domus Sanctae Marthae, o pequeno alojamento para dignitários e religiosos em visita ao Vaticano, em vez do Palácio Apostólico.

“Ele me disse que, se tivesse que ficar no Palácio Apostólico, a Igreja teria que gastar milhões para pagar os seus psiquiatras”, disse Sivori, acrescentando que o papa não gosta de ficar sozinho em quartos grandiosos e prefere muito mais a proximidade com as pessoas.

Mas Francisco nem sempre foi assim. Sivori descreve o então cardeal Bergolio, na Argentina, como alguém que tinha uma atitude “muito austera”.

“Durante as cerimônias religiosas e as procissões, o seu rosto costumava ser muito sério. Agora que é papa, ele começou a sorrir de novo. Ele é outra pessoa”, disse ela. “Ele não tinha esse sorriso antes.”

A razão por trás da mudança pode ser uma história contada por Rosa. Ela disse que o cardeal Mario Aurelio Poli, que sucedeu Bergoglio na liderança da Arquidiocese de Buenos Aires, perguntou ao papa por que ele nunca costumava sorrir tanto assim quando vivia na Argentina.

“Porque eu gosto de ser papa!”, respondeu Francisco, de acordo com Rosa.

Quando perguntada se acreditava que o papa irá visitar a Argentina alguma vez, Rosa mostrou-se cética.

“Eles querem você na Argentina”, foi o que Sivori disse ao papa dentro de um elevador no Vaticano, e ele se inclinou perto do seu ouvido e sussurrou: “Eu não quero ir”.

“Este não é um bom momento para ir à Argentina”, explicou Sivori, dizendo estar preocupada com a atual situação política e com a recepção que Francisco poderia receber. “Os argentinos reclamam de manhã à noite. Muitos reclamam que o papa não faz o suficiente pelo país”, acrescentou.

Mas, aos críticos de Francisco, Sivori responde com o verdadeiro “sangue Bergoglio”.

O papa “não tem medo de dizer o que tem a dizer”, afirmou Rosa, acrescentando que, apesar do seu pedido de reforma e mudança, se olharmos cuidadosamente para a história recente da Igreja Católica, Francisco “segue os passos dos seus antecessores”.

Assim como Francisco, Sivori é educadora e dedicou a sua vida a ensinar e a espalhar o Evangelho. A Nareewut School, onde ela ensina, tem 1.650 estudantes do sexo feminino, das quais apenas 100 se identificam como católicas, embora a maioria não seja batizada devido à hesitação dos seus pais.

A Tailândia é um país de maioria budista, e os católicos representam apenas 0,46% da população. Sivori explicou que a maioria dos católicos na Tailândia são originários do Vietnã ou da China. “Há algumas conversões, mas principalmente em famílias mistas”, disse.

Apesar de seus números pequenos, muitos católicos na Tailândia se perguntam por que o papa não passará pelo país para uma visita durante a sua viagem a Mianmar. Sivori contou que os bispos locais lhe disseram que, mesmo que o papa desejasse ir ao país, ela deveria dizer-lhe para não ir.

A Tailândia tem atravessado um período de agitação política, que levou a que os militares assumissem o controle do governo. Além disso, o muito querido rei da Tailândia morreu no ano passado, deixando um vazio de liderança. Os professores da Nareewut School se vestem de preto em luto, e as crianças portam fitas pretas nos seus braços.

Mas Sivori acredita que, se os padres locais trabalharem duro e abraçarem plenamente o chamado de Francisco a se tornarem “pastores” em vez de se concentrarem no status social e no reconhecimento, as coisas podem mudar.

No seu tradicional “estilo Bergoglio”, Sivori aponta para o crescimento do consumismo e do mundanismo como obstáculos para as conversões. “Eu me preocupo com a onda de modernidade que varreu Bangkok”, disse ela pensativa. “Eu também vejo isso nas crianças da escola.”

Enquanto ela caminha pela escola, com o seu hábito branco refletindo o brilhante sol tailandês, o seu olhar é determinado, mas, assim como Francisco, sempre sorridente.

Leia mais

 

Comunicar erro

close

FECHAR

Comunicar erro.

Comunique à redação erros de português, de informação ou técnicos encontrados nesta página:

"Agora que é papa, ele começou a sorrir de novo. Ele é outra pessoa", constata prima de Francisco - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

##CHILD
picture
ASAV